De uns tempos para cá, o meio católico passou a ser assombrado por um fantasma hamletiano. Sim, refiro-me ao fantasma do “novo feminismo católico”, um espectro que volta e meia surge em noites enluaradas e desaparece sem prestar maiores explicações, sempre antes de o galo cantar.
É verdade que, desde que São João Paulo II apresentou o novo feminismo católico ao mundo, a proposta passou a suscitar fortes emoções por onde quer que passe.1 Foi assim na Espanha, na Alemanha, na Itália… sua chegada ao mainstream da direita brasileira, portanto, não poderia se dar de forma diferente, principalmente em um ambiente dominado, por décadas, pelo pensamento antifeminista.
Inúmeras opiniões começaram a se espalhar pelas redes sociais (lugar tão conhecido pela disseminação de conversas produtivas). Os internautas passaram a se perguntar, ad nauseam, se “dá para ser feminista e católica”, e as respostas, na forma de comentários, viraram um campo minado recheado de manifestações raivosas de ambos espectros políticos.
No entanto, os professores-influenciadores envolvidos no causo geralmente não são capazes de explicar muito bem o que seria esse tão comentado feminismo — ou ainda, em muitos casos, esse catolicismo —, o que acaba por transformar tudo em uma conversa na qual dois bêbados discutem seus próprios conceitos sem ouvir o outro.
A discussão empaca, pois, nos rótulos.
Então começo, por ora, por outra proposta, longe dos nomes controvertidos. Uma proposta que não pode ser encontrada no repertório de quem hoje se anima (ou se ojeriza) com o “novo feminismo católico”, feita por um Papa severo, pré-conciliar, e que a memória popular guarda como tradicionalíssimo.
Pio XII, em 1957, dirigindo-se às Organizações Femininas Católicas, chamou o fantasma do qual fofocamos de “o problema da promoção da mulher”2. Segundo ele, muitos movimentos políticos, de naturezas muito distintas (protestantes, neutros, marxistas), estampavam a “defesa da mulher” como uma de suas principais pautas; mas seria possível ou desejável, para uma mulher católica, fazer o mesmo?
Alguns anos antes, em 1932, Santa Edith Stein já havia respondido à pergunta de forma positiva. Ela afirmava que não só não havia incompatibilidade entre os movimentos católicos femininos e a ortodoxia como, em verdade, eles possuíam muito em comum com alguns movimentos não católicos e lhes eram devedores por um valioso trabalho preparatório como a abertura da educação, do emprego, dos campos jurídico, político e social.3
Mas, tudo bem, sabemos que Stein é um nome que muitos afastam como “feminista demais”. Então, para manter essa conversa no território seguro da tradição tradicionalíssima, qual foi a resposta de Pio XII?
Ora, a mesma!
Ele afirmava que as mulheres católicas podiam e deviam fazer seu próprio programa para promoção da mulher, por se tratar de uma ação política que “desperta uma imensa esperança na multidão incontável de vossas irmãs ainda submetidas a costumes degradantes, ou vítimas da miséria, da ignorância de seu meio, da falta total de meios de cultura e de formação”.4
Quando fala-se em defesa da mulher, a maioria logo pensa em questões razoáveis, como o direito de voto, de estudo, de herança, de mandar ou não em casa, e tudo mais que faz parte do pacote da “emancipação feminina”. Outros, por outro lado, pensam em pautas abertamente destrutivas, como a da pílula anticoncepcional, do aborto, da degradação sexual e da destruição das famílias, que fazem parte do pacote “libertação feminina”. É possível passar horas discutindo a justiça de cada uma das exigências, que variam exponencialmente no tempo, no lugar e na forma.
Pio XII, no entanto, estava ciente de que essas são somente roupas políticas. Ele identificou corretamente que o fantasma que vaga por aí fazendo discursos pomposos a respeito da “condição feminina” na verdade busca, em último grau, o alívio do sofrimento feminino — uma ferida cuja marca principal é a maternidade e, por consequência, o relacionamento da mulher com o homem.
E, afinal, encontrar meios para redenção do sofrimento humano, inclusive o do sexo feminino, é atitude mui católica.
Há, no entanto, uma condição: essa promoção deve se dar dentro da ordem certa. A promoção da mulher, o Papa explica, deve acontecer sob a luz da Redenção e da vocação natural feminina. Ou seja, dentro daquela conhecida união “de Cristo e da mulher, que encontrou seu maior esplendor e seu perfeito cumprimento na Virgem Maria”.5
Observe que Pio XII não condiciona o conteúdo, mas o lugar.
As mulheres devem abraçar a promoção da mulher, para usar suas palavras, sem restrições. Mas a ação feminina deve ocorrer dentro de um lugar protegido e iluminado por uma ordem maior. Uma luz capaz de evitar a assimilação de propostas que acabam, muitas vezes, por agravar a miséria que se pretendia aliviar.

