Senhor Presidente da República,
distintas autoridades e membros do Corpo Diplomático,
senhoras e senhores,
Aceitei com grande alegria o amável convite que me foi dirigido para visitar esta terra uruguaia. Agradeço, Senhor Presidente, as palavras que acabou de proferir e os cuidados com que me receberam. A minha saudação estende-se igualmente àqueles que aqui representam as instituições da República e às nações acreditadas junto do país.
Desde já, quero fazer chegar a minha saudação a todos os uruguaios, onde quer que se encontrem. Durante estes dias, terei a alegria de percorrer alguns locais desta terra, conhecer a sua história e encontrar-me com homens e mulheres que, em realidades muito diversas, fazem parte da vida do país. Entre eles, Florida, onde se venera Nossa Senhora dos Trinta e Três, Padroeira do Uruguai, tem um lugar especial. Ao iniciar a minha visita, gostaria de colocar sob a sua proteção todos aqueles que encontrarei no meu caminho. A sua presença acompanha uma página decisiva da história nacional e continua, ainda hoje, a congregar gerações muito distintas de uruguaios.
Essa mesma história conserva outro episódio que gostaria de recordar aqui. Refiro-me ao Êxodo do Povo Oriental, de 1811, também conhecido como La Redota. Não precisamos de nos afastar deste local para o evocar, uma vez que o monumento a Artigas, situado no centro desta praça, tem no seu pedestal um friso de bronze no qual Angelo Zanelli representou cenas dessa marcha. Gostaria de me deter em alguns detalhes dessas figuras, pois oferecem um ponto de partida concreto para ver também o Uruguai de hoje.
No topo do monumento, Artigas aparece sozinho, montado a cavalo. Mais abaixo, no relevo frontal, ele reaparece entre os seus homens, fazendo parte daquela multidão. Este pormenor faz lembrar umas palavras que proferiu pouco depois perante os representantes orientais reunidos no Congresso de abril de 1813: «A minha autoridade – disse ele – emana de vós e cessa diante da vossa presença soberana» (Oración inaugural: Arquivo Artigas, vol. XI, doc. 82). Numa única frase, unia a origem da autoridade e a responsabilidade de quem a exerce: recebê-la de uma comunidade concreta e responder perante ela.
Em 2025, completaram-se quarenta anos ininterruptos de democracia no Uruguai, durante os quais, por decisão dos cidadãos, se sucederam diferentes governos. A autoridade pública encontra a sua razão de ser no serviço ao bem comum e é chamada a ser exercida no âmbito da ordem jurídica, respeitando a liberdade e a responsabilidade dos cidadãos (cf. Const. past. Gaudium et spes, 74). Daí o valor dos mecanismos que permitem participar na vida pública, delimitar com clareza as competências das instituições e eleger aqueles que assumem o encargo de governar (cf. ibid., 75).
O bem comum inclui também a responsabilidade de transmitir às futuras gerações os bens que hoje recebemos. Como recordou o meu predecessor, Papa Francisco, «a noção de bem comum engloba também as gerações futuras» (Carta enc. Laudato si’, 159). Esta responsabilidade traduz-se nas decisões que afetam o uso dos recursos naturais e das fontes de energia. Nas últimas décadas, o Uruguai transformou profundamente a sua matriz de produção de energia elétrica, que hoje se baseia quase inteiramente em fontes renováveis. Trata-se de um resultado notável que exigiu decisões sustentadas ao longo de anos e a participação de diversos setores do país. Este passo coloca agora novos desafios no transporte, na produção e na utilização responsável da terra, da água e da energia. Pensar a longo prazo significa precisamente administrar estes bens sem comprometer as possibilidades futuras.
O olhar para o futuro estende-se também àqueles que virão a habitar esta terra: às condições em que poderão nascer e crescer e às oportunidades que encontrarão ao longo da sua vida. A evolução demográfica do Uruguai torna essa preocupação especialmente concreta. Num dos frisos encontrados no monumento, está representada uma mulher que tem um bebé nos braços. Ela segura-o com firmeza, enquanto à sua volta a marcha continua.
Este gesto de proteção leva-nos a pensar na vida que está a começar, bem como naquela que ainda cresce no seio materno. Quem ainda não nasceu já pertence à família humana e ao futuro do seu povo. A sua dependência absoluta da mãe não diminui a dignidade que lhe é própria nem a proteção que merece. O próprio Jesus quis assumir esta condição ao encarnar-se. Acolher uma nova vida exige que o pai se comprometa ao lado da mãe, que a família preste o seu apoio e que existam condições sociais que permitam a ambos criar e cuidar dos seus filhos. A proteção de quem está para nascer e o amparo de quem o acolhe são indissociáveis. A família continua a ser o primeiro ambiente em que cada pessoa é acolhida e aprende a viver com os outros. São João Paulo II, que também teve a alegria de visitar esta terra, expressou-o com uma frase que conserva toda a sua força: «O futuro da humanidade passa pela família!» (Exort. ap. Familiaris consortio, 86).
