As Aventuras de Tintim (2011) é um filme que mistura aventura, mistério e comédia. Dirigido por Steven Spielberg, o filme é baseado na série de quadrinhos do artista belga Hergé (nome artístico de Georges Prosper Remi), publicada pela primeira vez em 1929.
Tintim é o nome do personagem central da série: um jovem jornalista belga, cujo faro jornalístico sempre o mete em situações inusitadas e complexas e nas maiores explorações mundo afora. Bondoso, justo e com um grande desejo de entender o que está acontecendo a seu redor, Tintim não consegue não ceder ao seu instinto investigativo — e é isso o que faz dele um bom jornalista. A necessidade de descobrir o que está além da mera superfície das coisas faz com que Tintim se veja implicado, direta ou indiretamente, em grandes conspirações, em planos secretos, em tramas que favorecem figuras escusas, das quais ele consegue escapar graças à sua imensa perspicácia e à sua vasta cultura geral, que lhe permitem juntar as peças dos quebra-cabeças e compreender o todo das situações. Tintim conta ainda com a ajudinha ocasional de seu fiel companheiro, o simpático e esperto cachorrinho Milu, que tanto o livra de enrascadas.

Em As Aventuras de Tintim, o nosso jornalista visita uma feira de decoração e antiguidades e depara com uma miniatura de navio que muito lhe apraz. Imediatamente ao adquiri-la, vê-se abordado por um homem que, não conseguindo convencê-lo a vender-lhe o barco, despede-se com ameaças. Pouco depois, Tintim tem a casa arrombada e posta de pernas para o ar por bandidos que não levam nada além do barco. Ao ir atrás de quem roubou-lhe a peça é que Tintim se vê no meio de uma trama inimaginável de conspirações, armações e caça ao tesouro.
*
O diretor do filme, Steven Spielberg, conta que seu primeiro contato com os quadrinhos de Hergé deu-se no início dos anos 1980 quando, ao ler uma crítica francesa sobre Os Caçadores da Arca Perdida (1981), filme que lançava à época, viu-o comparado a Tintim. Tendo pedido que lhe traduzissem aquela crítica, ficou intrigado com a comparação e, indo atrás de familiarizar-se com o personagem, apaixonou-se pela série. Uma das coisas que mais o impressionaram nos quadrinhos originais foi o quanto eles pareciam cinema: a construção do movimento na página, as ações tão expressivas, as caras e bocas das personagens, as paletas nuançadas de cores, etc. Tudo era muito dinâmico e parecia muito proposital, de acordo com o efeito que o desenhista queria imprimir na história em qualquer dado momento, e cada quadrinho era crucial na narração da história — como se fossem um storyboard, exatamente como os diretores de cinema fazem para planejar e visualizar o seu filme na pré-produção. Foi esse dinamismo e essa expressividade dos quadrinhos de Hergé que Spielberg buscou transpor à tela de cinema.
Em entrevista quando da divulgação de As Aventuras de Tintim, o diretor afirmou que seu intuito era criar um mundo em que os personagens dos quadrinhos de Hergé fossem trazidos à vida real, mas sem os descaracterizar — afinal de contas, os seus rostos são bastante particulares; deixá-los realistas demais poderia representar um abandono total da estética do quadrinho. Para atingir tal objetivo, optou pela animação em vez do live action (isto é, do filme “tradicional”, com atores em suas aparências reais na tela). No entanto, para criar o efeito de “realidade fantasiosa”, digamos assim, a que almejava, quis rodar o filme com atores de verdade usando marcadores de movimento, para então recriar as figuras dos personagens, suas ações e todo o mundo dos quadrinhos digitalmente. Para essa tarefa hercúlea, Spielberg escalou alguém que, à época, acabara de demonstrar grande competência nesse quesito: Peter Jackson, diretor da franquia O Senhor dos Anéis e dono de uma produtora de animação computadorizada. Mesmo tendo sido lançado há mais de uma década — tempo que, não raro, é suficiente para datar qualquer filme de animação —, As Aventuras de Tintim ainda é um excelente exemplo de como produzir uma animação cuja estética seja duradoura — talvez precisamente porque o seu “realismo” não se paute no mundo real, mas sim no mundo como que atemporal de Tintim.
*
— Ninguém toma o meu navio!
— Mas eles já o tomaram!
— Ninguém toma o meu navio duas vezes!
Talvez a figura com um arco de desenvolvimento mais interessante do filme, Capitão Archibald Haddock surge primeiro como um homem solitário: “o último de seu nome”, sem amigos, nem glórias, ele enxerga poucas razões para alegrar-se consigo mesmo. Afundando-se no álcool, o Capitão precisava de alguém que acreditasse nele para lhe infundir novo ânimo — e é exatamente aí que se fundamenta a amizade que vai se construir entre o seu personagem e o do jovem jornalista.

