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Bad Bunny halftime e a vitória da cultura americana
Por Matheus Bazzo
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10.fev.2026
Midle Dot

Alexander Hamilton nasceu no Caribe. Dos sete founding fathers, pelo menos um deles nasceu no mesmo conjunto de ilhas de Bad Bunny, o artista que apresentou no último domingo o intervalo do Super Bowl mais comentado dos últimos tempos.

O show levantou uma série de questionamentos sobre a diversidade na cultura americana e despertou um grande furor nas alas de extrema direita americana, especialmente pelo fato de o cantor ter apresentado todas as suas músicas em espanhol, como elas de fato são originariamente. Porém, se considerarmos a gênese americana em seus fundadores – onde muitos têm origem direta francesa ou escocesa, ou cujos parentes têm origem também diversa – já é possível compreender que os EUA não são um fenômeno exclusivamente anglo-saxão e que precisa ser entendido em todo seu escopo. Se considerarmos a ascensão das ideias nacionalistas nos EUA e no mundo, torna-se cada vez mais importante refletir sobre o que verdadeiramente nos constitui como nação.

Ao ser preso em Jerusalém e prestes a ser açoitado, o apóstolo Paulo pergunta ao centurião: “É-vos lícito açoitar um cidadão romano, sem ser ele condenado?”. O comandante romano fica surpreso porque ele mesmo teve de pagar uma grande soma para obter a cidadania, enquanto Paulo afirma: “Pois eu o sou de nascimento”. Esse é só um exemplo de como a dinâmica de expansão do cristianismo nos primeiros séculos está intimamente ligada ao desenvolvimento do Império Romano e da sua constituição como identidade política.

É preciso considerar a expansão do Império Romano especialmente pela sua reconhecida capacidade de articular a diversidade cultural em uma época onde as ferramentas de comunicação e articulação social eram tão precárias. Também é reconhecida a grande influência da ideia de República Romana na formação dos EUA e da grande estima que os Founding Fathers tinham por ela. Fato é que um dos grandes méritos que permitiu a expansão do maior Império da História da humanidade foi sua capacidade de articular a diversidade. O próprio trono do Império refletia essa diversidade: o Império teve imperadores de origem hispânica (Trajano e Adriano), africana (Sétimo Severo, nascido na atual Líbia) e árabe (Filipe, o Árabe). Ou seja, a força de uma nação imperial reside na sua capacidade de integrar o diverso em vez de excluí-lo.

Isso porque a diversidade é uma qualidade. Apesar da palavra ‘diversidade’ ter sido sequestrada pela militância esquerdista, o seu sentido verdadeiro segue sendo o mesmo. Ela é uma qualidade que garante superioridade aos povos e à própria vida humana. A diversidade expande a criatividade, permite a colaboração de diferentes talentos, torna o tecido social mais colorido e atesta a grandiosidade do ser humano. O próprio presidente Trump é testemunha viva dessas vantagens ao ser filho de imigrante escocesa e estar casado com uma imigrante eslovena.

A discussão é longa e complexa, mas é possível argumentar que o que levou à queda do Império Romano não foi a diversidade, como muitos na extrema-direita tentam associar ao interpretar o mundo ocidental contemporâneo como sendo novamente invadido por bárbaros (que são sempre os imigrantes). Muito mais perigoso que a diversidade cultural, foi a tendência autocrática do fim do Império Romano, projetando em seus líderes um poder maior do que deveriam ter. Essa centralização impede a integração de novos povos e inevitavelmente quebra a balança de poder. O perigo da falta de integração leva à polarização que, aí sim, gera a revolta dos bárbaros.

Adrian Goldsworthy, em sua análise sobre a queda de Roma, demonstra que o Império não foi derrotado por força superior externa, mas por uma autocracia paranoica. A centralização excessiva na figura do Imperador transformou o governo em um mecanismo de autopreservação do líder, drenando a vitalidade das instituições e tornando o Estado incapaz de integrar novos povos ou reagir a crises.

