A história dos registros
Por Matheus Bazzo
|
20.ago.2026
Midle Dot

Nossa percepção do mundo é muitas vezes determinada por eventos históricos que nos escapam totalmente. Há um desenvolvimento tecnológico em particular que nos determina em profundidade e que escapa quase por completo à nossa percepção. Trata-se da história dos registros. À primeira vista o tema parece não ter relação com nada que realmente importe, mas poucas coisas explicam tão bem o modo como vivemos quanto a história daquilo que a humanidade foi capaz de registrar sobre si mesma.

O primeiro grande marco na história dos registros é o surgimento da prensa de Gutenberg. No final da Idade Média, com o surgimento dessa nova tecnologia, torna-se possível multiplicar a produção de livros, bem como o registro escrito de tudo o que era passível de ser registrado por escrito. Até então, absolutamente todo registro escrito era feito à mão. Cada cópia era um ato artesanal, lento, caro, sujeito ao erro e à perda. A partir da prensa, começam a se multiplicar os registros verificáveis de livros, histórias, tratados, documentos, etc. O processo de uso da prensa ainda era, para nossos padrões atuais, rudimentar e lento, mas ainda assim incomparavelmente mais veloz do que o registro manual.

Multiplicam-se, portanto, os documentos que validam os acontecimentos: os tratados, as guerras, as ideias, os acordos, os certificados. Os momentos passam a ser fixados em algum lugar passível de verificação. Saem da memória e da transmissão oral e passam a estar registrados em um lugar.

A partir do momento em que os registros se multiplicam, surge então o cultivo dos registros. Surge, então, uma nova cultura em torno dessa nova tecnologia. Um modo de viver no qual existe a consciência de que os acontecimentos estão sendo registrados.

A experiência que o homem tem do mundo e dos fatos entra em uma nova fase. Pense na estrutura social de um pequeno ducado, de um vilarejo ou de um reino da Idade Média. O Império Romano já havia caído fazia muito tempo e aquela instituição romana, que representava valores antigos e que dispunha de algum tipo de capacidade de registro da história e dos acontecimentos, simplesmente deixara de existir. O que se segue é a fragmentação em pequenos reinos, que só muito depois voltariam a se centralizar em alguma medida. É uma experiência de vida na qual tudo se descentraliza.

Nesse mundo, não existia propriamente uma consciência histórica. Não havia uma consciência muito clara do que estava acontecendo em volta naquele mesmo momento: quais guerras estavam sendo travadas, que notícias vinham dos outros reinos, o que se decidia a duzentos quilômetros dali. E não havia tampouco um registro claro do passado longínquo, da origem daquele lugar, de como ele veio a ser o que é. Tudo isso só se transmitia oralmente. Contavam-se histórias a respeito daquele lugar, e você as absorvia, acreditava nelas, e sua consciência e sua imaginação eram formadas por elas.

Havia, é claro, a exceção dentro da instituição da Igreja Católica e, principalmente, dentro dos mosteiros, onde existia acesso a uma literatura, um certo acesso à documentação, e ali sim era possível ter uma consciência histórica mais ampla. Mas era um acesso com grande restrição, de modo que na cultura da época não havia consciência histórica nem do presente nem do passado. Havia a intermediação da Igreja e havia relatos, mas não havia esse peso histórico que experimentamos hoje. O passado não pesava sobre aquelas pessoas.

Porém, essa ausência de densidade histórica não era motivo para que a sociedade medieval tivesse uma atividade cultural e intelectual irrelevante. Justamente por não haver essa consciência histórica, era como se as pessoas vivessem, para usar o título do documentário de João Moreira Salles, no intenso agora.

Sem o peso de uma história em curso, vivia-se o momento com muito mais intensidade. É por isso que um livro como O Outono da Idade Média, que trata do período final daquela era, produz um efeito tão desconcertante em quem o lê pela primeira vez. Temos a impressão de que a Idade Média foi um período monótono, em que nada acontecia. Mas a obra de Huizinga deixa claro o contrário: era uma época de intensidade extrema. As pessoas viviam de maneira extraordinariamente intensa.

E viviam assim, entre outras razões, porque não carregavam um certo cansaço histórico. Não havia o peso da suspeita de que se está participando de um momento histórico em decadência, ou de um momento histórico que está terminando. Esse horizonte de consciência simplesmente não estava presente na vida das pessoas.

