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Coluna

Meninas só querem diversão (e um pouco de poder)

Por Débora Luciano
23 de out de 20267 min de leitura
Meninas só querem diversão (e um pouco de poder)

Estamos na reta final do segundo turno dessa grande Festa da Democracia, e quem passou mais do que cinco minutos nas redes sociais já percebeu: a esquerda anda frenética, ansiosa, roendo as unhas a cada nova pesquisa e se estapeando entre si para decidir de quem será a culpa antes mesmo de a apuração começar.

Pois deixo aqui um consolo; boa ou má notícia, dependendo do lado de quem lê: independentemente de quem vença a Presidência no domingo, a direita já ganhou. Ganhou no Congresso e ganhou algo mais difícil de conquistar e mais demorado de perder, que é o coração do povo.

Em junho deste ano, um instituto de pesquisa conhecido registrou uma pequena reviravolta que passou mais ou menos despercebida no meio da gritaria política habitual: pela primeira vez desde que essas coisas começaram a ser medidas, os brasileiros que se dizem de direita ou centro-direita superaram os que se dizem de esquerda ou centro-esquerda.
Mas convém refrear o otimismo antes de abrir o champanhe. Essa vitória ainda não é hegemônica, porque falta uma parte decisiva do país: as mulheres, cuja maioria se coloca à esquerda. Ou seja, o país ficou mais conservador, e as mulheres não acompanharam.

A explicação apressada da direita liberal a essa realidade é quase sempre a mesma. Ela tem o mérito, pelo menos, de ser coerente com a antropologia que a sustenta: a mulher vota na esquerda porque a esquerda oferece benefícios, transferência de renda, promessas de condições melhores. Logo, a solução seria oferecer algo melhor: menos impostos, mais empreendedorismo, mais segurança pública.

Há algo de verdade nisso. A vulnerabilidade econômica de uma mãe solteira é real, e não estou aqui para dizer que isso possa resolver-se com um tiquinho de metafísica. Mas essa explicação descreve, antes de tudo, o mecanismo, não necessariamente o desejo.

Daí que o liberal, que trata a eleitora como contribuinte e consumidora, se espanta quando a oferta de “pagar mais” não resolve muita coisa. Nunca lhe ocorreu que a escolha política, para a maior parte das mulheres, pode ter outra origem que não aquela regida pelas leis da economia.

Eu, por minha vez, respondo: as mulheres estão se alinhando mais à esquerda porque querem poder, algo que a esquerda sabe bem como entregar.

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Isis atrás de Osiris, uma representação comum do poder feminino divino por trás do trono egípicio, entre 644 e 332 A.C.

Antes que alguém leia aqui uma acusação de malícia desmedida, convém lembrar que todo ser humano quer poder, e quem não quer está doente ou é santo, ou os dois.

Entenda: poder não é necessariamente algo ruim. Aqui, uso a palavra em um sentido menos nietzscheano e mais aristotélico. Para Aristóteles, potência é a capacidade de um ente atualizar a própria forma, e São Tomás dirá que todo ente deseja a própria perfeição. Nesse sentido mais específico, “querer poder” é querer ser plenamente o que se é.

Historicamente, ao contrário do que reza a cartilha feminista, as mulheres sempre tiveram poder. Ou melhor, as mulheres sempre possuíram autoridade, pois aqui convém distinguir algo que perdemos com o latim: há a potestas, o poder de mandar, executar e coagir; e a auctoritas, que é outra coisa: vem do verbo augere, que significa aumentar, fazer crescer; daí auctor, aquele que funda, que dá origem, que faz prosperar o que começou.

As mulheres sempre carregaram a autoridade, porque ela é literalmente generativa. Falo da autoridade da mãe sobre o filho que ela trouxe ao mundo, da esposa cujo juízo pesa em cada decisão feita dentro de casa, da avó cuja sabedoria tradicional acompanha gerações inteiras, mesmo depois que ela já se foi. A autoridade feminina é criativa, tem natureza expansiva, agindo de dentro para fora, e assim sempre foi devidamente exercida nesse mundão velho de Deus.