A martelada final nesse processo de unificação forçada se deu justamente com a ascensão do cristanismo em um contexto tomado pela mentira política. Em seu brilhante artigo “Cristianismo: a vitória da inteligência sobre o mundo das religiões” o Papa Bento XVI, então cardeal Ratzinger constata justamente que: “A religião antiga era, essencialmente, uma instituição do Estado, uma ‘religião política’. O seu objetivo não era a busca da verdade sobre Deus ou sobre o homem, mas a preservação da ‘pólis’, a coesão do corpo social através do rito e do mito.” E conclui: “O cristianismo, ao identificar o Deus da Fé com o Deus dos Filósofos (o Logos), desferiu um golpe mortal na religião política. Ele ‘dessacralizou’ o Estado. César já não era Deus; o Estado já não era a última instância da realidade.”

Ou seja, a queda de uma estrutura política está muito mais ligada à glamourização de seus líderes do que à sua diversidade cultural. A variedade de um povo, quando articulada e assimilada, é uma grande vantagem.

Por isso que a diversidade cultural, como representada no halftime de Bad Bunny, deve ser interpretada como uma oportunidade de expansão e integração da cultura. Para isso, precisamos olhar com discernimento para o que foi ali representado.

Primeiro é preciso reconhecer os aspectos negativos que foram representados ali. A primeira coisa que precisa ser criticada é a hipersexualização e a vulgaridade das danças e das letras das músicas de Bad Bunny. Quanto a isso, não se pode levantar qualquer salvaguarda. Porém precisamos reconhecer o contexto de que toda a cultura contemporânea é altamente sexualizada e isso não é um fenômeno exclusivo do artista, da cultura porto riquenha ou até mesmo do progressismo. Seria imprudente afirmar isso especialmente no contexto recente figuras da elite de direita (como o círculo em torno da lista de Epstein) também estão inseridas nesse contexto de decadência moral.

Porém, para além de algumas imoralidades, o show de Bad Bunny representou muitas virtudes. Ele começa exaltando a localidade ao invés de propagandear um espírito universalista: olha para a raiz porto-riquenha e para o valor do seu trabalho e do seu povo. Também destacou com muito entusiasmo a família e o casamento, tendo inclusive uma cerimônia de casamento sendo literalmente celebrada ao vivo durante o show. Nesse momento vemos Lady Gaga vestida com ares de Marilyn Monroe (ícone americano, certo?) e dançando modestamente com Bad Bunny.

A presença da família aparece em vários contextos ali, inclusive num singelo momento em que Bad Bunny entrega o prêmio do Grammy – que o artista ganhou uma semana antes do evento – a um garotinho que está sentado junto de seus pais. O garoto veste as mesmas roupas que Bad Bunny vestia quando criança, sendo então uma representação dele mesmo e da sua vitória pessoal.

Essa vitória pessoal, o sonho americano afinal, é também muito presente durante a apresentação. O artista em dado momento olha para a câmera e enfatiza: “Você deveria crer em você mesmo. Você vale mais do que você pensa.” São frases que refletem o chamado individual a realizar o sonho da própria vida que, na cultura americana, é um ato de consagração.

Tendo em vista todos esses pontos de contato com a cultura americana e propriamente humana, espanta que a apresentação tenha recebido tantas críticas por parte da extrema direita. Parece faltar a compreensão de que os EUA é um projeto que se une muito mais sob o reconhecimento de alguns valores do que pela sua origem étnica. O exclusivismo étnico como expressão da grandiosidade americana é uma contradição em termos. Como somente uma parte de um povo poderia se expandir para além da sua taxa de natalidade? Uma nação que depende de uma etnia única está fadada ao fracasso.

