Como uma animação infantil é criada? Uma conversa com Gustavo Leite e Julia Sondermann
Por Redação Lumine
|
29.jul.2026
Midle Dot

Se é verdade, como dizia os Irmãos Grimm, que as crianças não precisam que a poesia natural seja enfeitada com artifícios ou explicações lógicas pois elas sentem e compreendem as maravilhas do mundo por puro instinto, é quase intuitivo dizermos que fazer animação infantil é uma arte difícil e de grande responsabilidade. 

Em uma era dominada por estímulos rápidos e produções massificadas, então, criar filmes infantis autênticos exige coragem e talento absurdos para remar contra a maré, sem afundar no processo. 

Gustavo Leite e Julia Sondermann, roteiristas e diretores das animações originais da Lumine, escolheram esse caminho de longa paciência e felizmente vêm obtendo sucesso — e não somos nós que estamos dizendo isso: além de serem profundos, narrativamente ricos e seguros para crianças de quaisquer idades, seus filmes já foram vencedores em grandes festivais internacionais, como o Hard Faith Fest, Accolade Global Film Competition, Dubai Independent Film Festival, Lift-Off Global Network e Accolade Global Film Competition.  

Com uma produção completamente artesanal, cada frame desenhado à mão, cada trilha sonora e cada escolha de dublagem em suas animações têm o único propósito de educar, elevar o imaginário e transmitir valores que as famílias católicas possam confiar de olhos fechados.

Nesta entrevista exclusiva para o nosso blog, falamos sobre o desafio de prender a atenção das crianças no mundo atual, a inspiração por trás dessas histórias e os grandes projetos que ainda estão por vir.

Entrevista com Gustavo Leite e Julia Sondermann

De todas as animações originais que vocês já produziram na Lumine, qual tem um espaço especial no coração de cada um?

Julia Sondermann: Eu gosto muito de “O Mistério do Sino que Não Parava de Tocar”. Essa história nasceu de forma muito espontânea. Uma amiga deu de presente para o meu filho mais velho um conjunto de oito sinos com a escala musical. Ele tinha uns dois anos na época e passava o tempo inteiro brincando com aquilo, tocando as notas. Na hora de dormir, ele sempre me pedia uma história, então eu comecei a inventar contos sobre esse sino. A história foi crescendo cada vez mais até que percebi que a nossa próxima animação infantil já estava pronta. É muito especial porque é totalmente dedicada a ele. 

Gustavo Leite: É muito difícil escolher só uma, mas eu gosto muito da iniciativa do “Cidade Amarela”. Principalmente na primeira temporada, nós abordamos algo que todo mundo que é pai vive intensamente: o desafio de colocar a criança para dormir. Depois de um dia agitado e cheio de coisas, a série retrata de forma muito bonita um pai lidando com esse momento, contando fábulas de Esopo para o filho. Ele usa essas histórias para ilustrar maneiras heróicas e sábias de resolver os problemas cotidianos que a criança enfrenta. É uma maneira lúdica de ensinar, onde o pai vai educando e interagindo. Além disso, o “Cidade Amarela” foi o início de um universo que estamos expandindo bastante.  

E falando na criação dessas histórias, de onde surgem as ideias para novos episódios e quanto tempo vocês levam para criar cada desenho? 

Gustavo Leite: A Julia e eu somos contadores de histórias, então temos uma paixão natural por isso. Realmente sentimos a necessidade de criar histórias que iluminem a vida das crianças, principalmente, no contexto atual das animações. Se formos olhar, por exemplo, as animações mais antigas que assistíamos, muitas eram feitas com carinho e com o objetivo de contar histórias interessantes não só para as crianças, mas também para os adultos que as assistiam. 

Agora, sobre o processo de produção: como trabalhamos de forma independente, focamos em animações curtas, mas o período de produção é longo. Um desenho nosso, que dura por volta de dez minutos, leva normalmente seis meses para ficar pronto. É um processo muito artesanal feito à mão, literalmente desenho a desenho. Nós almejamos alcançar coisas maiores e filmes mais longos, mas nunca perdendo de vista a qualidade e o carinho que aplicamos.  