Com a modernidade, no entanto, perdemos essa distinção: tudo virou poder. E aquela antiga autoridade, exercida na casa e nas comunidades, virou somente uma sombra do que era. A casa, antes uma unidade econômica cuja extensão não terminava na cozinha, ficou muito distante do mundo lá fora, e o mundo lá fora ganhou um brilho diferente. 

Hoje, há um vácuo no lugar anteriormente ocupado pelas antigas autoridades, o que afeta homens e mulheres, mas foram as mulheres que o sentiram primeiro. E a esquerda, que percebeu esse vácuo antes de todo mundo, ofereceu à mulher um substituto para o poder genuinamente feminino: formas de potestas, a única que o nosso tempo ainda reconhece, vendidas como se fossem autoridade.

Comecemos pelo poder institucional. Na política, a esquerda criou cotas para candidatas mulheres, uma fatia equivalente do fundo eleitoral, bancadas femininas, secretarias e o Ministério das Mulheres. Além disso, há toda uma arquitetura responsável por transformar os ofícios nos quais as mulheres sempre foram maioria – educação e cuidado – em aparatos públicos, vinculados ao carimbo de determinada legenda partidária.

Mais importante: a esquerda ofereceu às mulheres uma forma de exercício de comando que é muito eficiente em nossos tempos: o administrativo-terapêutico. Abriu as portas dos conselhos de direitos, ouvidorias, comitês de diversidade, departamentos de recursos humanos, protocolos de assédio e cartilhas de linguagem. A mulher que ocupa uma dessas cadeiras pode, com uma denúncia ou um parecer, encerrar a carreira de qualquer pessoa. 

O que nos leva ao poder de vítima, que é o que faz funcionar com muita eficiência todo o aparato de recursos humanos e protocolos. Esse é um poder que não está limitado à engrenagem administrativa. Ele é, antes de tudo, um paradigma dos nossos tempos, uma força espiritual, e por isso tão difícil de enfrentar.

Foi René Girard quem demonstrou que a preocupação com as vítimas é a herança mais profunda do cristianismo no mundo secularizado. Foi a Cruz que revelou, pela primeira vez, que o antigo mecanismo de assassinar um inocente para aliviar a culpa de uma comunidade, usando-o como bode expiatório, é uma grande farsa diabólica.

Essa revelação, lembra Girard, só alcança seu sentido pleno à luz da Ressurreição. Mas acontece que, mesmo depois de abandonar a fé no milagre que a produziu, o mundo continuou guardando ao menos um fragmento da verdade. Guardou a compaixão pela vítima, ainda que sem a vitória e sem o perdão.

Por isso, a vítima se tornou o último sagrado disponível em sociedades que já não acreditam em mais nada. 

Girard advertia que esse fragmento, assim separado do todo, perverte-se. Corruptio optimi pessima est. Quando “ser vítima” é um bom negócio, algo capaz de conferir prestígio, a mesma vítima pode se transformar em perseguidor, tirando uma licença para caçar culpados.

No fim das contas, o que a esquerda oferece é uma religião secular, com seus sacerdotes e rituais, na qual as mulheres são as vítimas e perseguidoras por excelência, veneradas no altar da burocracia estatal. 

Se tudo isso é verdade, a direita não vai reconquistar as mulheres oferecendo uma versão mais barata do que a esquerda já oferece. Não adianta responder a um desejo como esse com redução de impostos. 

As mulheres não estão erradas em querer poder. Desde o Éden, o problema é que elas podem querer o poder errado (ou serem convencidas a querer o poder errado).

A revolução lhes ofereceu um poder emprestado, o de mandar, e cobrou em troca o que já tinham, o de fazer crescer. A transformação em vítima pode até fornecer um espaço temporário, mas cobra, ao fim, o óbvio: o sacrifício. Essa é a ilusão. 

Precisamos colocar no lugar dessa ilusão uma ideia verdadeira do poder feminino como autoridade, que devolva prestígio ao poder de gerar e de fazer crescer. A maternidade não deve ser só um “prêmio de consolação” para quem não chegou ao poder institucional, mas o poder que vem antes de todos os outros e os forma. Para que isso aconteça, a casa deve voltar a ser um lugar onde se produz, se educa e se decide, e não apenas um dormitório entre dois expedientes. 

Passada a ressaca do segundo turno, essa deveria se tornar a prioridade de um projeto de civilização que queira manter-se por mais do que quatro anos.

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