Não somente é uma contradição, como a própria origem dos ideais americanos paga um alto tributo à diversidade. Em seu livro “La Universidad de Salamanca y la Constitución de los Estados Unidos” (2002) o intelectual argentino Joris Gonnet explica que as bases da liberdade americana têm raízes na Escolástica espanhola e católica, e não apenas na herança inglesa. O autor sustenta que os princípios fundamentais de soberania popular e o “consentimento do povo” foram desenvolvidos por teólogos espanhóis (como

Vitoria e Suárez) e aplicados nas colônias americanas (especialmente nas Fundamental Orders de Connecticut de 1639) muito antes das obras de John Locke. Em suma, a obra defende que os Estados Unidos herdaram e projetaram para o mundo moderno uma tradição hispânica de liberdade que a própria Espanha havia esquecido.

Ao final da apresentação, Bad Bunny mostra uma bola de futebol americano com os dizeres: “Together we are America.” O ato acontece após o cantor listar os nomes de vários países latino americanos, ao mesmo tempo em que é precedido pela bandeira dos EUA. O ato foi interpretado pela extrema-direita como uma expressão de ódio contra os EUA. Não só essa interpretação é altamente equivocada como é de especial desperdício por parte da direita desprezar esse o anseio de união da América Latina propagado por Bad Bunny. Esse sentimento poderia inclusive ser estrategicamente útil para os interesses americanos (ou o anseio imperialista de Trump).

Espantosa foi também a crítica ferrenha que alguns na direita fizeram ao fato da apresentação ter sido realizada em espanhol. Ora, as músicas do artista são em espanhol e ele foi convidado para se apresentar. Até porque, Porto Rico é território americano, portanto não é de se espantar que existam americanos que falam espanhol como sua língua principal. Além do mais, a falta de domínio em outra língua não deveria ser motivo de orgulho. Se uma nação é capaz de ter diversidade linguística como característica, isso é sinal de virtude.

A ideia de que a constituição dos EUA é fruto de uma origem étnica e linguística única não só é falsa como é desastrosa. Forçar a narrativa de uma unidade nacional com base na pureza étnica é um flerte com o ideário nazista. Somadas essas concepções com o sentimento de auto-exclusão muito comum na extrema direita e temos a fórmula pronta para esse comportamento ignorante e odiento.

Como católico, não posso deixar de constatar que a Igreja é capaz de expressar belas soluções para a articulação da diversidade e da unidade cultural. Tão exuberante é essa virtude da Igreja que eu poderia usar a minha paróquia local como estudo de caso. Nossa paróquia fica em um bairro muito tradicional de Central Florida onde o público geral é constituído por americanos em sua maioria anglo-saxões. Porém, a composição do clero na paróquia é formada por um pároco irlandês, um padre de origem jamaicana, outro de origem indiana, outro de origem filipina e mais um de origem nigeriana. A diversidade de sotaques é um grande marco em nossa paróquia. Apesar das diferenças, todos ali vivem em grande harmonia e caridade por comungarem da mesma compreensão: de que a verdadeira unidade é encontrada na fé e nos valores compartilhados, não só ignorando as barreiras étnicas mas valorizando essas diferenças como dons de Deus como de fato são.

Nossa paróquia tem exposto uma relíquia de Santa Teresinha do Menino Jesus, uma das mulheres mais importantes da história da humanidade. O sinal da diversidade de nossa paróquia é explicado por essa mesma santa em seu diário pessoal quando ela se pergunta como cada alma pode ser grandiosa e ao mesmo tempo diferente uma da outra. A revelação de Teresa se deu ao contemplar um jardim florido onde a santa concluiu:

“Jesus dignou-se instruir-me a respeito desse mistério. Pôs-me diante dos olhos o livro da natureza e compreendi que todas as flores por ele criadas são belas, que o esplendor da rosa e a brancura do lírio não tiram o perfume da pequena violeta, nem a encantadora simplicidade da margarida… Compreendi que, se todas as florzinhas quisessem ser rosas, a natureza perderia sua gala primaveril e os campos não seriam mais esmaltados de variadas corolas”.