Agora, a surpresa: essa é a mesma ordem referenciada por São João Paulo II naquela série de documentos magistrais a respeito da condição feminina, dentre os quais está a encíclica Evangelium Vitae, de 1995.¹ A distância de quase quarenta anos não impediu a continuidade da questão.
Como, nesse ponto, devem ser muitos os céticos, vale a pena ver como as duas descrições se sobrepõem.
Pio XII falava de irmãs submetidas a costumes degradantes e vítimas da miséria, João Paulo II descreve uma cultura materialista que empobrece as relações humanas e cujas primeiras vítimas são, justamente, a mulher, a criança, o enfermo e o idoso. Pio XII via a exposição da mulher à ignorância e ao desamparo, João Paulo II vê como a sexualidade foi despersonalizada, instrumentalizada, e como o corpo feminino foi transformado em um produto para consumo rápido. ³
Nenhum dos dois, contudo, responde a essa ferida pedindo à mulher que se torne outra coisa além de uma mulher.
É por isso que, no mesmo parágrafo em que São João Paulo II convoca as mulheres à promoção de sua causa, também alerta para o perigo dos modelos “masculinizados”:
Nessa viragem cultural a favor da vida, as mulheres têm um espaço de pensamento e ação singular e talvez determinante: compete a elas fazerem-se promotoras de um « novo feminismo » que, sem cair na tentação de seguir modelos « masculinizados », saiba reconhecer e exprimir o verdadeiro gênio feminino em todas as manifestações da convivência civil, trabalhando pela superação de toda a forma de discriminação, violência e exploração.6
Vale dizer ainda que o Santo Papa jamais abandonou a preocupação com a ordem na qual a ação feminina deve se dar. Nos anos seguintes, continuou denunciando as graves aberrações derivadas “do egoísmo pessoal e da recusa de amar, outras de uma mentalidade que atribui muita importância ao direito de cada indivíduo, que enfraquece o respeito pelos direitos do próximo, e em particular os do nascituro indefeso, que com frequência é privado de qualquer tutela legal”.7
Boa sorte colocando isso em um vídeo de três minutos.
Alguns devem ter notado que, assim como no dilema de Hamlet, é questão menor saber se o fantasma do novo feminismo católico é ou não aquilo que se espera que seja. Mais importante é saber que ele aponta para algo humano e universal: como curar as feridas deixadas pela vida e como fazê-lo corretamente — isto é, de uma forma que não envolva vingança.
De uns tempos para cá, o meio católico passou a ser assombrado por um fantasma hamletiano. Sim, refiro-me ao fantasma do “novo feminismo católico”, um espectro que volta e meia surge em noites enluaradas e desaparece sem prestar maiores explicações, sempre antes de o galo cantar.
É verdade que, desde que São João Paulo II apresentou o novo feminismo católico ao mundo, a proposta passou a suscitar fortes emoções por onde quer que passe.1 Foi assim na Espanha, na Alemanha, na Itália… sua chegada ao mainstream da direita brasileira, portanto, não poderia se dar de forma diferente, principalmente em um ambiente dominado, por décadas, pelo pensamento antifeminista.
Inúmeras opiniões começaram a se espalhar pelas redes sociais (lugar tão conhecido pela disseminação de conversas produtivas). Os internautas passaram a se perguntar, ad nauseam, se “dá para ser feminista e católica”, e as respostas, na forma de comentários, viraram um campo minado recheado de manifestações raivosas de ambos espectros políticos.
No entanto, os professores-influenciadores envolvidos no causo geralmente não são capazes de explicar muito bem o que seria esse tão comentado feminismo — ou ainda, em muitos casos, esse catolicismo —, o que acaba por transformar tudo em uma conversa na qual dois bêbados discutem seus próprios conceitos sem ouvir o outro.
A discussão empaca, pois, nos rótulos.
Então começo, por ora, por outra proposta, longe dos nomes controvertidos. Uma proposta que não pode ser encontrada no repertório de quem hoje se anima (ou se ojeriza) com o “novo feminismo católico”, feita por um Papa severo, pré-conciliar, e que a memória popular guarda como tradicionalíssimo.
Pio XII, em 1957, dirigindo-se às Organizações Femininas Católicas, chamou o fantasma do qual fofocamos de “o problema da promoção da mulher”2. Segundo ele, muitos movimentos políticos, de naturezas muito distintas (protestantes, neutros, marxistas), estampavam a “defesa da mulher” como uma de suas principais pautas; mas seria possível ou desejável, para uma mulher católica, fazer o mesmo?
Alguns anos antes, em 1932, Santa Edith Stein já havia respondido à pergunta de forma positiva. Ela afirmava que não só não havia incompatibilidade entre os movimentos católicos femininos e a ortodoxia como, em verdade, eles possuíam muito em comum com alguns movimentos não católicos e lhes eram devedores por um valioso trabalho preparatório como a abertura da educação, do emprego, dos campos jurídico, político e social.3
Mas, tudo bem, sabemos que Stein é um nome que muitos afastam como “feminista demais”. Então, para manter essa conversa no território seguro da tradição tradicionalíssima, qual foi a resposta de Pio XII?
