Em meio às transformações culturais, sociais e tecnológicas que marcam as novas gerações, a juventude católica brasileira demonstra que a fé continua ocupando um espaço significativo em sua vida. Uma pesquisa nacional realizada pela Comissão Episcopal para a Juventude da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) apresenta um panorama da religiosidade juvenil e revela uma geração interessada em aprofundar a espiritualidade, participar da comunidade e encontrar respostas para os desafios do cotidiano a partir da experiência cristã.
Intitulada Pesquisa Nacional: Evangelização da Juventude no Brasil – 2025, a iniciativa reuniu 11.498 adolescentes e jovens de diferentes regiões do país. O levantamento foi realizado entre maio e julho de 2025, por meio de questionário on-line, e contou com a colaboração da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), da Universidade Católica de Brasília (UCB) e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).
Um dos resultados mais expressivos aparece na identificação religiosa dos participantes. Entre os 6.788 jovens que responderam à questão sobre religiosidade, 98,3% declararam-se católicos. Além disso, a pesquisa identificou que 68,5% frequentam a Igreja semanalmente e 25,1% diariamente.
Os números revelam uma presença significativa da religião na rotina dos participantes e reforçam a importância das comunidades de fé como espaços de convivência, formação e construção de identidade.
É importante destacar que o levantamento não representa estatisticamente toda a juventude brasileira, pois utilizou uma amostra voluntária, formada predominantemente por jovens já vinculados à experiência católica. Portanto, os resultados não comprovam um crescimento numérico de católicos no país, mas oferecem um retrato relevante do interesse religioso e da participação eclesial entre os jovens alcançados pela pesquisa.
Família continua sendo a principal referência na transmissão da fé
Embora a Igreja tenha papel importante na formação religiosa, a pesquisa mostra que a família permanece como a principal referência para os jovens no conhecimento da fé católica.
Os pais foram mencionados por 46,4% dos participantes como principais referências nesse processo. Os avós aparecem em segundo lugar, com 18,7%, enquanto a Igreja institucional foi citada por 13,2%.
Amigos e internet também aparecem como fontes de influência, com 6,4% e 6,3%, respectivamente.
Os dados demonstram a força da transmissão da fé entre gerações e evidenciam a importância do testemunho familiar na construção da identidade religiosa. A vivência cristã, nesse contexto, não começa necessariamente dentro de uma igreja, mas também se desenvolve nas relações cotidianas, nas experiências compartilhadas e nos ensinamentos transmitidos entre pais, filhos e avós.
Sacramentos e vida comunitária fortalecem a identidade católica
A participação sacramental também aparece como uma característica marcante entre os jovens ouvidos.
O Batismo corresponde a 26% das menções sobre os sacramentos recebidos, seguido pela Eucaristia (25,2%), Crisma (22,7%) e Confissão ou Reconciliação (22,4%). Juntos, os quatro sacramentos representam mais de 96% das menções registradas. Apenas 0,3% dos participantes afirmaram não ter recebido nenhum sacramento católico.
A participação em grupos juvenis também demonstra a presença dos jovens na estrutura comunitária da Igreja. Os grupos paroquiais são o principal espaço de pertencimento, reunindo 25,7% dos participantes. Na sequência aparecem os movimentos, com 17,4%, e a Pastoral da Juventude, com 16,1%.
Por outro lado, 15,6% afirmaram não integrar nenhum grupo juvenil católico.
O levantamento também identificou novas formas de pertencimento religioso, especialmente por meio do ambiente digital. Comunidades on-line, grupos de mensagens e fóruns de discussão sobre o catolicismo aparecem como espaços de partilha, formação e fortalecimento da identidade cristã.
A realidade aponta para uma juventude que vive a fé em diferentes ambientes e que encontra na tecnologia mais uma possibilidade de aproximação com a Igreja.
Santidade e espiritualidade estão entre as principais buscas dos jovens
Um dos aspectos mais relevantes da pesquisa está relacionado aos temas que despertam interesse entre os jovens católicos.
Quando convidados a indicar os assuntos que consideram mais importantes para a evangelização juvenil, os participantes colocaram a santidade e a fé cristã em primeiro lugar, com 16,7% das escolhas.
Em seguida aparecem a formação integral, que contempla mente, coração, espírito e prática, com 11,9%, e a saúde mental, com 10,3%.
Também foram mencionados música, arte e cultura (7%), diálogo entre fé e razão (6,8%) e ética cristã (6,5%).