Da diferença das flores surge a beleza do jardim. Quisera Deus que fosse assim em nossas pátrias.

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Alexander Hamilton nasceu no Caribe. Dos sete founding fathers, pelo menos um deles nasceu no mesmo conjunto de ilhas de Bad Bunny, o artista que apresentou no último domingo o intervalo do Super Bowl mais comentado dos últimos tempos.

O show levantou uma série de questionamentos sobre a diversidade na cultura americana e despertou um grande furor nas alas de extrema direita americana, especialmente pelo fato de o cantor ter apresentado todas as suas músicas em espanhol, como elas de fato são originariamente. Porém, se considerarmos a gênese americana em seus fundadores – onde muitos têm origem direta francesa ou escocesa, ou cujos parentes têm origem também diversa – já é possível compreender que os EUA não são um fenômeno exclusivamente anglo-saxão e que precisa ser entendido em todo seu escopo. Se considerarmos a ascensão das ideias nacionalistas nos EUA e no mundo, torna-se cada vez mais importante refletir sobre o que verdadeiramente nos constitui como nação.

Ao ser preso em Jerusalém e prestes a ser açoitado, o apóstolo Paulo pergunta ao centurião: “É-vos lícito açoitar um cidadão romano, sem ser ele condenado?”. O comandante romano fica surpreso porque ele mesmo teve de pagar uma grande soma para obter a cidadania, enquanto Paulo afirma: “Pois eu o sou de nascimento”. Esse é só um exemplo de como a dinâmica de expansão do cristianismo nos primeiros séculos está intimamente ligada ao desenvolvimento do Império Romano e da sua constituição como identidade política.

É preciso considerar a expansão do Império Romano especialmente pela sua reconhecida capacidade de articular a diversidade cultural em uma época onde as ferramentas de comunicação e articulação social eram tão precárias. Também é reconhecida a grande influência da ideia de República Romana na formação dos EUA e da grande estima que os Founding Fathers tinham por ela. Fato é que um dos grandes méritos que permitiu a expansão do maior Império da História da humanidade foi sua capacidade de articular a diversidade. O próprio trono do Império refletia essa diversidade: o Império teve imperadores de origem hispânica (Trajano e Adriano), africana (Sétimo Severo, nascido na atual Líbia) e árabe (Filipe, o Árabe). Ou seja, a força de uma nação imperial reside na sua capacidade de integrar o diverso em vez de excluí-lo.

Isso porque a diversidade é uma qualidade. Apesar da palavra ‘diversidade’ ter sido sequestrada pela militância esquerdista, o seu sentido verdadeiro segue sendo o mesmo. Ela é uma qualidade que garante superioridade aos povos e à própria vida humana. A diversidade expande a criatividade, permite a colaboração de diferentes talentos, torna o tecido social mais colorido e atesta a grandiosidade do ser humano. O próprio presidente Trump é testemunha viva dessas vantagens ao ser filho de imigrante escocesa e estar casado com uma imigrante eslovena.

A discussão é longa e complexa, mas é possível argumentar que o que levou à queda do Império Romano não foi a diversidade, como muitos na extrema-direita tentam associar ao interpretar o mundo ocidental contemporâneo como sendo novamente invadido por bárbaros (que são sempre os imigrantes). Muito mais perigoso que a diversidade cultural, foi a tendência autocrática do fim do Império Romano, projetando em seus líderes um poder maior do que deveriam ter. Essa centralização impede a integração de novos povos e inevitavelmente quebra a balança de poder. O perigo da falta de integração leva à polarização que, aí sim, gera a revolta dos bárbaros.

Adrian Goldsworthy, em sua análise sobre a queda de Roma, demonstra que o Império não foi derrotado por força superior externa, mas por uma autocracia paranoica. A centralização excessiva na figura do Imperador transformou o governo em um mecanismo de autopreservação do líder, drenando a vitalidade das instituições e tornando o Estado incapaz de integrar novos povos ou reagir a crises.