Julia Sondermann: Nós não vamos necessariamente atrás desses episódios. Como contadores de histórias, acho que é o contrário: a história é que nos persegue. Você está vivendo sua vida, fazendo as suas coisas e, de repente, algo te encanta e te obriga a  continuar pensando naquilo, desenvolvendo a ideia. Nós tentamos transmitir aquilo que nos maravilhou para as crianças, para que elas também possam se encantar com o que vimos. No fim, a inspiração tem muito de quem somos e daquilo que mexeu conosco de verdade. Primeiro, somos impactados pela história enquanto vivemos a nossa própria vida, depois pensamos em formas de trazê-la ao mundo, seja por meio de um filme, um curta ou uma animação.

Dentro dessas histórias, como nasce um novo personagem? O que vocês consideram essencial nele para que a criança não só goste, mas se identifique e aprenda junto?

Gustavo Leite: Existe uma premissa básica que seguimos: se o que você faz para uma criança não é interessante para você como adulto, também não será interessante para ela. É essencial que os personagens estimulem a capacidade de aprendizado sobre o mundo de uma forma engajadora, contando histórias que agreguem valores — e que não precisam ser necessariamente histórias de santos. 

O nosso objetivo é contar histórias que sejam boas de serem contadas e que tenham elementos que agregam no desenvolvimento da criança. Histórias que tragam virtudes e aprendizados sobre o mundo, que sejam ricas. E isso também diz muito sobre a forma que nós produzimos essas animações. Quando a equipe entra na fase de concept art, lapidamos cada personagem detalhadamente até que eles realmente envolvam o público. Também valorizamos o trabalho feito à mão, com um olhar atento; trazemos dubladores reais, de carne e osso, para transmitir emoções genuínas a esses personagens. Buscamos pessoas que são boas no que fazem porque queremos trazer essa humanidade para o que estamos fazendo. 

Julia Sondermann: Eu acredito muito que as crianças podem mais. O essencial é oferecer mais às crianças, sem as tratarmos de maneira inferior. Se olharmos hoje para as animações, elas estão muito focadas em transmitir sensações, de modo que deixem as crianças viciadas naquilo. Nós olhamos para o nosso trabalho de outra forma. Acreditamos que é possível oferecer mais às crianças, sem tratá-las de uma forma completamente infantilizada. Queremos apresentar personagens que ajudem a introduzir assuntos fundamentais, seja a vida de um santo, eventos históricos ou o valor das virtudes, ensinando conceitos importantes de forma lúdica. Todo o arco dos personagens que criamos  é estruturado para que a criança participe, se envolva e seja impactada positivamente pelo começo, meio e fim da história. Tudo é feito para que a história seja naturalmente interessante, sem precisar deixá-la viciada. 

Prender a atenção de uma criança hoje parece cada vez mais difícil. Vocês já tiveram que adaptar alguma obra para deixar o público mais engajado ou se moldar ao mercado?

Gustavo Leite: O mercado atual aposta em desenhos que acabam sendo “emburrecedores”, viciando a criança por meio de estímulos sensoriais vazios, o que faz com que elas regridam. O que nós fazemos é o movimento oposto disso: nosso foco é puxar as crianças para cima. As crianças possuem uma capacidade gigantesca de absorver novas palavras e sentimentos mais complexos, quando não são subestimadas. Nós percebemos que as crianças conseguem absorver as coisas, interagir e fazer perguntas inteligentes sobre o que estão vendo. Então, é isso. Nós prezamos em nivelar o nosso público para cima, ao invés de adaptar uma obra para que ela agrade o maior número de pessoas possível. 

