Um padre de vinte e sete anos vivia escondido nos arredores de Tequila, em Jalisco. Seu nome? Toribio Romo González. Escondia-se porque era padre. De um lado, soldados e decretos; do outro, um sacerdote preparando a missa. A desproporção contém boa parte da tragédia.
Na sexta-feira, 24 de fevereiro de 1928, Toribio trabalhou até tarde. Pretendia celebrar a missa às cinco horas da manhã seguinte, mas o corpo lhe pediu algumas horas de sono. Foi assim que os soldados o encontraram: adormecido, à espera da hora de se dirigir para o altar.
Seria cômodo atribuir tudo a Plutarco Elías Calles. A História ficaria mais simples: um governante perverso, algumas vítimas inocentes, uma guerra deplorável. Mas Calles não inventou o conflito que levaria às últimas consequências. As relações entre o Estado mexicano e a Igreja atravessaram o século XIX sob tensões sucessivas. As reformas liberais, a Constituição de 1857 e a Guerra da Reforma abriram feridas que a Revolução Mexicana encontrou longe de cicatrizadas. Em 1917, porém, ocorreu algo decisivo: o anticlericalismo deixou de pertencer apenas à retórica de políticos e revolucionários e ganhou abrigo constitucional. O poder civil recebeu instrumentos para limitar a presença institucional da Igreja, submetendo instituições católicas a um regime de exceção.
Foi neste México que Pio XI teve de intervir. Achille Ratti ocupava a Cátedra de Pedro desde 1922, e sua formação anterior ajuda a compreender o modo como enfrentaria o problema. Acostumado ao trabalho paciente da leitura e à disciplina das distinções, antes de governar a Igreja, fora um estudioso. Chegou ao pontificado com a Europa ainda entre os destroços da Primeira Guerra. Em 18 de novembro de 1926, o papa publicou Iniquis Afflictisque. O título já nasceu carregando o peso da situação. Nessa encíclica. Pio XI não começa a história no instante em que aparece o cadáver. Procura mostrar como determinada concepção jurídica preparara as condições em que a violência pôde tornar-se política regular. O homem preso foi precedido pela norma. A clandestinidade do padre nasceu de uma ordem jurídica que submeteu o exercício do sacerdócio ao consentimento do governo. O tiro veio por último. Muito antes dele já existia uma teoria, embora seus executores talvez nunca tenham se ocupado em formulá-la. O Estado atribuiu a si mesmo o direito de fixar o espaço reservado à religião. Aceito esse princípio, a fronteira entre tolerar e perseguir deixa de depender da justiça e fica entregue à vontade de quem exerce o poder.
Pio XI não pedia apenas um tratamento menos severo para homens cuja fé compartilhava. Seu argumento ia além: certos direitos não nascem de uma autorização do Estado e, justamente por isso, não podem ser retirados por ele como se revoga uma licença comercial. Nada disso nasce de uma nostalgia por algum México teocrático, mais presente na imaginação dos anticlericais do que nos projetos de Roma. A questão era outra e muito mais funda: impedir que a presença pública da Igreja fosse entendida como favor concedido pelo governo. É precisamente nesse ponto que surge uma das tentações mais persistentes do Estado moderno. De tanto registrar nascimentos, reconhecer associações e conferir validade a documentos, o poder acaba confundindo o reconhecimento jurídico das coisas com a origem delas. É o velho engano do tabelião que, depois de passar a vida guardando certidões de casamento, termina convencido de que foi ele quem inventou o matrimônio.
A reação católica de 1926 revelou a distância entre o México real e a imagem que parte de seus dirigentes construíra do país. Quando o episcopado marcou para 31 de julho a suspensão do culto público, os últimos dias do mês adquiriram o aspecto de um longo adeus. Nos dias que antecederam a medida, uma multidão tomou o caminho dos templos. Quando o poder público avançou sobre a Igreja, encontrou diante de si uma realidade muito mais extensa do que o clero. Havia filas diante dos confessionários, famílias à espera dos sacramentos e igrejas cheias para as últimas missas. Ninguém sabia quando aquela rotina seria retomada. Os testemunhos conservaram algo da atmosfera dessas horas. Gente ajoelhada junto aos altares, filas para a comunhão, lágrimas contidas entre as orações e o movimento contínuo dos sacerdotes no interior dos templos. Os sinos ainda marcavam o ritmo conhecido das cidades enquanto o Santíssimo era retirado. Depois, veio o vazio. As portas, as torres, os bancos, as imagens permaneciam em seus lugares, mas o centro daquela vida havia desaparecido.
A resistência não nasceu como cruzada ordenada por Roma, e Pio XI não transformou o levante armado em prolongamento militar da Igreja. Pelo contrário, os bispos mexicanos haviam recomendado prudência e oração. A realidade, entretanto, avançava mais depressa do que as pastorais. Peregrinações adquiriram caráter de resistência pública. O adolescente José Sánchez del Río, assassinado em fevereiro de 1928, tornou-se símbolo porque recusou renegar a fé quando já se encontrava nas mãos de seus algozes.