A martelada final nesse processo de unificação forçada se deu justamente com a ascensão do cristanismo em um contexto tomado pela mentira política. Em seu brilhante artigo “Cristianismo: a vitória da inteligência sobre o mundo das religiões” o Papa Bento XVI, então cardeal Ratzinger constata justamente que: “A religião antiga era, essencialmente, uma instituição do Estado, uma ‘religião política’. O seu objetivo não era a busca da verdade sobre Deus ou sobre o homem, mas a preservação da ‘pólis’, a coesão do corpo social através do rito e do mito.” E conclui: “O cristianismo, ao identificar o Deus da Fé com o Deus dos Filósofos (o Logos), desferiu um golpe mortal na religião política. Ele ‘dessacralizou’ o Estado. César já não era Deus; o Estado já não era a última instância da realidade.”

Ou seja, a queda de uma estrutura política está muito mais ligada à glamourização de seus líderes do que à sua diversidade cultural. A variedade de um povo, quando articulada e assimilada, é uma grande vantagem.

Por isso que a diversidade cultural, como representada no halftime de Bad Bunny, deve ser interpretada como uma oportunidade de expansão e integração da cultura. Para isso, precisamos olhar com discernimento para o que foi ali representado.

Primeiro é preciso reconhecer os aspectos negativos que foram representados ali. A primeira coisa que precisa ser criticada é a hipersexualização e a vulgaridade das danças e das letras das músicas de Bad Bunny. Quanto a isso, não se pode levantar qualquer salvaguarda. Porém precisamos reconhecer o contexto de que toda a cultura contemporânea é altamente sexualizada e isso não é um fenômeno exclusivo do artista, da cultura porto riquenha ou até mesmo do progressismo. Seria imprudente afirmar isso especialmente no contexto recente figuras da elite de direita (como o círculo em torno da lista de Epstein) também estão inseridas nesse contexto de decadência moral.

Porém, para além de algumas imoralidades, o show de Bad Bunny representou muitas virtudes. Ele começa exaltando a localidade ao invés de propagandear um espírito universalista: olha para a raiz porto-riquenha e para o valor do seu trabalho e do seu povo. Também destacou com muito entusiasmo a família e o casamento, tendo inclusive uma cerimônia de casamento sendo literalmente celebrada ao vivo durante o show. Nesse momento vemos Lady Gaga vestida com ares de Marilyn Monroe (ícone americano, certo?) e dançando modestamente com Bad Bunny.

A presença da família aparece em vários contextos ali, inclusive num singelo momento em que Bad Bunny entrega o prêmio do Grammy – que o artista ganhou uma semana antes do evento – a um garotinho que está sentado junto de seus pais. O garoto veste as mesmas roupas que Bad Bunny vestia quando criança, sendo então uma representação dele mesmo e da sua vitória pessoal.

Essa vitória pessoal, o sonho americano afinal, é também muito presente durante a apresentação. O artista em dado momento olha para a câmera e enfatiza: “Você deveria crer em você mesmo. Você vale mais do que você pensa.” São frases que refletem o chamado individual a realizar o sonho da própria vida que, na cultura americana, é um ato de consagração.

Tendo em vista todos esses pontos de contato com a cultura americana e propriamente humana, espanta que a apresentação tenha recebido tantas críticas por parte da extrema direita. Parece faltar a compreensão de que os EUA é um projeto que se une muito mais sob o reconhecimento de alguns valores do que pela sua origem étnica. O exclusivismo étnico como expressão da grandiosidade americana é uma contradição em termos. Como somente uma parte de um povo poderia se expandir para além da sua taxa de natalidade? Uma nação que depende de uma etnia única está fadada ao fracasso.