Julia Sondermann: É até engraçado dizer isso, mas estamos tão focados no nosso próprio mundinho, criando as nossas coisas, focando nas histórias que achamos importantes, que não nos importamos muito com novas tendências. O que não quer dizer que não nos esforçamos para deixar as crianças engajadas. Mas fazemos isso de uma forma que não as deixe viciadas. No processo, é fundamental saber misturar o aprendizado mais profundo com uma roupagem leve. Em Vila das Virtudes, por exemplo, trouxemos um episódio sobre a Temperança, que é um tema sério. Mostramos que o vento do moinho parou e, no desespero, os personagens acabaram comendo toda a reserva de comida. Para resolver o problema, a personagem tenta correr como num brinquedo de hamster gigante, mas a roda se solta e todos correm atrás de forma cômica. Desenvolvemos a narrativa de maneira surreal, lúdica e engraçada, para que o engajamento aconteça de forma natural, sem deixar a criança nervosa ou agitada pelo superestímulo. Acho que é isso, mas, em termos de ideias, acredito que nós nunca nos moldaríamos ao que está sendo feito no mercado só para atingir o maior número de crianças. O nosso objetivo é que a história seja um trampolim para que elas possam continuar imaginando, não o contrário. 

Como é o desafio de dar vida a tudo isso? Contem um pouco sobre como funciona a dinâmica e a troca entre os ilustradores e os animadores. 

Gustavo Leite: Cada projeto é elaborado em conjunto e acompanhado de perto. Há uma troca muito próxima entre nós e os artistas. Então o processo é basicamente esse: iniciamos pela concepção, criamos um roteiro muito bem trabalhado e passamos esse material para a equipe de ilustradores e animadores. Como não usamos recursos de inteligência artificial, nós fazemos juntos o processo de concept art, em que vemos acontecer o desenvolvimento dos cenários, dos personagens, da trilha sonora, da narração…. Enfim, tudo é feito e acompanhado de perto. 

Julia Sondermann: Por termos a estrutura de um estúdio independente, trabalhamos de forma muito próxima — o que é muito bom, se formos comparar nosso processo com o de um estúdio maior. Como na animação você dificilmente pode voltar atrás e refazer algo estrutural, nós aproveitamos muito a etapa de leitura de roteiro em conjunto para desenvolvermos juntos cada parte. É nessa fase que tentamos “convencer” os artistas do propósito de cada cena, a personalidade dos personagens, o tom de voz de cada um. Eles participam e frequentemente chegam com propostas de mudança de ângulos e detalhes que enriquecem a ideia original.

Como funciona a escolha das vozes e da trilha sonora para construir a emoção que vocês querem passar para as crianças? 

Gustavo Leite: Costumamos dizer que o audiovisual é 50% som e 50% imagem. A trilha sonora é a alma da produção: ela conta tudo aquilo que não está visível fisicamente na tela. É a música que diz à criança se o personagem está sentindo medo ou se está encontrando uma coragem interior que não estamos vendo. Por isso que a trilha e a narração dos artistas são tão importantes. Em relação às vozes, fazemos questão de trabalhar apenas com narradores e dubladores humanos, que colocam vida de verdade na obra, porque na maioria das vezes o sentimento que eles conseguem transmitir é muito maior. Entendemos que o uso excessivo de Inteligência Artificial, por exemplo, é inimigo da arte; não há como transmitir emoção real a partir de algo que, essencialmente, não sente nada. 

Julia Sondermann: Acredito que o cinema é um trabalho autoral e orgânico, e cada ser humano que passa pelo filme deixa um pedaço de si, por assim dizer. Se trocarmos uma só pessoa da equipe — até o montador —, o filme muda por completo. Então, quando falamos de trilha e escolha das vozes, trabalhar a emoção é contar com a individualidade dos artistas para que as reações sejam transmitidas da melhor forma. Procuramos trazer a humanidade de cada profissional e cada dublador envolvido para que o sentimento conecte diretamente com a criança que está do outro lado da tela.

A gente sabe que na produção de filmes  sempre acontece algo inesperado. Tem alguma história engraçada de bastidor, ou um “acidente feliz” que acabou entrando na versão final de um desenho e deu super certo?

Julia Sondermann e Gustavo Leite (simultaneamente): Acho que isso é mais comum em filmes de live action. A animação tem um processo bem mais controlado, o que faz os imprevistos serem mais raros. No entanto, o “inesperado” pode acontecer na escrita do roteiro. Em algumas reuniões, por exemplo, depois que o roteiro já está finalizado, nós relemos e pensamos: “Não, isso precisa de outro desfecho; precisa terminar de um jeito maior para suprirmos a expectativa que geramos no começo”. Outra coisa que acho importante é estarmos sempre abertos a acontecimentos porque o filme é uma coisa andante; é algo que se movimenta.  

