Diz a turma, aquela, que Uma Batalha Após a Outra tem chances de igualar e talvez superar o recorde de Ben-Hur (1959), Titanic (1997) e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2003), que ganharam 11 Oscars cada.
Se acontecer, será sintoma de como a safra de filmes de 2025 foi fraca. Não que este filme de Paul Thomas Anderson seja ruim. Não é, mas também não tem nada demais para ganhar tanto. Uma vitória assim grandiosa dirá mais dos concorrentes do que dele.
É um filme que tem gerado polêmica por seus temas políticos, em grande evidência nos dias de hoje. Mas isso é bom sinal, pois muitas dessas reações confirmam o acerto do filme na forma de retratar seus temas.
Darei spoilers no que virá, então, siga por sua conta e risco.

O título do filme, Uma Batalha Após a Outra, é praticamente uma descrição do enredo. Do início ao fim das 2h30 de duração da obra, raros são os momentos de intervalo na ação. O espectador é arrastado por uma sucessão de eventos, sem muito respiro para introspecções.
Impressiona a consistência na manutenção do ritmo da narrativa, muito pelo uso preciso da trilha sonora composta por Jonny Greenwood, o guitarrista do Radiohead. Esse ritmo acelerado, sem ser desorientador, é crucial para que o estranhamento do espectador com várias situações excêntricas aconteça sem que o absurdo cômico delas predomine sobre a tensão dramática.
Quando o espectador se dá conta de que não está, na verdade, assistindo a um filme de ação, mas a uma sátira, a comicidade não funciona como alívio da tensão, mas como causadora do aumento do desconforto com a esquisitice da coisa toda. Somente na segunda vez que se assiste ao filme é que o humor é melhor percebido e, com isso, a crítica que toda sátira faz se revela com mais clareza.
Somos apresentados, primeiro, a um grupo extremista de esquerda e, depois, a outro, mas de direita. O alvo satírico é o extremismo em si, a forma mental e social que o sustenta. A engenharia satírica atua na própria ação: pouco a pouco, o que parecia apenas radicalização se revela intrinsecamente insano e, por isso, ridículo, independentemente da ideologia que o embale.
No campo da esquerda, o momento-chave da revelação do absurdo se dá quando a mais radical dos revolucionários, Perfidia (Teyana Taylor), engravida.
Por mais que se compreendam as motivações do grupo revolucionário, por mais que alguém concorde, inclusive, com sua ideologia e seus métodos de ação, a forma como Perfidia lida com sua gravidez afasta qualquer pessoa de bom senso, seja de esquerda ou de direita.
Até o seu parceiro amoroso, Bob (Leonardo DiCaprio), se distancia: não consegue trair sua consciência moral, que lhe acusava do óbvio. Ao se tornar pai e mãe, cuidar da filha se torna mais importante do que qualquer outra causa.

Quando Perfidia decide abandoná-los para retomar a luta armada, sua frase escandaliza pela frieza de uma convicção inabalável que soa como loucura: “Eu me coloco em primeiro lugar e rejeito sua falta de originalidade.”
Isso revela que, tanto faz se a ideologia serve como máscara idealista do que é apenas orgulho egóico, ou se o ego está instrumentalizado por essa mesma ideologia, o resultado é o mesmo: a desumanização de Perfídia.
O contraste com a postura de Bob, que opta por ser pai mais do que revolucionário, serve também para criar um distanciamento moral do espectador não apenas de Perfídia, mas de sua ideologia.

É o que prepara a ridicularização do extremismo na segunda parte do filme, que se passa 16 anos depois. Bob se distanciou do grupo e tentou ser pai solteiro. E só também, porque agora não parece trabalhar, vive drogado, “bagunçado”, e é arrastado para uma nova batalha pela perseguição que ele e sua filha sofrem.
É quando Leonardo DiCaprio brilha, emulando o icônico protagonista de O Grande Lebowski, o “The Dude”, tornando-se uma espécie de anti-herói involuntariamente cômico. É através dele que voltamos a ter contato com a organização revolucionária, que está mais organizada e profissional, mas também exagerada em várias coisas, como nas senhas usadas pelos membros e que Bob não consegue lembrar.
A parte mais engraçada do filme é justamente quando Bob tenta lembrar das senhas e briga com um membro do grupo que atende seu telefonema. Bob está correndo risco de vida, precisa urgentemente escapar e o sujeito do outro lado reage ao nervosismo com expressões típicas do wokismo mais caricato: “Ok, não me sinto mais seguro agora. Você está violando meu espaço.”
É ridículo, evidentemente. Desconecta o que está acontecendo para privilegiar a subjetividade de quem, ali, deveria simplesmente cumprir sua função. É como se a revolução tivesse virado atendimento de SAC. Diante do ridículo óbvio, Bob se irrita mais ainda: “Violando seu espaço? Que tipo de revolucionário é você, irmão? Não estamos nem no mesmo lugar. Estamos falando no telefone, cara!”.