Ora, a mesma!
Ele afirmava que as mulheres católicas podiam e deviam fazer seu próprio programa para promoção da mulher, por se tratar de uma ação política que “desperta uma imensa esperança na multidão incontável de vossas irmãs ainda submetidas a costumes degradantes, ou vítimas da miséria, da ignorância de seu meio, da falta total de meios de cultura e de formação”.4
Quando fala-se em defesa da mulher, a maioria logo pensa em questões razoáveis, como o direito de voto, de estudo, de herança, de mandar ou não em casa, e tudo mais que faz parte do pacote da “emancipação feminina”. Outros, por outro lado, pensam em pautas abertamente destrutivas, como a da pílula anticoncepcional, do aborto, da degradação sexual e da destruição das famílias, que fazem parte do pacote “libertação feminina”. É possível passar horas discutindo a justiça de cada uma das exigências, que variam exponencialmente no tempo, no lugar e na forma.
Pio XII, no entanto, estava ciente de que essas são somente roupas políticas. Ele identificou corretamente que o fantasma que vaga por aí fazendo discursos pomposos a respeito da “condição feminina” na verdade busca, em último grau, o alívio do sofrimento feminino — uma ferida cuja marca principal é a maternidade e, por consequência, o relacionamento da mulher com o homem.
E, afinal, encontrar meios para redenção do sofrimento humano, inclusive o do sexo feminino, é atitude mui católica.
Há, no entanto, uma condição: essa promoção deve se dar dentro da ordem certa. A promoção da mulher, o Papa explica, deve acontecer sob a luz da Redenção e da vocação natural feminina. Ou seja, dentro daquela conhecida união “de Cristo e da mulher, que encontrou seu maior esplendor e seu perfeito cumprimento na Virgem Maria”.5
Observe que Pio XII não condiciona o conteúdo, mas o lugar.
As mulheres devem abraçar a promoção da mulher, para usar suas palavras, sem restrições. Mas a ação feminina deve ocorrer dentro de um lugar protegido e iluminado por uma ordem maior. Uma luz capaz de evitar a assimilação de propostas que acabam, muitas vezes, por agravar a miséria que se pretendia aliviar.

Agora, a surpresa: essa é a mesma ordem referenciada por São João Paulo II naquela série de documentos magistrais a respeito da condição feminina, dentre os quais está a encíclica Evangelium Vitae, de 1995.¹ A distância de quase quarenta anos não impediu a continuidade da questão.
Como, nesse ponto, devem ser muitos os céticos, vale a pena ver como as duas descrições se sobrepõem.
Pio XII falava de irmãs submetidas a costumes degradantes e vítimas da miséria, João Paulo II descreve uma cultura materialista que empobrece as relações humanas e cujas primeiras vítimas são, justamente, a mulher, a criança, o enfermo e o idoso. Pio XII via a exposição da mulher à ignorância e ao desamparo, João Paulo II vê como a sexualidade foi despersonalizada, instrumentalizada, e como o corpo feminino foi transformado em um produto para consumo rápido. ³
Nenhum dos dois, contudo, responde a essa ferida pedindo à mulher que se torne outra coisa além de uma mulher.
É por isso que, no mesmo parágrafo em que São João Paulo II convoca as mulheres à promoção de sua causa, também alerta para o perigo dos modelos “masculinizados”:
Nessa viragem cultural a favor da vida, as mulheres têm um espaço de pensamento e ação singular e talvez determinante: compete a elas fazerem-se promotoras de um « novo feminismo » que, sem cair na tentação de seguir modelos « masculinizados », saiba reconhecer e exprimir o verdadeiro gênio feminino em todas as manifestações da convivência civil, trabalhando pela superação de toda a forma de discriminação, violência e exploração.6
Vale dizer ainda que o Santo Papa jamais abandonou a preocupação com a ordem na qual a ação feminina deve se dar. Nos anos seguintes, continuou denunciando as graves aberrações derivadas “do egoísmo pessoal e da recusa de amar, outras de uma mentalidade que atribui muita importância ao direito de cada indivíduo, que enfraquece o respeito pelos direitos do próximo, e em particular os do nascituro indefeso, que com frequência é privado de qualquer tutela legal”.7
Boa sorte colocando isso em um vídeo de três minutos.
Alguns devem ter notado que, assim como no dilema de Hamlet, é questão menor saber se o fantasma do novo feminismo católico é ou não aquilo que se espera que seja. Mais importante é saber que ele aponta para algo humano e universal: como curar as feridas deixadas pela vida e como fazê-lo corretamente — isto é, de uma forma que não envolva vingança.
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