Todo esse cuidado que vocês têm reflete muito na casa de quem assiste. Qual foi o feedback de pais ou crianças sobre as produções que mais marcou vocês até hoje?

Gustavo Leite: Fomos surpreendidos maravilhosamente pelo alcance de “Santo Agostinho e o Roubo das Peras”, que ganhou um prêmio em um festival internacional de filmes cristãos lá em Los Angeles (Hard Faith Fest). É emocionante ver que, mesmo sendo produzido num estúdio consideravelmente pequeno e de forma artesanal, as pessoas conseguem captar as nossas intenções e dar tamanho valor a elas. No entanto, o que mais enche nosso coração é saber que os pais e mães confiam 100% no que entregamos. Diferente de outras mídias em que o pai precisa fazer uma varredura para garantir que o conteúdo é seguro, conosco eles apertam o “play” cientes de que nada vai corromper ou prejudicar as crianças no futuro. 

Julia Sondermann: Sempre recebemos mensagens no Instagram, de pais nos agradecendo e dando sugestões, mostrando as crianças assistindo às animações. Acho isso incrível, porque trabalhamos num processo à distância, onde só costumamos ter o retorno físico nos raros eventos de exibições, então essas mensagens nos animam e nos alegram muito. 

Para finalizarmos: quais Originais Kids vocês já têm em vista para os próximos anos?  

Gustavo Leite: Nós estamos preparando um especial de Natal longo para o universo de “Cidade Amarela”. E estão vindo também os episódios curtos para finalizar a Vila das Virtudes, começando pela Temperança agora e o episódio sobre a Fortaleza próximo ao Dia das Crianças.

Julia Sondermann: Nós queremos fortalecer muito o nosso projeto de internacionalização para entregar as produções originais para outros idiomas. Possuímos uma longa lista de ideias espalhadas por várias áreas como a ficção e os documentários, atuando concomitantemente. Não podemos revelar tudo agora, mas o público pode ter certeza de que grandes projetos já estão por vir!

Também pode te interessar: entrevista com Julia Sondermann sobre maternidade e cinema. 

*** 

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Se é verdade, como dizia os Irmãos Grimm, que as crianças não precisam que a poesia natural seja enfeitada com artifícios ou explicações lógicas pois elas sentem e compreendem as maravilhas do mundo por puro instinto, é quase intuitivo dizermos que fazer animação infantil é uma arte difícil e de grande responsabilidade. 

Em uma era dominada por estímulos rápidos e produções massificadas, então, criar filmes infantis autênticos exige coragem e talento absurdos para remar contra a maré, sem afundar no processo. 

Gustavo Leite e Julia Sondermann, roteiristas e diretores das animações originais da Lumine, escolheram esse caminho de longa paciência e felizmente vêm obtendo sucesso — e não somos nós que estamos dizendo isso: além de serem profundos, narrativamente ricos e seguros para crianças de quaisquer idades, seus filmes já foram vencedores em grandes festivais internacionais, como o Hard Faith Fest, Accolade Global Film Competition, Dubai Independent Film Festival, Lift-Off Global Network e Accolade Global Film Competition.  

Com uma produção completamente artesanal, cada frame desenhado à mão, cada trilha sonora e cada escolha de dublagem em suas animações têm o único propósito de educar, elevar o imaginário e transmitir valores que as famílias católicas possam confiar de olhos fechados.

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Entrevista com Gustavo Leite e Julia Sondermann

De todas as animações originais que vocês já produziram na Lumine, qual tem um espaço especial no coração de cada um?

Julia Sondermann: Eu gosto muito de “O Mistério do Sino que Não Parava de Tocar”. Essa história nasceu de forma muito espontânea. Uma amiga deu de presente para o meu filho mais velho um conjunto de oito sinos com a escala musical. Ele tinha uns dois anos na época e passava o tempo inteiro brincando com aquilo, tocando as notas. Na hora de dormir, ele sempre me pedia uma história, então eu comecei a inventar contos sobre esse sino. A história foi crescendo cada vez mais até que percebi que a nossa próxima animação infantil já estava pronta. É muito especial porque é totalmente dedicada a ele. 