Quando a fase principal da guerra terminou em 1929, depois das negociações em que o embaixador norte-americano Dwight Morrow exerceu papel importante, talvez parecesse possível encerrar o assunto. O culto público seria retomado, os combatentes deporiam as armas, e a diplomacia poderia congratular-se por ter recolocado a tampa sobre aquilo que durante três anos fervia. Pio XI não considerou que a tampa resolvesse o problema. Esse é o sentido histórico de Acerba Animi, publicada em 29 de setembro de 1932. A segunda grande encíclica mexicana de seu pontificado não repete a primeira. Cinco anos mais tarde, em 28 de março de 1937, Pio XI publicou Firmissimam Constantiam, terceira encíclica dirigida especificamente à situação mexicana. A preocupação agora incluía a formação de leigos capazes de atuar na sociedade sem transformar a Igreja em partido. Pio XI não negava que o México tivesse problemas sociais gravíssimos, nem fazia da estrutura econômica anterior à Revolução modelo de ordem cristã. Negava outra coisa: que fosse necessário descristianizar o povo para servi-lo. A suposição de que o camponês somente seria emancipado depois que alguém o libertasse de sua fé encerrava aquela forma de paternalismo em que o libertador, curiosamente, necessita primeiro retirar do libertado o direito de escolher aquilo em que continuará acreditando.
Pio XI morreu em fevereiro de 1939, quando a crise mexicana ainda esperava por uma solução jurídica duradoura, alcançada somente muito tempo depois. Ao longo de seu pontificado, porém, tomou forma uma interpretação bastante clara do conflito. Roma recusou a leitura da Guerra Cristera como simples epopeia militar e reconheceu a esfera legítima do poder civil, inclusive diante das mudanças sociais promovidas pelo novo regime. O limite surgia em outro ponto. Nenhuma reforma, por mais ambiciosos que fossem seus propósitos, podia exigir do homem a renúncia à consciência nem transformar a fé em matéria sujeita ao arbítrio político. É também por isso que o episódio mexicano conserva interesse para além da violência daqueles anos.
***
Um emocionante retrato do conflito ocorrido entre 1926 e 1929, quando os católicos do México se rebelaram contra as perseguições do governo do presidente Calles.
Veja com os próprios olhos a coragem de um povo que escolheu a fé diante da tirania.
Assista a Cristiada hoje mesmo na Lumine!
Um padre de vinte e sete anos vivia escondido nos arredores de Tequila, em Jalisco. Seu nome? Toribio Romo González. Escondia-se porque era padre. De um lado, soldados e decretos; do outro, um sacerdote preparando a missa. A desproporção contém boa parte da tragédia.
Na sexta-feira, 24 de fevereiro de 1928, Toribio trabalhou até tarde. Pretendia celebrar a missa às cinco horas da manhã seguinte, mas o corpo lhe pediu algumas horas de sono. Foi assim que os soldados o encontraram: adormecido, à espera da hora de se dirigir para o altar.
Seria cômodo atribuir tudo a Plutarco Elías Calles. A História ficaria mais simples: um governante perverso, algumas vítimas inocentes, uma guerra deplorável. Mas Calles não inventou o conflito que levaria às últimas consequências. As relações entre o Estado mexicano e a Igreja atravessaram o século XIX sob tensões sucessivas. As reformas liberais, a Constituição de 1857 e a Guerra da Reforma abriram feridas que a Revolução Mexicana encontrou longe de cicatrizadas. Em 1917, porém, ocorreu algo decisivo: o anticlericalismo deixou de pertencer apenas à retórica de políticos e revolucionários e ganhou abrigo constitucional. O poder civil recebeu instrumentos para limitar a presença institucional da Igreja, submetendo instituições católicas a um regime de exceção.
Foi neste México que Pio XI teve de intervir. Achille Ratti ocupava a Cátedra de Pedro desde 1922, e sua formação anterior ajuda a compreender o modo como enfrentaria o problema. Acostumado ao trabalho paciente da leitura e à disciplina das distinções, antes de governar a Igreja, fora um estudioso. Chegou ao pontificado com a Europa ainda entre os destroços da Primeira Guerra. Em 18 de novembro de 1926, o papa publicou Iniquis Afflictisque. O título já nasceu carregando o peso da situação. Nessa encíclica. Pio XI não começa a história no instante em que aparece o cadáver. Procura mostrar como determinada concepção jurídica preparara as condições em que a violência pôde tornar-se política regular. O homem preso foi precedido pela norma. A clandestinidade do padre nasceu de uma ordem jurídica que submeteu o exercício do sacerdócio ao consentimento do governo. O tiro veio por último. Muito antes dele já existia uma teoria, embora seus executores talvez nunca tenham se ocupado em formulá-la. O Estado atribuiu a si mesmo o direito de fixar o espaço reservado à religião. Aceito esse princípio, a fronteira entre tolerar e perseguir deixa de depender da justiça e fica entregue à vontade de quem exerce o poder.