Os resultados indicam que o interesse pela religião não está separado das questões humanas que atravessam a juventude. Pelo contrário, os participantes demonstram interesse por uma formação que integre espiritualidade, desenvolvimento pessoal, conhecimento e cuidado emocional.
A presença da saúde mental entre os três assuntos mais citados merece atenção. O dado demonstra que os jovens também esperam encontrar na comunidade cristã espaços de acolhimento e acompanhamento diante das dificuldades emocionais e dos desafios da vida contemporânea.
A Igreja também é reconhecida pela solidariedade e pelo serviço
A pesquisa mostra que a presença da Igreja na vida dos jovens vai além das celebrações religiosas.
As datas festivas e celebrações litúrgicas são a forma mais mencionada de presença eclesial, com 20,5%. Os retiros, celebrações e momentos de oração aparecem logo depois, com 18,3%.
As atividades de solidariedade, campanhas e missões solidárias representam 13,8% das menções, enquanto os grupos juvenis correspondem a 12,7%.
Também aparecem os momentos de convivência e formação (8,6%), o atendimento a pessoas em situação de vulnerabilidade social (6,9%) e as atividades de espiritualidade com as famílias (6%).
Os dados reforçam que a experiência religiosa juvenil está relacionada tanto à dimensão espiritual quanto ao compromisso com o próximo. A Igreja é reconhecida por sua capacidade de reunir, celebrar, formar e promover ações concretas de solidariedade.
Entre o desejo de participar e os desafios do cotidiano
Apesar dos indicadores positivos de participação religiosa, o levantamento também identifica obstáculos que dificultam a aproximação de parte dos jovens com a vida comunitária.
Entre as dificuldades apontadas estão os compromissos escolares e universitários, mencionados por 12,7%, a pressão de corresponder à imagem de um católico perfeito (8,3%), a falta de cuidado com orações, ritos e celebrações (8,1%) e a falta de acolhida por parte dos próprios jovens (7,6%).
Outro dado chama a atenção: entre os 538 participantes que afirmaram não integrar grupos, pastorais ou movimentos juvenis católicos, 55,3% apontaram a ausência de espaços compatíveis com sua faixa etária ou momento de vida como principal motivo.
O resultado sugere que o desafio da evangelização não está apenas em convidar os jovens a participar, mas também em oferecer ambientes que dialoguem com suas experiências, necessidades e expectativas.
A pesquisa ainda destaca que 26,5% percebem que os jovens têm espaço para opinar e que suas contribuições provocam mudanças na maioria das vezes. Entretanto, 23% afirmam que, embora exista espaço para participação, há pouco interesse juvenil, enquanto outros 23% consideram que os jovens são frequentemente chamados para executar tarefas, mas nem sempre participam das decisões.
Os números apontam para a importância de ampliar o protagonismo juvenil e reconhecer os jovens não apenas como participantes das atividades, mas como agentes ativos na construção da própria Igreja.
Uma geração que deseja aprofundar a fé
Ao investigar quais temas deveriam receber atenção na atualização das orientações nacionais para a evangelização juvenil, os participantes voltaram a destacar a espiritualidade.
A santidade no mundo atual aparece em primeiro lugar, com 17,8% das escolhas. A Palavra de Deus e a Eucaristia na vida e missão da Igreja com os jovens vêm em seguida, com 16,5%, enquanto a espiritualidade cristã registra 10,9%.
As Jornadas Mundiais da Juventude também aparecem entre os assuntos destacados, com 7,2%.
Os resultados demonstram que a busca por uma experiência religiosa mais profunda permanece importante entre os jovens participantes. A fé não aparece apenas como uma tradição recebida da família, mas também como uma dimensão que eles desejam conhecer, compreender e vivenciar de maneira mais intensa.
A pesquisa da CNBB apresenta, assim, uma oportunidade de reflexão para a Igreja no Brasil. Os dados mostram uma juventude que valoriza a espiritualidade, procura vínculos comunitários e deseja participar da missão evangelizadora, mas que também espera ser ouvida, acolhida e compreendida em suas realidades.
Mais do que olhar para os jovens como o futuro da Igreja, o levantamento convida as comunidades a reconhecer sua presença e seu protagonismo no presente. Uma evangelização capaz de unir formação, espiritualidade, acolhimento e participação pode fortalecer os vínculos entre as novas gerações e a vida eclesial.
A mensagem que emerge do estudo é clara: existe entre os jovens participantes uma disposição significativa para viver e aprofundar a fé. O desafio está em transformar esse interesse em experiências concretas de encontro com Cristo, comunhão e compromisso cristão no mundo.