As ações de Bob e de quem tenta lhe ajudar, como o professor de artes marciais Sergio (Benicio Del Toro), beiram a comédia pastelão, mas sem escorregar para isso, graças à interpretação brilhante dos atores. É o melhor do filme: quando a sátira vira corpo, timing e performance, e não só tese.
Do lado da direita, o ridículo já se apresenta desde o primeiro momento pela interpretação caricatural do coronel Lockjaw, por Sean Penn. Ao contrário de DiCaprio e Del Toro, Penn exagera demais. Mas o ridículo fica escancarado de vez quando o nome do grupo extremista ao qual Lockjaw quer pertencer é revelado: Clube dos Aventureiros do Natal.
Não há como não escutar isso e não conter o riso, pensando: “mas não é possível que isso seja um filme sério”. O nome, que evoca inocência e festividade, colide violentamente com a agenda de superioridade racial do grupo revelada instantes antes por um dos membros: “Ser do clube é ser um homem superior”. Não o melhor, o mais sofisticado, o mais sábio, apenas que você é superior aos outros seres humanos.”
É ridículo, evidentemente.

A diferença principal na forma como o filme aborda ambos os grupos está no seu interesse pelos personagens que os integram. Os da direita não são desenvolvidos, mas apresentados “prontos e acabados”, ao contrário dos revolucionários, que passam por fases e mudanças, sendo, por isso, mais humanizados.
A própria Perfídia, que se torna ausente na segunda parte, retorna diferente no fim através de uma carta sua para a filha na qual se demonstra arrependida. Mesmo que a carta não seja dela, mas escrita por Bob para ajudar sua filha a lidar com o abandono da mãe, funciona na trama como um desenvolvimento da personagem. Já Lockjaw, porém, é o mesmo do início ao fim: um bruto carente, estupidificado pelo desejo de fazer parte do grupo extremista.
É por isso que muitos esquerdistas acreditam que o filme seja “anti-fascista” e, por sua vez, direitistas, como Ben Shapiro, acusaram o filme de ser uma “apologia ao terrorismo radical de esquerda”. Posso estar errado, mas é justamente esses exageros que o filme está satirizando.
Toda sátira supõe algum padrão (moral, cognitivo, pragmático, estético etc.) contra o qual a realidade retratada aparece como absurda, hipócrita, inflada ou corrupta. Essa “norma” pode estar clara ou implícita, sugerida pelo contraste. É o caso de Uma Batalha Após a Outra.
Há uma cena em que o contraste é vivido por alguns personagens. É quando Bob e Deandra (Regina Hall) conversam sobre Perfídia grávida, todos em torno de uma fogueira. Ambos preocupados, com Bob perguntando se Perfídia não “se toca” que está grávida e do que isso significa. O contraste aqui não é dado entre as ideologias, extremadas ou não, mas de ambas — todas, qualquer uma — com aquilo que nenhuma consegue metabolizar sem pagar o preço de se tornar desumana: o mais simples e natural bom senso.
É por isso que a razão dada por Perfídia para abandonar sua filha não faz parte apenas de um “ponto de virada” na trama, mas confronta o espectador que, se tiver um mínimo de bom senso, terá a mesma reação de Bob.
A sátira é eficaz no filme porque não condena de fora, mas expõe as entranhas do extremismo. A fala de Perfídia assusta por vários motivos, que podem ser resumidos na fala de Deandra para Bob no dia da fogueira: “Toda revolução começa lutando contra demônios. Depois os fdp lutam entre si”.
Eis as entranhas do extremismo expostas. Ao esterilizar o bom senso, Perfídia não se torna apenas mais radicalizada: torna-se demoníaca. Entenda-se essa expressão aqui não em sentido teológico, mas no que Deandra lhe dá, de “monstruoso”, de “loucura”, daquilo que nos desumaniza e desumaniza o outro – mesmo um filho, mesmo um bebê de colo.
E é por isso que o final, com a carta de Perfídia (se é que foi ela quem escreveu e não Bob), não soa como redenção barata. Para a menina, tem valor catártico. Não por apagar o trauma do abandono, mas por devolver o que o extremismo havia lhe sequestrado: uma mãe.