Depois da prensa, as tecnologias e a cultura em torno dos registros se intensificaram. Logo em seguida surgem os jornais, surge a imprensa propriamente dita, e com ela a consciência dos acontecimentos locais, dos fatos históricos das regiões, dos países. Chega à Revolução Industrial, quando se expande enormemente, e daí para as telecomunicações, o rádio, a televisão. Cada nova tecnologia vai intensificando esse processo.

Hoje vivemos o clímax de tudo isso, que é o registro primordial das coisas no agora. Uma condição em que já não se vive o agora, mas se vive o agora a partir do registro: as pessoas vão fazer alguma coisa e primeiro tiram uma foto. Antes de comer, fotografam o prato. Estão num evento, num show, numa cerimônia, num momento em família, e primeiro há o registro; depois há a experiência. Vivemos intermediados pelo registro. Com frequência, o registro antecede o próprio momento que ele deveria registrar, o que é quase uma inversão da ordem natural da experiência.

Na cultura da internet e das redes sociais, é ainda possível ir além. Há, por exemplo, o fenômeno dos streamers, como iShowSpeed e Kai Cenat, sujeitos que transmitem sua vida ao vivo o tempo inteiro. Ou seja, já existe a possibilidade concreta de você criar o seu próprio reality show e passar a habitar dentro de um registro. Não se trata mais de um registro do momento; trata-se de viver dentro do registro em tempo integral. É a condição em que alguns criadores de conteúdo acabam caindo. O limite lógico de todo esse processo.

Nesse contexto de radicalidade nos registros, o peso da consciência histórica torna-se algo alienante e algo que efetivamente impede uma experiência de vida feliz e mais natural. É claro que a ausência total de consciência dos momentos históricos e daquilo que está acontecendo no mundo também não é algo bom. É muito importante que o homem se situe na história e nos acontecimentos. Não se trata de propor a ignorância como virtude. Mas viver sob o peso e a opressão de uma história que está sendo registrada o tempo inteiro também não é bom. E é essa cultura que vivemos o tempo todo, quase sem notar.

Existe, portanto, um processo histórico que nos acompanha. Os registros vão se intensificando, vamos habitando cada vez mais esse universo em que tudo é registrado, até chegarmos ao ponto em que estamos: um ponto em que já se nota um certo cansaço. Como se tudo já tivesse sido feito. Como se tudo já tivesse sido registrado. Como se não houvesse mais capacidade de criar. A força criativa vai cedendo, vai enfraquecendo, e a própria inventividade do homem vai diminuindo.

Existe uma argumentação atual que defende que a inventividade das novas tecnologias está, na verdade, em declínio. Temos a impressão de que as tecnologias estão avançando vertiginosamente, mas há trabalhos sérios mostrando que o grau dos saltos tecnológicos vem diminuindo. Peter Thiel resumiu bem essa desconfiança ao dizer em uma entrevista recente que esperávamos um futuro com carros voadores e recebemos em troca uma plataforma com cento e quarenta caracteres para escrever. E um dos motivos que Thiel aponta para essa frustração é precisamente a nossa incapacidade de inventar. Incapacidade que, por sua vez, deriva desse sentimento de fechamento histórico. Existe um peso, um cansaço que nos impede de extrapolar a própria experiência e conceber uma coisa nova, uma coisa diferente. Quem vive dentro do registro está sempre olhando para trás, mesmo quando o registro é de agora.

Não existe solução para um processo histórico civilizacional dessa magnitude. Porém, um primeiro passo é tomar consciência do problema: estamos vivendo o momento do hiper-registro. Conhecer a origem de um problema já é começar a resolvê-lo. Não é possível retornar a um estado anterior. As tecnologias não vão deixar de existir, os celulares não vão sumir, o passado não vai voltar.

O que nos resta, então, é da ordem do paliativo e do pessoal. Curiosamente, os primeiros padres da Igreja, que viveram justamente o período da queda do Império Romano (ou seja, o momento exato em que se desfazia a instituição que sustentava a memória e o registro do mundo antigo), oferecem um modo de ver e pensar que pode ajudar em nossa condição.