Gustavo Leite: É muito difícil escolher só uma, mas eu gosto muito da iniciativa do “Cidade Amarela”. Principalmente na primeira temporada, nós abordamos algo que todo mundo que é pai vive intensamente: o desafio de colocar a criança para dormir. Depois de um dia agitado e cheio de coisas, a série retrata de forma muito bonita um pai lidando com esse momento, contando fábulas de Esopo para o filho. Ele usa essas histórias para ilustrar maneiras heróicas e sábias de resolver os problemas cotidianos que a criança enfrenta. É uma maneira lúdica de ensinar, onde o pai vai educando e interagindo. Além disso, o “Cidade Amarela” foi o início de um universo que estamos expandindo bastante.  

E falando na criação dessas histórias, de onde surgem as ideias para novos episódios e quanto tempo vocês levam para criar cada desenho? 

Gustavo Leite: A Julia e eu somos contadores de histórias, então temos uma paixão natural por isso. Realmente sentimos a necessidade de criar histórias que iluminem a vida das crianças, principalmente, no contexto atual das animações. Se formos olhar, por exemplo, as animações mais antigas que assistíamos, muitas eram feitas com carinho e com o objetivo de contar histórias interessantes não só para as crianças, mas também para os adultos que as assistiam. 

Agora, sobre o processo de produção: como trabalhamos de forma independente, focamos em animações curtas, mas o período de produção é longo. Um desenho nosso, que dura por volta de dez minutos, leva normalmente seis meses para ficar pronto. É um processo muito artesanal feito à mão, literalmente desenho a desenho. Nós almejamos alcançar coisas maiores e filmes mais longos, mas nunca perdendo de vista a qualidade e o carinho que aplicamos.  

Julia Sondermann: Nós não vamos necessariamente atrás desses episódios. Como contadores de histórias, acho que é o contrário: a história é que nos persegue. Você está vivendo sua vida, fazendo as suas coisas e, de repente, algo te encanta e te obriga a  continuar pensando naquilo, desenvolvendo a ideia. Nós tentamos transmitir aquilo que nos maravilhou para as crianças, para que elas também possam se encantar com o que vimos. No fim, a inspiração tem muito de quem somos e daquilo que mexeu conosco de verdade. Primeiro, somos impactados pela história enquanto vivemos a nossa própria vida, depois pensamos em formas de trazê-la ao mundo, seja por meio de um filme, um curta ou uma animação.

Dentro dessas histórias, como nasce um novo personagem? O que vocês consideram essencial nele para que a criança não só goste, mas se identifique e aprenda junto?

Gustavo Leite: Existe uma premissa básica que seguimos: se o que você faz para uma criança não é interessante para você como adulto, também não será interessante para ela. É essencial que os personagens estimulem a capacidade de aprendizado sobre o mundo de uma forma engajadora, contando histórias que agreguem valores — e que não precisam ser necessariamente histórias de santos. 

O nosso objetivo é contar histórias que sejam boas de serem contadas e que tenham elementos que agregam no desenvolvimento da criança. Histórias que tragam virtudes e aprendizados sobre o mundo, que sejam ricas. E isso também diz muito sobre a forma que nós produzimos essas animações. Quando a equipe entra na fase de concept art, lapidamos cada personagem detalhadamente até que eles realmente envolvam o público. Também valorizamos o trabalho feito à mão, com um olhar atento; trazemos dubladores reais, de carne e osso, para transmitir emoções genuínas a esses personagens. Buscamos pessoas que são boas no que fazem porque queremos trazer essa humanidade para o que estamos fazendo. 