É esse extremismo que o filme satiriza e, por isso, quem o tome como propaganda anti-fascista ou apologia ao terrorismo acaba escorregando para ficar mais próximo dos satirizados, recortando a história pela lente ideológica com que enxerga a realidade.
E é fácil escorregar nisso nos dias de hoje. Por exemplo: diante desse bom senso contrastante e do tema da paternidade e maternidade, é fácil concluir que o filme, no fundo, seria uma defesa da família. Consigo até visualizar conservadores transformando em clichê a abusada frase de Chesterton sobre não ter nada mais extraordinário do que um homem comum, uma mulher comum e seus filhos comuns.
Mas acontece que o filme não faz qualquer apologia da família, da paternidade, da maternidade, nada disso. Não é porque Bob tem o bom senso de intuir que sua filha é mais importante do que a revolução que isso o torna um homem melhor. Aliás, ele termina tão abobalhado quanto se tornou depois que Perfídia o abandonou, muito pelo abuso no uso de drogas que o deixou meio lesado. Termina fumando maconha enquanto a filha sai de casa para participar de alguma manifestação.
O filme, na verdade, não “prega” nada. Não dá sermão, não oferece panfleto alternativo. Apenas encena a colisão dos extremos, simbolizada na sensacional cena de perseguição de carros, e deixa o espectador sentir o impacto.
As reações exageradas ao filme não deixam de ser a continuidade dessa colisão: um post após o outro, uma treta após a outra, um cancelamento após o outro, uma eleição após a outra e assim vai, assim vamos.
Diz a turma, aquela, que Uma Batalha Após a Outra tem chances de igualar e talvez superar o recorde de Ben-Hur (1959), Titanic (1997) e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2003), que ganharam 11 Oscars cada.
Se acontecer, será sintoma de como a safra de filmes de 2025 foi fraca. Não que este filme de Paul Thomas Anderson seja ruim. Não é, mas também não tem nada demais para ganhar tanto. Uma vitória assim grandiosa dirá mais dos concorrentes do que dele.
É um filme que tem gerado polêmica por seus temas políticos, em grande evidência nos dias de hoje. Mas isso é bom sinal, pois muitas dessas reações confirmam o acerto do filme na forma de retratar seus temas.
Darei spoilers no que virá, então, siga por sua conta e risco.

O título do filme, Uma Batalha Após a Outra, é praticamente uma descrição do enredo. Do início ao fim das 2h30 de duração da obra, raros são os momentos de intervalo na ação. O espectador é arrastado por uma sucessão de eventos, sem muito respiro para introspecções.
Impressiona a consistência na manutenção do ritmo da narrativa, muito pelo uso preciso da trilha sonora composta por Jonny Greenwood, o guitarrista do Radiohead. Esse ritmo acelerado, sem ser desorientador, é crucial para que o estranhamento do espectador com várias situações excêntricas aconteça sem que o absurdo cômico delas predomine sobre a tensão dramática.
Quando o espectador se dá conta de que não está, na verdade, assistindo a um filme de ação, mas a uma sátira, a comicidade não funciona como alívio da tensão, mas como causadora do aumento do desconforto com a esquisitice da coisa toda. Somente na segunda vez que se assiste ao filme é que o humor é melhor percebido e, com isso, a crítica que toda sátira faz se revela com mais clareza.
Somos apresentados, primeiro, a um grupo extremista de esquerda e, depois, a outro, mas de direita. O alvo satírico é o extremismo em si, a forma mental e social que o sustenta. A engenharia satírica atua na própria ação: pouco a pouco, o que parecia apenas radicalização se revela intrinsecamente insano e, por isso, ridículo, independentemente da ideologia que o embale.
No campo da esquerda, o momento-chave da revelação do absurdo se dá quando a mais radical dos revolucionários, Perfidia (Teyana Taylor), engravida.
Por mais que se compreendam as motivações do grupo revolucionário, por mais que alguém concorde, inclusive, com sua ideologia e seus métodos de ação, a forma como Perfidia lida com sua gravidez afasta qualquer pessoa de bom senso, seja de esquerda ou de direita.
Até o seu parceiro amoroso, Bob (Leonardo DiCaprio), se distancia: não consegue trair sua consciência moral, que lhe acusava do óbvio. Ao se tornar pai e mãe, cuidar da filha se torna mais importante do que qualquer outra causa.