Não somente é uma contradição, como a própria origem dos ideais americanos paga um alto tributo à diversidade. Em seu livro “La Universidad de Salamanca y la Constitución de los Estados Unidos” (2002) o intelectual argentino Joris Gonnet explica que as bases da liberdade americana têm raízes na Escolástica espanhola e católica, e não apenas na herança inglesa. O autor sustenta que os princípios fundamentais de soberania popular e o “consentimento do povo” foram desenvolvidos por teólogos espanhóis (como

Vitoria e Suárez) e aplicados nas colônias americanas (especialmente nas Fundamental Orders de Connecticut de 1639) muito antes das obras de John Locke. Em suma, a obra defende que os Estados Unidos herdaram e projetaram para o mundo moderno uma tradição hispânica de liberdade que a própria Espanha havia esquecido.

Ao final da apresentação, Bad Bunny mostra uma bola de futebol americano com os dizeres: “Together we are America.” O ato acontece após o cantor listar os nomes de vários países latino americanos, ao mesmo tempo em que é precedido pela bandeira dos EUA. O ato foi interpretado pela extrema-direita como uma expressão de ódio contra os EUA. Não só essa interpretação é altamente equivocada como é de especial desperdício por parte da direita desprezar esse o anseio de união da América Latina propagado por Bad Bunny. Esse sentimento poderia inclusive ser estrategicamente útil para os interesses americanos (ou o anseio imperialista de Trump).

Espantosa foi também a crítica ferrenha que alguns na direita fizeram ao fato da apresentação ter sido realizada em espanhol. Ora, as músicas do artista são em espanhol e ele foi convidado para se apresentar. Até porque, Porto Rico é território americano, portanto não é de se espantar que existam americanos que falam espanhol como sua língua principal. Além do mais, a falta de domínio em outra língua não deveria ser motivo de orgulho. Se uma nação é capaz de ter diversidade linguística como característica, isso é sinal de virtude.

A ideia de que a constituição dos EUA é fruto de uma origem étnica e linguística única não só é falsa como é desastrosa. Forçar a narrativa de uma unidade nacional com base na pureza étnica é um flerte com o ideário nazista. Somadas essas concepções com o sentimento de auto-exclusão muito comum na extrema direita e temos a fórmula pronta para esse comportamento ignorante e odiento.

Como católico, não posso deixar de constatar que a Igreja é capaz de expressar belas soluções para a articulação da diversidade e da unidade cultural. Tão exuberante é essa virtude da Igreja que eu poderia usar a minha paróquia local como estudo de caso. Nossa paróquia fica em um bairro muito tradicional de Central Florida onde o público geral é constituído por americanos em sua maioria anglo-saxões. Porém, a composição do clero na paróquia é formada por um pároco irlandês, um padre de origem jamaicana, outro de origem indiana, outro de origem filipina e mais um de origem nigeriana. A diversidade de sotaques é um grande marco em nossa paróquia. Apesar das diferenças, todos ali vivem em grande harmonia e caridade por comungarem da mesma compreensão: de que a verdadeira unidade é encontrada na fé e nos valores compartilhados, não só ignorando as barreiras étnicas mas valorizando essas diferenças como dons de Deus como de fato são.

Nossa paróquia tem exposto uma relíquia de Santa Teresinha do Menino Jesus, uma das mulheres mais importantes da história da humanidade. O sinal da diversidade de nossa paróquia é explicado por essa mesma santa em seu diário pessoal quando ela se pergunta como cada alma pode ser grandiosa e ao mesmo tempo diferente uma da outra. A revelação de Teresa se deu ao contemplar um jardim florido onde a santa concluiu:

“Jesus dignou-se instruir-me a respeito desse mistério. Pôs-me diante dos olhos o livro da natureza e compreendi que todas as flores por ele criadas são belas, que o esplendor da rosa e a brancura do lírio não tiram o perfume da pequena violeta, nem a encantadora simplicidade da margarida… Compreendi que, se todas as florzinhas quisessem ser rosas, a natureza perderia sua gala primaveril e os campos não seriam mais esmaltados de variadas corolas”.

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