Julia Sondermann: Eu acredito muito que as crianças podem mais. O essencial é oferecer mais às crianças, sem as tratarmos de maneira inferior. Se olharmos hoje para as animações, elas estão muito focadas em transmitir sensações, de modo que deixem as crianças viciadas naquilo. Nós olhamos para o nosso trabalho de outra forma. Acreditamos que é possível oferecer mais às crianças, sem tratá-las de uma forma completamente infantilizada. Queremos apresentar personagens que ajudem a introduzir assuntos fundamentais, seja a vida de um santo, eventos históricos ou o valor das virtudes, ensinando conceitos importantes de forma lúdica. Todo o arco dos personagens que criamos  é estruturado para que a criança participe, se envolva e seja impactada positivamente pelo começo, meio e fim da história. Tudo é feito para que a história seja naturalmente interessante, sem precisar deixá-la viciada. 

Prender a atenção de uma criança hoje parece cada vez mais difícil. Vocês já tiveram que adaptar alguma obra para deixar o público mais engajado ou se moldar ao mercado?

Gustavo Leite: O mercado atual aposta em desenhos que acabam sendo “emburrecedores”, viciando a criança por meio de estímulos sensoriais vazios, o que faz com que elas regridam. O que nós fazemos é o movimento oposto disso: nosso foco é puxar as crianças para cima. As crianças possuem uma capacidade gigantesca de absorver novas palavras e sentimentos mais complexos, quando não são subestimadas. Nós percebemos que as crianças conseguem absorver as coisas, interagir e fazer perguntas inteligentes sobre o que estão vendo. Então, é isso. Nós prezamos em nivelar o nosso público para cima, ao invés de adaptar uma obra para que ela agrade o maior número de pessoas possível. 

Julia Sondermann: É até engraçado dizer isso, mas estamos tão focados no nosso próprio mundinho, criando as nossas coisas, focando nas histórias que achamos importantes, que não nos importamos muito com novas tendências. O que não quer dizer que não nos esforçamos para deixar as crianças engajadas. Mas fazemos isso de uma forma que não as deixe viciadas. No processo, é fundamental saber misturar o aprendizado mais profundo com uma roupagem leve. Em Vila das Virtudes, por exemplo, trouxemos um episódio sobre a Temperança, que é um tema sério. Mostramos que o vento do moinho parou e, no desespero, os personagens acabaram comendo toda a reserva de comida. Para resolver o problema, a personagem tenta correr como num brinquedo de hamster gigante, mas a roda se solta e todos correm atrás de forma cômica. Desenvolvemos a narrativa de maneira surreal, lúdica e engraçada, para que o engajamento aconteça de forma natural, sem deixar a criança nervosa ou agitada pelo superestímulo. Acho que é isso, mas, em termos de ideias, acredito que nós nunca nos moldaríamos ao que está sendo feito no mercado só para atingir o maior número de crianças. O nosso objetivo é que a história seja um trampolim para que elas possam continuar imaginando, não o contrário. 

Como é o desafio de dar vida a tudo isso? Contem um pouco sobre como funciona a dinâmica e a troca entre os ilustradores e os animadores. 

Gustavo Leite: Cada projeto é elaborado em conjunto e acompanhado de perto. Há uma troca muito próxima entre nós e os artistas. Então o processo é basicamente esse: iniciamos pela concepção, criamos um roteiro muito bem trabalhado e passamos esse material para a equipe de ilustradores e animadores. Como não usamos recursos de inteligência artificial, nós fazemos juntos o processo de concept art, em que vemos acontecer o desenvolvimento dos cenários, dos personagens, da trilha sonora, da narração…. Enfim, tudo é feito e acompanhado de perto. 

Julia Sondermann: Por termos a estrutura de um estúdio independente, trabalhamos de forma muito próxima — o que é muito bom, se formos comparar nosso processo com o de um estúdio maior. Como na animação você dificilmente pode voltar atrás e refazer algo estrutural, nós aproveitamos muito a etapa de leitura de roteiro em conjunto para desenvolvermos juntos cada parte. É nessa fase que tentamos “convencer” os artistas do propósito de cada cena, a personalidade dos personagens, o tom de voz de cada um. Eles participam e frequentemente chegam com propostas de mudança de ângulos e detalhes que enriquecem a ideia original.

Como funciona a escolha das vozes e da trilha sonora para construir a emoção que vocês querem passar para as crianças? 

