O Papa Leão XIV encontrou-se neste sábado, 7 de novembro, com representantes do mundo da educação na Universidade Católica do Uruguai (UCU), em Montevidéu. Diante de professores, estudantes, autoridades e integrantes de instituições educacionais, o Pontífice apresentou uma reflexão sobre o papel da educação católica na sociedade contemporânea, utilizando os cinco sentidos humanos como caminho para redescobrir a beleza do Evangelho e a dignidade da pessoa.
Ao iniciar seu discurso, Leão XIV recordou a passagem de São João Paulo II pela mesma instituição, há mais de 38 anos, e agradeceu pelo trabalho desenvolvido pelas comunidades educativas uruguaias. Segundo ele, a educação católica é uma forma concreta de transformar o Evangelho em gestos, relações e cultura.
“O Evangelho não envelhece, mas ‘faz novas todas as coisas’”, afirmou, ressaltando que cada geração tem a oportunidade de descobrir novamente a força da mensagem cristã.
O Papa também destacou que a missão educativa deve permitir que estudantes, professores e gestores experimentem a Boa-Nova em todas as dimensões da vida, fortalecendo a dignidade humana.
Os cinco sentidos como caminho de evangelização
Um dos pontos centrais do pronunciamento foi a proposta de refletir sobre os cinco sentidos humanos como instrumentos de formação, conhecimento e aproximação de Deus.
Ao abordar a visão, Leão XIV destacou a importância da contemplação. Inspirado no Salmo 8, que diz “Quando contemplo o céu”, o Pontífice afirmou que aprender a olhar com atenção permite reconhecer a presença de Deus na criação e desenvolver a responsabilidade pelo cuidado da harmonia do mundo.
Para ele, a contemplação também é fundamental no processo educativo, especialmente em uma época marcada pela dificuldade de manter a atenção.
“Peço-lhes que, em seu trabalho educativo, a contemplação tenha um lugar privilegiado”, afirmou.
Ao falar sobre o tato, o Papa relacionou as mãos humanas à construção da paz. Recordou que elas podem trabalhar, acolher, acariciar e abraçar, mas também produzir a guerra. Por isso, pediu que a educação católica ajude crianças e jovens a compreenderem o valor dos gestos de fraternidade.
“O homem que se sente abraçado pelo Pai é, inevitavelmente, um construtor de paz”, declarou.
O paladar foi associado à sabedoria que nasce da experiência e do discernimento. Leão XIV alertou que acumular informações não significa necessariamente possuir conhecimento.
“Não pode ser considerado sábio aquele que reúne informação, sem discernir, sem refletir, sem conhecer o contexto”, afirmou.
Papa pede que a inteligência artificial esteja a serviço da pessoa
Ao relacionar educação, sabedoria e tecnologia, Leão XIV fez um dos principais alertas de seu discurso sobre o avanço da inteligência artificial.
O Pontífice defendeu que escolas e universidades contribuam para o uso responsável dessas ferramentas, sem permitir que os algoritmos ocupem o lugar da pessoa humana.
“É urgente, então, que nossa educação escolar e universitária contribua para o uso sábio das tecnologias e da IA, colocando a pessoa antes do algoritmo”, enfatizou.
O Papa também defendeu a integração das diferentes dimensões da inteligência humana, incluindo as capacidades técnica, emocional, social, espiritual e ecológica.
A reflexão dialoga diretamente com a encíclica Magnifica humanitas, de Leão XIV, que aborda os desafios éticos da inteligência artificial e a necessidade de preservar a dignidade humana diante das transformações tecnológicas.
“Ninguém pode ser rejeitado”
Ao abordar o olfato, o Pontífice refletiu sobre a desumanização das relações e a cultura do descarte. Segundo ele, a sociedade tem naturalizado atitudes de rejeição, desprezo e desvalorização das pessoas.
Leão XIV chamou atenção para o paradoxo de um mundo que atribui inteligência aos sistemas computacionais, mas muitas vezes deixa de reconhecer a dignidade das pessoas.
“Enquanto se atribui ‘inteligência’ aos sistemas computacionais, custa-nos reconhecer a dignidade inalienável das pessoas, cujas vidas são julgadas segundo o critério da eficiência”, afirmou.
O Papa reforçou que a vida humana deve ser respeitada em todas as suas fases e condições, independentemente da capacidade produtiva ou das circunstâncias de cada indivíduo.
“Ninguém pode ser rejeitado”, declarou.
Educação que também precisa saber escutar
Ao concluir a reflexão sobre os cinco sentidos, Leão XIV destacou a importância da escuta. Para ele, educar exige discernimento, capacidade de acolher diferentes realidades e disposição para reconhecer o outro.
O Pontífice pediu que a educação católica não permaneça fechada em si mesma, mas esteja aberta ao diálogo com famílias, sociedade civil, autoridades políticas, representantes dos setores produtivos e trabalhadores.
Também destacou o valor das experiências de voluntariado, missão e projetos comunitários na formação dos jovens.
“Quem escuta reconhece o outro como um bem, não como uma ameaça”, afirmou.
Ao encerrar o encontro, Leão XIV pediu que as comunidades educativas continuem evangelizando e contemplando a pessoa em sua totalidade: “corpo e alma, coração e consciência, inteligência e vontade”.
O Pontífice concluiu agradecendo aos educadores pelo trabalho realizado e confiando a missão educativa à proteção da Virgem Maria, invocada como Sede da Sabedoria.
A visita à Universidade Católica do Uruguai também teve um significado histórico: Leão XIV foi o segundo Papa a visitar a instituição, depois de São João Paulo II, em 1988. A universidade reúne aproximadamente oito mil estudantes e desenvolve atividades acadêmicas, pastorais e sociais.