Tendo sido sequestrado e preso num navio rumo a sabe-se-lá-onde, Tintim consegue desatar-se e despistar temporariamente os seus sequestradores. Buscando uma forma de sair da câmara em que fora trancado, o rapaz lança-se à cabine do Capitão Haddock. Após perceberem que ambos foram vitimados pelos mesmos bandidos, os dois passam a contar um com o outro para escapar do navio. (Originalmente, o filme seria o primeiro de uma trilogia e, por isso, precisava de uma “história de origem” da amizade entre esses dois personagens. Ao que tudo indica, as circunstâncias desse primeiro encontro foram baseadas em uma porção de aventuras presentes em diversas das histórias em quadrinhos.)
O que mais chama a atenção na figura do Capitão Haddock não é que ele se apresente inicialmente como um homem que está perdendo a esperança em si mesmo, afundado no vício, mas sim como ele se encontra no final: como um homem que, apesar de todos as suas falhas, redescobriu o seu valor e redimiu-se em relação à sua família, posicionando-se junto aos grandes de seu nome, incluindo o avô — um homem de grande valor, de grande astúcia e de imensa coragem, ao qual o Capitão muito admirava. Um elemento importante no personagem de Tintim é como que o iniciador dessa transformação: a capacidade de Tintim de avaliar as circunstâncias e de deduzir motivações implícitas, que é o que o leva a tantas investigações, é a mesma habilidade que faz com que ele enxergue, de fato, o homem ferido por trás da “casca” que o Capitão criou para proteger-se do mundo (e quiçá de si mesmo). É tratando-o com respeito e dignidade que Tintim faz com que o Capitão, primeiro, admita o mal de seu vício, depois, a sua solidão e, por fim, que aceite que há, sim, a possibilidade de redimir-se, mesmo que o caminho não seja perfeito, e ainda que saiba que continuará não sendo perfeito. Com todas as suas falhas, através da amizade que trava com Tintim e das aventuras que os dois vêem-se obrigados a viver juntos, Capitão Haddock descobre-se um herói, a despeito de si mesmo.
*
As Aventuras de Tintim é daquelas obras que fazem avivar em nós o fascínio infantil pelo mundo — aquele que tínhamos quando crianças e olhávamos para tudo como um grande mistério a ser explorado e desvendado. É um filme leve, divertido e muito empolgante, que não enfatiza falhas de caráter ou más intenções dos personagens, mas que também não finge que elas não existem — exatamente como nos quadrinhos e, o leitor há de concordar, assim como na vida. Sem dúvida, é uma excelente escolha para uma sessão que agradará a toda a família!
Leia também “Dureza e redenção pelos olhos de uma criança: Matilda (1996)“.
As Aventuras de Tintim (2011) é um filme que mistura aventura, mistério e comédia. Dirigido por Steven Spielberg, o filme é baseado na série de quadrinhos do artista belga Hergé (nome artístico de Georges Prosper Remi), publicada pela primeira vez em 1929.
Tintim é o nome do personagem central da série: um jovem jornalista belga, cujo faro jornalístico sempre o mete em situações inusitadas e complexas e nas maiores explorações mundo afora. Bondoso, justo e com um grande desejo de entender o que está acontecendo a seu redor, Tintim não consegue não ceder ao seu instinto investigativo — e é isso o que faz dele um bom jornalista. A necessidade de descobrir o que está além da mera superfície das coisas faz com que Tintim se veja implicado, direta ou indiretamente, em grandes conspirações, em planos secretos, em tramas que favorecem figuras escusas, das quais ele consegue escapar graças à sua imensa perspicácia e à sua vasta cultura geral, que lhe permitem juntar as peças dos quebra-cabeças e compreender o todo das situações. Tintim conta ainda com a ajudinha ocasional de seu fiel companheiro, o simpático e esperto cachorrinho Milu, que tanto o livra de enrascadas.

Em As Aventuras de Tintim, o nosso jornalista visita uma feira de decoração e antiguidades e depara com uma miniatura de navio que muito lhe apraz. Imediatamente ao adquiri-la, vê-se abordado por um homem que, não conseguindo convencê-lo a vender-lhe o barco, despede-se com ameaças. Pouco depois, Tintim tem a casa arrombada e posta de pernas para o ar por bandidos que não levam nada além do barco. Ao ir atrás de quem roubou-lhe a peça é que Tintim se vê no meio de uma trama inimaginável de conspirações, armações e caça ao tesouro.
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O diretor do filme, Steven Spielberg, conta que seu primeiro contato com os quadrinhos de Hergé deu-se no início dos anos 1980 quando, ao ler uma crítica francesa sobre Os Caçadores da Arca Perdida (1981), filme que lançava à época, viu-o comparado a Tintim. Tendo pedido que lhe traduzissem aquela crítica, ficou intrigado com a comparação e, indo atrás de familiarizar-se com o personagem, apaixonou-se pela série. Uma das coisas que mais o impressionaram nos quadrinhos originais foi o quanto eles pareciam cinema: a construção do movimento na página, as ações tão expressivas, as caras e bocas das personagens, as paletas nuançadas de cores, etc. Tudo era muito dinâmico e parecia muito proposital, de acordo com o efeito que o desenhista queria imprimir na história em qualquer dado momento, e cada quadrinho era crucial na narração da história — como se fossem um storyboard, exatamente como os diretores de cinema fazem para planejar e visualizar o seu filme na pré-produção. Foi esse dinamismo e essa expressividade dos quadrinhos de Hergé que Spielberg buscou transpor à tela de cinema.