Quando Perfidia decide abandoná-los para retomar a luta armada, sua frase escandaliza pela frieza de uma convicção inabalável que soa como loucura: “Eu me coloco em primeiro lugar e rejeito sua falta de originalidade.”
Isso revela que, tanto faz se a ideologia serve como máscara idealista do que é apenas orgulho egóico, ou se o ego está instrumentalizado por essa mesma ideologia, o resultado é o mesmo: a desumanização de Perfídia.
O contraste com a postura de Bob, que opta por ser pai mais do que revolucionário, serve também para criar um distanciamento moral do espectador não apenas de Perfídia, mas de sua ideologia.

É o que prepara a ridicularização do extremismo na segunda parte do filme, que se passa 16 anos depois. Bob se distanciou do grupo e tentou ser pai solteiro. E só também, porque agora não parece trabalhar, vive drogado, “bagunçado”, e é arrastado para uma nova batalha pela perseguição que ele e sua filha sofrem.
É quando Leonardo DiCaprio brilha, emulando o icônico protagonista de O Grande Lebowski, o “The Dude”, tornando-se uma espécie de anti-herói involuntariamente cômico. É através dele que voltamos a ter contato com a organização revolucionária, que está mais organizada e profissional, mas também exagerada em várias coisas, como nas senhas usadas pelos membros e que Bob não consegue lembrar.
A parte mais engraçada do filme é justamente quando Bob tenta lembrar das senhas e briga com um membro do grupo que atende seu telefonema. Bob está correndo risco de vida, precisa urgentemente escapar e o sujeito do outro lado reage ao nervosismo com expressões típicas do wokismo mais caricato: “Ok, não me sinto mais seguro agora. Você está violando meu espaço.”
É ridículo, evidentemente. Desconecta o que está acontecendo para privilegiar a subjetividade de quem, ali, deveria simplesmente cumprir sua função. É como se a revolução tivesse virado atendimento de SAC. Diante do ridículo óbvio, Bob se irrita mais ainda: “Violando seu espaço? Que tipo de revolucionário é você, irmão? Não estamos nem no mesmo lugar. Estamos falando no telefone, cara!”.

As ações de Bob e de quem tenta lhe ajudar, como o professor de artes marciais Sergio (Benicio Del Toro), beiram a comédia pastelão, mas sem escorregar para isso, graças à interpretação brilhante dos atores. É o melhor do filme: quando a sátira vira corpo, timing e performance, e não só tese.
Do lado da direita, o ridículo já se apresenta desde o primeiro momento pela interpretação caricatural do coronel Lockjaw, por Sean Penn. Ao contrário de DiCaprio e Del Toro, Penn exagera demais. Mas o ridículo fica escancarado de vez quando o nome do grupo extremista ao qual Lockjaw quer pertencer é revelado: Clube dos Aventureiros do Natal.
Não há como não escutar isso e não conter o riso, pensando: “mas não é possível que isso seja um filme sério”. O nome, que evoca inocência e festividade, colide violentamente com a agenda de superioridade racial do grupo revelada instantes antes por um dos membros: “Ser do clube é ser um homem superior”. Não o melhor, o mais sofisticado, o mais sábio, apenas que você é superior aos outros seres humanos.”
É ridículo, evidentemente.