Na patrística, escreveu-se muito sobre a aquisição das virtudes e sobre como se livrar dos vícios. E em alguns tratados sobre a virtude aparece um princípio que me parece fundamental: muitas vezes, para combater um vício, é preciso concentrar-se na aquisição de pelo menos uma virtude. Porque as virtudes florescem juntas. No momento em que existe um esforço real pela aquisição de uma delas, as outras acabam vindo de arrasto, vêm junto. Quando nos concentramos com afinco na melhoria de um único aspecto da vida, outros aspectos florescem por acréscimo.

Aplicado ao nosso caso, esse princípio se traduz na seguinte pergunta: se estamos vivendo o momento do registro contínuo e absoluto, qual é a situação que podemos viver fora desse quadro e que, além de nos tirar dele, nos conecta com algo que está para além do tempo e para além dos registros? Que prática podemos colocar dentro da nossa vida que nos afaste da necessidade de registro permanente e nos conecte com algo transcendente que não pode ser registrado?

A missa católica é exatamente esse momento. Ela tem um caráter responsorial: exige participação ativa, exige que você responda às orações, que esteja presente com o corpo e com a voz, e não apenas assistindo. E a missa, através do sacramento, nos conecta com a transcendência, com algo que está para além do tempo. Ela nos lança para fora do registro histórico.

Por isso mesmo, uma missa deveria preferencialmente ser celebrada sem ênfase na historicidade. Temos um problema sério com isso no Brasil, e a teologia da libertação carrega boa parte da responsabilidade: existe um assento histórico excessivo dentro da celebração. A missa acaba se tornando o lugar onde se fala da história, onde se fala demais do tempo e do momento que estamos vivendo, inclusive do ponto de vista político. Ora, a missa deveria fazer exatamente o oposto. Deveria nos afastar dessa conexão tão intensa com o tempo e com a política, e nos colocar num plano mais transcendente. Uma liturgia que devolve o fiel ao noticiário está devolvendo-o justamente àquilo que ele precisava transcender por pelo menos uma hora.

Se há algo que podemos fazer para minimizar os efeitos desse vício, é nos conectarmos com o transcendente pelo rito. Sem apego a celulares e sem a compulsão de documentar, viver a santa missa é um bom remédio contra o cansaço do registro.

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Nossa percepção do mundo é muitas vezes determinada por eventos históricos que nos escapam totalmente. Há um desenvolvimento tecnológico em particular que nos determina em profundidade e que escapa quase por completo à nossa percepção. Trata-se da história dos registros. À primeira vista o tema parece não ter relação com nada que realmente importe, mas poucas coisas explicam tão bem o modo como vivemos quanto a história daquilo que a humanidade foi capaz de registrar sobre si mesma.

O primeiro grande marco na história dos registros é o surgimento da prensa de Gutenberg. No final da Idade Média, com o surgimento dessa nova tecnologia, torna-se possível multiplicar a produção de livros, bem como o registro escrito de tudo o que era passível de ser registrado por escrito. Até então, absolutamente todo registro escrito era feito à mão. Cada cópia era um ato artesanal, lento, caro, sujeito ao erro e à perda. A partir da prensa, começam a se multiplicar os registros verificáveis de livros, histórias, tratados, documentos, etc. O processo de uso da prensa ainda era, para nossos padrões atuais, rudimentar e lento, mas ainda assim incomparavelmente mais veloz do que o registro manual.

Multiplicam-se, portanto, os documentos que validam os acontecimentos: os tratados, as guerras, as ideias, os acordos, os certificados. Os momentos passam a ser fixados em algum lugar passível de verificação. Saem da memória e da transmissão oral e passam a estar registrados em um lugar.

A partir do momento em que os registros se multiplicam, surge então o cultivo dos registros. Surge, então, uma nova cultura em torno dessa nova tecnologia. Um modo de viver no qual existe a consciência de que os acontecimentos estão sendo registrados.

A experiência que o homem tem do mundo e dos fatos entra em uma nova fase. Pense na estrutura social de um pequeno ducado, de um vilarejo ou de um reino da Idade Média. O Império Romano já havia caído fazia muito tempo e aquela instituição romana, que representava valores antigos e que dispunha de algum tipo de capacidade de registro da história e dos acontecimentos, simplesmente deixara de existir. O que se segue é a fragmentação em pequenos reinos, que só muito depois voltariam a se centralizar em alguma medida. É uma experiência de vida na qual tudo se descentraliza.