Gustavo Leite: Costumamos dizer que o audiovisual é 50% som e 50% imagem. A trilha sonora é a alma da produção: ela conta tudo aquilo que não está visível fisicamente na tela. É a música que diz à criança se o personagem está sentindo medo ou se está encontrando uma coragem interior que não estamos vendo. Por isso que a trilha e a narração dos artistas são tão importantes. Em relação às vozes, fazemos questão de trabalhar apenas com narradores e dubladores humanos, que colocam vida de verdade na obra, porque na maioria das vezes o sentimento que eles conseguem transmitir é muito maior. Entendemos que o uso excessivo de Inteligência Artificial, por exemplo, é inimigo da arte; não há como transmitir emoção real a partir de algo que, essencialmente, não sente nada. 

Julia Sondermann: Acredito que o cinema é um trabalho autoral e orgânico, e cada ser humano que passa pelo filme deixa um pedaço de si, por assim dizer. Se trocarmos uma só pessoa da equipe — até o montador —, o filme muda por completo. Então, quando falamos de trilha e escolha das vozes, trabalhar a emoção é contar com a individualidade dos artistas para que as reações sejam transmitidas da melhor forma. Procuramos trazer a humanidade de cada profissional e cada dublador envolvido para que o sentimento conecte diretamente com a criança que está do outro lado da tela.

A gente sabe que na produção de filmes  sempre acontece algo inesperado. Tem alguma história engraçada de bastidor, ou um “acidente feliz” que acabou entrando na versão final de um desenho e deu super certo?

Julia Sondermann e Gustavo Leite (simultaneamente): Acho que isso é mais comum em filmes de live action. A animação tem um processo bem mais controlado, o que faz os imprevistos serem mais raros. No entanto, o “inesperado” pode acontecer na escrita do roteiro. Em algumas reuniões, por exemplo, depois que o roteiro já está finalizado, nós relemos e pensamos: “Não, isso precisa de outro desfecho; precisa terminar de um jeito maior para suprirmos a expectativa que geramos no começo”. Outra coisa que acho importante é estarmos sempre abertos a acontecimentos porque o filme é uma coisa andante; é algo que se movimenta.  

Todo esse cuidado que vocês têm reflete muito na casa de quem assiste. Qual foi o feedback de pais ou crianças sobre as produções que mais marcou vocês até hoje?

Gustavo Leite: Fomos surpreendidos maravilhosamente pelo alcance de “Santo Agostinho e o Roubo das Peras”, que ganhou um prêmio em um festival internacional de filmes cristãos lá em Los Angeles (Hard Faith Fest). É emocionante ver que, mesmo sendo produzido num estúdio consideravelmente pequeno e de forma artesanal, as pessoas conseguem captar as nossas intenções e dar tamanho valor a elas. No entanto, o que mais enche nosso coração é saber que os pais e mães confiam 100% no que entregamos. Diferente de outras mídias em que o pai precisa fazer uma varredura para garantir que o conteúdo é seguro, conosco eles apertam o “play” cientes de que nada vai corromper ou prejudicar as crianças no futuro. 

Julia Sondermann: Sempre recebemos mensagens no Instagram, de pais nos agradecendo e dando sugestões, mostrando as crianças assistindo às animações. Acho isso incrível, porque trabalhamos num processo à distância, onde só costumamos ter o retorno físico nos raros eventos de exibições, então essas mensagens nos animam e nos alegram muito. 

Para finalizarmos: quais Originais Kids vocês já têm em vista para os próximos anos?  

Gustavo Leite: Nós estamos preparando um especial de Natal longo para o universo de “Cidade Amarela”. E estão vindo também os episódios curtos para finalizar a Vila das Virtudes, começando pela Temperança agora e o episódio sobre a Fortaleza próximo ao Dia das Crianças.

Julia Sondermann: Nós queremos fortalecer muito o nosso projeto de internacionalização para entregar as produções originais para outros idiomas. Possuímos uma longa lista de ideias espalhadas por várias áreas como a ficção e os documentários, atuando concomitantemente. Não podemos revelar tudo agora, mas o público pode ter certeza de que grandes projetos já estão por vir!

Também pode te interessar: entrevista com Julia Sondermann sobre maternidade e cinema. 

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