Pio XI não pedia apenas um tratamento menos severo para homens cuja fé compartilhava. Seu argumento ia além: certos direitos não nascem de uma autorização do Estado e, justamente por isso, não podem ser retirados por ele como se revoga uma licença comercial. Nada disso nasce de uma nostalgia por algum México teocrático, mais presente na imaginação dos anticlericais do que nos projetos de Roma. A questão era outra e muito mais funda: impedir que a presença pública da Igreja fosse entendida como favor concedido pelo governo. É precisamente nesse ponto que surge uma das tentações mais persistentes do Estado moderno. De tanto registrar nascimentos, reconhecer associações e conferir validade a documentos, o poder acaba confundindo o reconhecimento jurídico das coisas com a origem delas. É o velho engano do tabelião que, depois de passar a vida guardando certidões de casamento, termina convencido de que foi ele quem inventou o matrimônio.
A reação católica de 1926 revelou a distância entre o México real e a imagem que parte de seus dirigentes construíra do país. Quando o episcopado marcou para 31 de julho a suspensão do culto público, os últimos dias do mês adquiriram o aspecto de um longo adeus. Nos dias que antecederam a medida, uma multidão tomou o caminho dos templos. Quando o poder público avançou sobre a Igreja, encontrou diante de si uma realidade muito mais extensa do que o clero. Havia filas diante dos confessionários, famílias à espera dos sacramentos e igrejas cheias para as últimas missas. Ninguém sabia quando aquela rotina seria retomada. Os testemunhos conservaram algo da atmosfera dessas horas. Gente ajoelhada junto aos altares, filas para a comunhão, lágrimas contidas entre as orações e o movimento contínuo dos sacerdotes no interior dos templos. Os sinos ainda marcavam o ritmo conhecido das cidades enquanto o Santíssimo era retirado. Depois, veio o vazio. As portas, as torres, os bancos, as imagens permaneciam em seus lugares, mas o centro daquela vida havia desaparecido.
A resistência não nasceu como cruzada ordenada por Roma, e Pio XI não transformou o levante armado em prolongamento militar da Igreja. Pelo contrário, os bispos mexicanos haviam recomendado prudência e oração. A realidade, entretanto, avançava mais depressa do que as pastorais. Peregrinações adquiriram caráter de resistência pública. O adolescente José Sánchez del Río, assassinado em fevereiro de 1928, tornou-se símbolo porque recusou renegar a fé quando já se encontrava nas mãos de seus algozes.
Quando a fase principal da guerra terminou em 1929, depois das negociações em que o embaixador norte-americano Dwight Morrow exerceu papel importante, talvez parecesse possível encerrar o assunto. O culto público seria retomado, os combatentes deporiam as armas, e a diplomacia poderia congratular-se por ter recolocado a tampa sobre aquilo que durante três anos fervia. Pio XI não considerou que a tampa resolvesse o problema. Esse é o sentido histórico de Acerba Animi, publicada em 29 de setembro de 1932. A segunda grande encíclica mexicana de seu pontificado não repete a primeira. Cinco anos mais tarde, em 28 de março de 1937, Pio XI publicou Firmissimam Constantiam, terceira encíclica dirigida especificamente à situação mexicana. A preocupação agora incluía a formação de leigos capazes de atuar na sociedade sem transformar a Igreja em partido. Pio XI não negava que o México tivesse problemas sociais gravíssimos, nem fazia da estrutura econômica anterior à Revolução modelo de ordem cristã. Negava outra coisa: que fosse necessário descristianizar o povo para servi-lo. A suposição de que o camponês somente seria emancipado depois que alguém o libertasse de sua fé encerrava aquela forma de paternalismo em que o libertador, curiosamente, necessita primeiro retirar do libertado o direito de escolher aquilo em que continuará acreditando.
Pio XI morreu em fevereiro de 1939, quando a crise mexicana ainda esperava por uma solução jurídica duradoura, alcançada somente muito tempo depois. Ao longo de seu pontificado, porém, tomou forma uma interpretação bastante clara do conflito. Roma recusou a leitura da Guerra Cristera como simples epopeia militar e reconheceu a esfera legítima do poder civil, inclusive diante das mudanças sociais promovidas pelo novo regime. O limite surgia em outro ponto. Nenhuma reforma, por mais ambiciosos que fossem seus propósitos, podia exigir do homem a renúncia à consciência nem transformar a fé em matéria sujeita ao arbítrio político. É também por isso que o episódio mexicano conserva interesse para além da violência daqueles anos.
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Um emocionante retrato do conflito ocorrido entre 1926 e 1929, quando os católicos do México se rebelaram contra as perseguições do governo do presidente Calles.
Veja com os próprios olhos a coragem de um povo que escolheu a fé diante da tirania.
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