Nesse mundo, não existia propriamente uma consciência histórica. Não havia uma consciência muito clara do que estava acontecendo em volta naquele mesmo momento: quais guerras estavam sendo travadas, que notícias vinham dos outros reinos, o que se decidia a duzentos quilômetros dali. E não havia tampouco um registro claro do passado longínquo, da origem daquele lugar, de como ele veio a ser o que é. Tudo isso só se transmitia oralmente. Contavam-se histórias a respeito daquele lugar, e você as absorvia, acreditava nelas, e sua consciência e sua imaginação eram formadas por elas.

Havia, é claro, a exceção dentro da instituição da Igreja Católica e, principalmente, dentro dos mosteiros, onde existia acesso a uma literatura, um certo acesso à documentação, e ali sim era possível ter uma consciência histórica mais ampla. Mas era um acesso com grande restrição, de modo que na cultura da época não havia consciência histórica nem do presente nem do passado. Havia a intermediação da Igreja e havia relatos, mas não havia esse peso histórico que experimentamos hoje. O passado não pesava sobre aquelas pessoas.

Porém, essa ausência de densidade histórica não era motivo para que a sociedade medieval tivesse uma atividade cultural e intelectual irrelevante. Justamente por não haver essa consciência histórica, era como se as pessoas vivessem, para usar o título do documentário de João Moreira Salles, no intenso agora.

Sem o peso de uma história em curso, vivia-se o momento com muito mais intensidade. É por isso que um livro como O Outono da Idade Média, que trata do período final daquela era, produz um efeito tão desconcertante em quem o lê pela primeira vez. Temos a impressão de que a Idade Média foi um período monótono, em que nada acontecia. Mas a obra de Huizinga deixa claro o contrário: era uma época de intensidade extrema. As pessoas viviam de maneira extraordinariamente intensa.

E viviam assim, entre outras razões, porque não carregavam um certo cansaço histórico. Não havia o peso da suspeita de que se está participando de um momento histórico em decadência, ou de um momento histórico que está terminando. Esse horizonte de consciência simplesmente não estava presente na vida das pessoas.

Depois da prensa, as tecnologias e a cultura em torno dos registros se intensificaram. Logo em seguida surgem os jornais, surge a imprensa propriamente dita, e com ela a consciência dos acontecimentos locais, dos fatos históricos das regiões, dos países. Chega à Revolução Industrial, quando se expande enormemente, e daí para as telecomunicações, o rádio, a televisão. Cada nova tecnologia vai intensificando esse processo.

Hoje vivemos o clímax de tudo isso, que é o registro primordial das coisas no agora. Uma condição em que já não se vive o agora, mas se vive o agora a partir do registro: as pessoas vão fazer alguma coisa e primeiro tiram uma foto. Antes de comer, fotografam o prato. Estão num evento, num show, numa cerimônia, num momento em família, e primeiro há o registro; depois há a experiência. Vivemos intermediados pelo registro. Com frequência, o registro antecede o próprio momento que ele deveria registrar, o que é quase uma inversão da ordem natural da experiência.

Na cultura da internet e das redes sociais, é ainda possível ir além. Há, por exemplo, o fenômeno dos streamers, como iShowSpeed e Kai Cenat, sujeitos que transmitem sua vida ao vivo o tempo inteiro. Ou seja, já existe a possibilidade concreta de você criar o seu próprio reality show e passar a habitar dentro de um registro. Não se trata mais de um registro do momento; trata-se de viver dentro do registro em tempo integral. É a condição em que alguns criadores de conteúdo acabam caindo. O limite lógico de todo esse processo.

Nesse contexto de radicalidade nos registros, o peso da consciência histórica torna-se algo alienante e algo que efetivamente impede uma experiência de vida feliz e mais natural. É claro que a ausência total de consciência dos momentos históricos e daquilo que está acontecendo no mundo também não é algo bom. É muito importante que o homem se situe na história e nos acontecimentos. Não se trata de propor a ignorância como virtude. Mas viver sob o peso e a opressão de uma história que está sendo registrada o tempo inteiro também não é bom. E é essa cultura que vivemos o tempo todo, quase sem notar.