Em outra parte do friso, vemos várias crianças a caminhar ao lado dos adultos. Elas fazem parte do povo mesmo antes de poder participar nas suas decisões ou contribuir com o seu trabalho. Aqueles que então avançavam ao lado dos adultos acabariam por receber, por sua vez, a responsabilidade de dar continuidade à vida em comum. Por isso, cuidar dos pequeninos inclui necessariamente garantir-lhes uma educação adequada. O lar onde uma criança cresce, a alimentação que recebe e a presença de adultos que a acompanham sustentam os seus primeiros anos; a educação dá continuidade a essa tarefa, desenvolve as suas capacidades, forma o seu juízo e prepara-a para participar com liberdade e responsabilidade na vida da sociedade (cf. Decl. Gravissimum educationis, 1).
A formação recebida deve também abrir oportunidades concretas para a integração na vida profissional, para pôr em prática o que foi aprendido e para adquirir autonomia através do próprio esforço. O trabalho torna-se assim um dos meios que permitem a cada pessoa desenvolver as suas capacidades e contribuir para o bem dos outros. Convém recordar que «o trabalho é “para o homem” e não o homem “para o trabalho”» (S. João Paulo II, Carta enc. Laborem exercens, 6). Este critério mantém toda a sua atualidade face às rápidas mudanças da tecnologia e da inteligência artificial. O desenvolvimento destas tecnologias deve ampliar as capacidades humanas, facilitar as tarefas e criar possibilidades, procurando garantir que a pessoa que trabalha não seja reduzida a uma mera peça dispensável em meio ao processo produtivo.
Entre as figuras do monumento, encontramos também uma idosa encurvada que, apoiando-se numa bengala, avança com dificuldade. Em torno de uma das carroças, várias pessoas aproximam-se umas das outras e estendem os braços; algumas parecem mais preocupadas em ajudar-se mutuamente do que em apressar o passo. Faziam parte daquele povo também os que precisavam de apoio para continuar. A sua pertença não dependia da força, autonomia ou capacidade de contribuir. Também hoje não se pode medir o valor de uma pessoa pelo que ela produz, pelo seu trabalho ou pela sua habilidade de se valer por si própria. «A dignidade fundamental de cada pessoa, portanto, não se adquire, nem se merece, e nem precisa de ser demonstrada» (Carta enc. Magnifica humanitas, 53).
O bronze preserva os seus rostos e gestos, mas nada nos diz sobre o que cada um trazia dentro de si enquanto caminhava no meio dos outros. Também hoje podemos viver rodeados de pessoas, partilhar com elas o trabalho, a rua ou até mesmo o próprio lar, e desconhecer o fardo que elas carregam consigo. A solidão, a angústia e a perda de esperança podem tornar-se tão profundas a ponto duma pessoa deixar de encontrar razões para continuar a viver. Perante a dolorosa realidade do suicídio, revelam-se inseparáveis os cuidados de saúde, os laços familiares e a proximidade da comunidade. Ninguém deveria sentir-se estranho entre os seus nem pensar que a sua ausência será menos notada que a sua presença.
Outras formas de sofrimento manifestam-se no corpo ou nas condições de vida. A doença, a deficiência, a dor física, a perda de autonomia, a pobreza, a falta de trabalho ou a exclusão podem tornar especialmente necessária a ajuda dos outros. Recentemente, experimentei pessoalmente as limitações impostas pela doença e recebi cuidados pelos quais estou profundamente grato. Esta experiência levou-me a pensar em tantos homens e mulheres que carecem dos meios necessários para obter um diagnóstico adequado ou receber os tratamentos de que precisam. Garantir que os cuidados de saúde estejam ao alcance de todas as pessoas, independentemente dos seus recursos, é uma responsabilidade que interpela toda a sociedade. Quem atravessa uma destas situações não deixa, por isso, de ser um membro da sociedade com plenos direitos, nem perde em nada o valor da sua vida. Nessas circunstâncias, a sua fragilidade torna ainda mais urgente a necessidade de receber assistência adequada, recursos e acompanhamento contínuo.
A atenção devida aos que sofrem compromete toda a família humana. Para a Igreja, este dever encontra uma razão particular no mandamento de Jesus Cristo de ser reconhecido e servido nos mais necessitados (cf. Mt 25, 40). Como recordou Bento XVI, «a grandeza da humanidade determina-se essencialmente na relação com o sofrimento e com quem sofre» (Carta enc. Spe salvi, 38). Por isso, cabe a todos zelar para que cada pessoa possa viver com dignidade, receber os devidos cuidados e ser acompanhada até ao fim natural da sua vida.
Através das Dioceses, comunidades e de tantas pessoas dedicadas a servir aos outros, a Igreja deseja colaborar com todos aqueles que se empenham em aliviar, sempre que possível, a dor e em apoiar a pessoa quando essa dor não pode ser eliminada. Para esta tarefa comum, a Igreja contribui com o que lhe é próprio: uma esperança que não se extingue quando os recursos humanos chegam ao limite e que recorda a quem passa por provações que a sua vida conserva sempre sentido e valor, que não está sozinho nem muito menos deixou de ser amado por Deus em meio à escuridão.