Em entrevista quando da divulgação de As Aventuras de Tintim, o diretor afirmou que seu intuito era criar um mundo em que os personagens dos quadrinhos de Hergé fossem trazidos à vida real, mas sem os descaracterizar — afinal de contas, os seus rostos são bastante particulares; deixá-los realistas demais poderia representar um abandono total da estética do quadrinho. Para atingir tal objetivo, optou pela animação em vez do live action (isto é, do filme “tradicional”, com atores em suas aparências reais na tela). No entanto, para criar o efeito de “realidade fantasiosa”, digamos assim, a que almejava, quis rodar o filme com atores de verdade usando marcadores de movimento, para então recriar as figuras dos personagens, suas ações e todo o mundo dos quadrinhos digitalmente. Para essa tarefa hercúlea, Spielberg escalou alguém que, à época, acabara de demonstrar grande competência nesse quesito: Peter Jackson, diretor da franquia O Senhor dos Anéis e dono de uma produtora de animação computadorizada. Mesmo tendo sido lançado há mais de uma década — tempo que, não raro, é suficiente para datar qualquer filme de animação —, As Aventuras de Tintim ainda é um excelente exemplo de como produzir uma animação cuja estética seja duradoura — talvez precisamente porque o seu “realismo” não se paute no mundo real, mas sim no mundo como que atemporal de Tintim.
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— Ninguém toma o meu navio!
— Mas eles já o tomaram!
— Ninguém toma o meu navio duas vezes!
Talvez a figura com um arco de desenvolvimento mais interessante do filme, Capitão Archibald Haddock surge primeiro como um homem solitário: “o último de seu nome”, sem amigos, nem glórias, ele enxerga poucas razões para alegrar-se consigo mesmo. Afundando-se no álcool, o Capitão precisava de alguém que acreditasse nele para lhe infundir novo ânimo — e é exatamente aí que se fundamenta a amizade que vai se construir entre o seu personagem e o do jovem jornalista.

Tendo sido sequestrado e preso num navio rumo a sabe-se-lá-onde, Tintim consegue desatar-se e despistar temporariamente os seus sequestradores. Buscando uma forma de sair da câmara em que fora trancado, o rapaz lança-se à cabine do Capitão Haddock. Após perceberem que ambos foram vitimados pelos mesmos bandidos, os dois passam a contar um com o outro para escapar do navio. (Originalmente, o filme seria o primeiro de uma trilogia e, por isso, precisava de uma “história de origem” da amizade entre esses dois personagens. Ao que tudo indica, as circunstâncias desse primeiro encontro foram baseadas em uma porção de aventuras presentes em diversas das histórias em quadrinhos.)
O que mais chama a atenção na figura do Capitão Haddock não é que ele se apresente inicialmente como um homem que está perdendo a esperança em si mesmo, afundado no vício, mas sim como ele se encontra no final: como um homem que, apesar de todos as suas falhas, redescobriu o seu valor e redimiu-se em relação à sua família, posicionando-se junto aos grandes de seu nome, incluindo o avô — um homem de grande valor, de grande astúcia e de imensa coragem, ao qual o Capitão muito admirava. Um elemento importante no personagem de Tintim é como que o iniciador dessa transformação: a capacidade de Tintim de avaliar as circunstâncias e de deduzir motivações implícitas, que é o que o leva a tantas investigações, é a mesma habilidade que faz com que ele enxergue, de fato, o homem ferido por trás da “casca” que o Capitão criou para proteger-se do mundo (e quiçá de si mesmo). É tratando-o com respeito e dignidade que Tintim faz com que o Capitão, primeiro, admita o mal de seu vício, depois, a sua solidão e, por fim, que aceite que há, sim, a possibilidade de redimir-se, mesmo que o caminho não seja perfeito, e ainda que saiba que continuará não sendo perfeito. Com todas as suas falhas, através da amizade que trava com Tintim e das aventuras que os dois vêem-se obrigados a viver juntos, Capitão Haddock descobre-se um herói, a despeito de si mesmo.
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As Aventuras de Tintim é daquelas obras que fazem avivar em nós o fascínio infantil pelo mundo — aquele que tínhamos quando crianças e olhávamos para tudo como um grande mistério a ser explorado e desvendado. É um filme leve, divertido e muito empolgante, que não enfatiza falhas de caráter ou más intenções dos personagens, mas que também não finge que elas não existem — exatamente como nos quadrinhos e, o leitor há de concordar, assim como na vida. Sem dúvida, é uma excelente escolha para uma sessão que agradará a toda a família!
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