Existe, portanto, um processo histórico que nos acompanha. Os registros vão se intensificando, vamos habitando cada vez mais esse universo em que tudo é registrado, até chegarmos ao ponto em que estamos: um ponto em que já se nota um certo cansaço. Como se tudo já tivesse sido feito. Como se tudo já tivesse sido registrado. Como se não houvesse mais capacidade de criar. A força criativa vai cedendo, vai enfraquecendo, e a própria inventividade do homem vai diminuindo.

Existe uma argumentação atual que defende que a inventividade das novas tecnologias está, na verdade, em declínio. Temos a impressão de que as tecnologias estão avançando vertiginosamente, mas há trabalhos sérios mostrando que o grau dos saltos tecnológicos vem diminuindo. Peter Thiel resumiu bem essa desconfiança ao dizer em uma entrevista recente que esperávamos um futuro com carros voadores e recebemos em troca uma plataforma com cento e quarenta caracteres para escrever. E um dos motivos que Thiel aponta para essa frustração é precisamente a nossa incapacidade de inventar. Incapacidade que, por sua vez, deriva desse sentimento de fechamento histórico. Existe um peso, um cansaço que nos impede de extrapolar a própria experiência e conceber uma coisa nova, uma coisa diferente. Quem vive dentro do registro está sempre olhando para trás, mesmo quando o registro é de agora.

Não existe solução para um processo histórico civilizacional dessa magnitude. Porém, um primeiro passo é tomar consciência do problema: estamos vivendo o momento do hiper-registro. Conhecer a origem de um problema já é começar a resolvê-lo. Não é possível retornar a um estado anterior. As tecnologias não vão deixar de existir, os celulares não vão sumir, o passado não vai voltar.

O que nos resta, então, é da ordem do paliativo e do pessoal. Curiosamente, os primeiros padres da Igreja, que viveram justamente o período da queda do Império Romano (ou seja, o momento exato em que se desfazia a instituição que sustentava a memória e o registro do mundo antigo), oferecem um modo de ver e pensar que pode ajudar em nossa condição.

Na patrística, escreveu-se muito sobre a aquisição das virtudes e sobre como se livrar dos vícios. E em alguns tratados sobre a virtude aparece um princípio que me parece fundamental: muitas vezes, para combater um vício, é preciso concentrar-se na aquisição de pelo menos uma virtude. Porque as virtudes florescem juntas. No momento em que existe um esforço real pela aquisição de uma delas, as outras acabam vindo de arrasto, vêm junto. Quando nos concentramos com afinco na melhoria de um único aspecto da vida, outros aspectos florescem por acréscimo.

Aplicado ao nosso caso, esse princípio se traduz na seguinte pergunta: se estamos vivendo o momento do registro contínuo e absoluto, qual é a situação que podemos viver fora desse quadro e que, além de nos tirar dele, nos conecta com algo que está para além do tempo e para além dos registros? Que prática podemos colocar dentro da nossa vida que nos afaste da necessidade de registro permanente e nos conecte com algo transcendente que não pode ser registrado?

A missa católica é exatamente esse momento. Ela tem um caráter responsorial: exige participação ativa, exige que você responda às orações, que esteja presente com o corpo e com a voz, e não apenas assistindo. E a missa, através do sacramento, nos conecta com a transcendência, com algo que está para além do tempo. Ela nos lança para fora do registro histórico.

Por isso mesmo, uma missa deveria preferencialmente ser celebrada sem ênfase na historicidade. Temos um problema sério com isso no Brasil, e a teologia da libertação carrega boa parte da responsabilidade: existe um assento histórico excessivo dentro da celebração. A missa acaba se tornando o lugar onde se fala da história, onde se fala demais do tempo e do momento que estamos vivendo, inclusive do ponto de vista político. Ora, a missa deveria fazer exatamente o oposto. Deveria nos afastar dessa conexão tão intensa com o tempo e com a política, e nos colocar num plano mais transcendente. Uma liturgia que devolve o fiel ao noticiário está devolvendo-o justamente àquilo que ele precisava transcender por pelo menos uma hora.

Se há algo que podemos fazer para minimizar os efeitos desse vício, é nos conectarmos com o transcendente pelo rito. Sem apego a celulares e sem a compulsão de documentar, viver a santa missa é um bom remédio contra o cansaço do registro.

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