A diferença principal na forma como o filme aborda ambos os grupos está no seu interesse pelos personagens que os integram. Os da direita não são desenvolvidos, mas apresentados “prontos e acabados”, ao contrário dos revolucionários, que passam por fases e mudanças, sendo, por isso, mais humanizados.
A própria Perfídia, que se torna ausente na segunda parte, retorna diferente no fim através de uma carta sua para a filha na qual se demonstra arrependida. Mesmo que a carta não seja dela, mas escrita por Bob para ajudar sua filha a lidar com o abandono da mãe, funciona na trama como um desenvolvimento da personagem. Já Lockjaw, porém, é o mesmo do início ao fim: um bruto carente, estupidificado pelo desejo de fazer parte do grupo extremista.
É por isso que muitos esquerdistas acreditam que o filme seja “anti-fascista” e, por sua vez, direitistas, como Ben Shapiro, acusaram o filme de ser uma “apologia ao terrorismo radical de esquerda”. Posso estar errado, mas é justamente esses exageros que o filme está satirizando.
Toda sátira supõe algum padrão (moral, cognitivo, pragmático, estético etc.) contra o qual a realidade retratada aparece como absurda, hipócrita, inflada ou corrupta. Essa “norma” pode estar clara ou implícita, sugerida pelo contraste. É o caso de Uma Batalha Após a Outra.
Há uma cena em que o contraste é vivido por alguns personagens. É quando Bob e Deandra (Regina Hall) conversam sobre Perfídia grávida, todos em torno de uma fogueira. Ambos preocupados, com Bob perguntando se Perfídia não “se toca” que está grávida e do que isso significa. O contraste aqui não é dado entre as ideologias, extremadas ou não, mas de ambas — todas, qualquer uma — com aquilo que nenhuma consegue metabolizar sem pagar o preço de se tornar desumana: o mais simples e natural bom senso.
É por isso que a razão dada por Perfídia para abandonar sua filha não faz parte apenas de um “ponto de virada” na trama, mas confronta o espectador que, se tiver um mínimo de bom senso, terá a mesma reação de Bob.
A sátira é eficaz no filme porque não condena de fora, mas expõe as entranhas do extremismo. A fala de Perfídia assusta por vários motivos, que podem ser resumidos na fala de Deandra para Bob no dia da fogueira: “Toda revolução começa lutando contra demônios. Depois os fdp lutam entre si”.
Eis as entranhas do extremismo expostas. Ao esterilizar o bom senso, Perfídia não se torna apenas mais radicalizada: torna-se demoníaca. Entenda-se essa expressão aqui não em sentido teológico, mas no que Deandra lhe dá, de “monstruoso”, de “loucura”, daquilo que nos desumaniza e desumaniza o outro – mesmo um filho, mesmo um bebê de colo.
E é por isso que o final, com a carta de Perfídia (se é que foi ela quem escreveu e não Bob), não soa como redenção barata. Para a menina, tem valor catártico. Não por apagar o trauma do abandono, mas por devolver o que o extremismo havia lhe sequestrado: uma mãe.

É esse extremismo que o filme satiriza e, por isso, quem o tome como propaganda anti-fascista ou apologia ao terrorismo acaba escorregando para ficar mais próximo dos satirizados, recortando a história pela lente ideológica com que enxerga a realidade.
E é fácil escorregar nisso nos dias de hoje. Por exemplo: diante desse bom senso contrastante e do tema da paternidade e maternidade, é fácil concluir que o filme, no fundo, seria uma defesa da família. Consigo até visualizar conservadores transformando em clichê a abusada frase de Chesterton sobre não ter nada mais extraordinário do que um homem comum, uma mulher comum e seus filhos comuns.
Mas acontece que o filme não faz qualquer apologia da família, da paternidade, da maternidade, nada disso. Não é porque Bob tem o bom senso de intuir que sua filha é mais importante do que a revolução que isso o torna um homem melhor. Aliás, ele termina tão abobalhado quanto se tornou depois que Perfídia o abandonou, muito pelo abuso no uso de drogas que o deixou meio lesado. Termina fumando maconha enquanto a filha sai de casa para participar de alguma manifestação.
O filme, na verdade, não “prega” nada. Não dá sermão, não oferece panfleto alternativo. Apenas encena a colisão dos extremos, simbolizada na sensacional cena de perseguição de carros, e deixa o espectador sentir o impacto.
As reações exageradas ao filme não deixam de ser a continuidade dessa colisão: um post após o outro, uma treta após a outra, um cancelamento após o outro, uma eleição após a outra e assim vai, assim vamos.
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