Aquela multidão que avançava ao lado de Artigas reunia também pessoas de condições muito diversas. No relevo das figuras do monumento, uma mulher com trajes elegantes vai atrás duma carroça, enquanto outros conduzem os animais ou transportam os seus pertences. Essas diferenças também fazem parte da história do Uruguai, onde gerações de homens e mulheres de origens e condições sociais diversas fizeram desta terra uma pátria comum.
Quem faz parte de um mesmo povo pode partir de situações muito diferentes e dispor de recursos desiguais. Por isso, a forma como a economia é organizada e orientada acaba por se repercutir diretamente nas condições de vida das pessoas e nas suas possibilidades de construir o próprio futuro. A criação de riqueza, o investimento e a iniciativa económica – tanto pública como privada – são necessários para o desenvolvimento de um país, mas os seus frutos devem também traduzir-se em bens e oportunidades que cheguem efetivamente a todos, pois «são as pessoas concretas que contam: cada uma delas e as suas famílias» (Carta enc. Magnifica humanitas, 58).
A convivência entre pessoas de diferentes origens e tradições faz parte também da história do Uruguai. Essa pluralidade manifesta-se atualmente nas crenças e convicções dos seus cidadãos. O caráter laico do Estado tem por missão garantir um espaço em que crentes e não crentes possam conviver com liberdade e respeito, porque alguns valores são universais. Esta neutralidade não implica que a dimensão religiosa deva ficar confinada à esfera privada. Como ensina o Concílio Vaticano II, ninguém deve ser obrigado a agir contra a sua consciência nem impedido de agir de acordo com ela, tanto na esfera privada como na pública, individualmente ou associado com outros, dentro dos devidos limites (cf. Decl. Dignitatis humanae, 2-3). A partir desta liberdade, as pessoas e as comunidades religiosas podem contribuir para o bem comum, respeitando a autonomia das instituições civis.
O respeito e a convivência que são buscados numa nação devem também orientar as suas relações com outros povos. A própria Constituição uruguaia dispõe que, nos tratados internacionais, a República procure que as controvérsias sejam resolvidas por meio de arbitragem ou outros meios pacíficos e promova a integração social e económica dos Estados latino-americanos (cf. art. 6.º). Além disso, que Montevidéu seja a sede da Secretaria do Mercosul concretiza de forma particular essa vocação de favorecer espaços de entendimento e cooperação na região. Numa época em que as diferenças podem facilmente transformar-se em motivo de confronto, perseverar no respeito pelo direito, na negociação e na busca paciente de acordos constitui um serviço que o Uruguai pode continuar a oferecer aos seus vizinhos.
Antes de concluir, gostaria de voltar àquela marcha representada no centro desta praça. A Redota tem um lugar singular na memória uruguaia: recorda um povo posto à prova, que teve de deixar para trás muito do que possuía e procurou permanecer unido no meio da incerteza.
O relevo das figuras deste monumento estende-se pelas quatro faces do pedestal. A partir de um único ponto, mal conseguimos contemplar uma parte daquela multidão. Para descobrir os restantes, é necessário aproximar-se, percorrê-lo e fixar o olhar nas suas personagens. O povo surge precisamente no conjunto. Naquela multidão, podemos reconhecer algo que permanece na vida do Uruguai: a responsabilidade uns para com os outros, que permite a pessoas de diferentes gerações e condições continuar a construir uma história comum.
Vim ao Uruguai como Sucessor de Pedro e como pastor, com o desejo de me encontrar com a Igreja peregrina nesta terra e de me aproximar, com carinho, a todo o seu povo. Os laços entre a Santa Sé e o Uruguai remontam aos primeiros anos da sua independência. Nesse contexto, o meu predecessor, Papa Gregório XVI, confirmou as faculdades do Padre Dámaso Antonio Larrañaga e nomeou-o Vigário Apostólico da República através de um breve apostólico de 14 de agosto de 1832. Aquele ato, de natureza eclesiástica, foi também interpretado como um reconhecimento implícito da independência do novo Estado oriental, que na altura procurava consolidar a sua posição entre as nações.
Com uma história de fé e serviço, que remonta a séculos atrás, a Igreja deseja continuar a oferecer ao povo uruguaio aquilo que ela própria recebeu – Jesus Cristo e a esperança do seu Evangelho – e colaborar, a partir da sua própria missão, com todos aqueles que trabalham pelo bem comum e pela dignidade de cada pessoa.
Que estes dias nos permitam fortalecer o que nos une e renovar a confiança com que enfrentamos as dificuldades e nos preparamos para o que está para vir. Que Deus abençoe o Uruguai e que Maria Santíssima, a quem este povo se confiou no momento do seu nascimento, continue a acompanhá-lo ao longo da sua história.
Muito obrigado.
Foto e documento originais do Dicastério para a Comunicação (Vaticano), reproduzido na íntegra.
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