O conceito de “defesa da família”, sobretudo em anos eleitorais, frequentemente se converte em slogans que arrancam aplausos em palanques. Até porque é fácil, para não dizer óbvio, intuir que se trata de um tema importante. Todo indivíduo nasce em uma família. Do seu seio, surge não só a vida, mas uma criança, uma mãe, um pai, uma avó, um avô, um neto — cidadãos que, individualmente e em conjunto, constituem as engrenagens de uma sociedade.
Ou seja, o problema não está na reverberação desses discursos. Pelo contrário: é mais do que esperado que eles surjam e que sejam incisivos, pois todo o resto, em maior ou menor medida, parte daí.
A grande questão, no entanto, é quando a “defesa da vida” se converte em jargões vazios — por mais que sejam convincentes —, sem que haja uma proposta real por trás.
Sob a perspectiva cristã, então, a reverberação desses slogans têm um impacto ainda maior. Para os cristãos, mais do que um mero núcleo sociológico ou um arranjo civil, a família carrega, de forma intrínseca, uma dimensão de mistério e desígnio.
Ela é o ambiente originário onde a pessoa é acolhida de forma gratuita; onde ela forja a sua identidade e aprende, na rotina, o significado prático do amor, da doação e da autoridade.
Ou, como diria Chesterton: “Quando entramos numa família, pelo ato de nascermos, entramos realmente num mundo que é incalculável, num mundo que tem suas próprias e estranhas leis, num mundo que poderia passar sem nós, num mundo que não criamos. Em outras palavras, quando entramos numa família, entramos num conto de fadas” (Hereges, p.143).
É justamente para proteger esse terreno tão precioso, raro e individual que surge o Family Talks — uma organização não governamental (ONG) dedicada a influenciar decisões políticas para garantir que todas as famílias recebam o apoio físico, financeiro e emocional de que precisam para lidar com as pressões do mundo.
Para entender melhor como esse trabalho se traduz em impacto real dentro das casas brasileiras, conversamos com Rodolfo Canônico, Co-fundador e Diretor de Relações Governamentais do Family Talks.
Nesta entrevista exclusiva para o nosso blog, exploramos desde os desafios práticos do dia a dia das famílias até as vitórias institucionais recentes, como a ampliação da licença-paternidade, dissecando o que realmente significa colocar a família no centro das decisões do Brasil.
Lumine: Para começarmos, qual é a missão de vocês? O que significa, na prática, essa ideia de colocar a família no centro das decisões do Brasil?
Rodolfo: O Family Talks parte da crença de que a realidade da sociedade é, em grande medida, um reflexo da realidade das famílias. Para promovermos transformações positivas na vida das pessoas, precisamos promover transformações na vida das famílias, porque todo mundo se beneficia dessa melhoria. A nossa missão é garantir que todas as famílias tenham o apoio de que precisam para exercer a sua principal função: cuidar das pessoas.
No entanto, quase nenhuma família brasileira tem condições de fazer isso por conta própria. Hoje, 80% das famílias do Brasil não têm recursos para contratar nenhum tipo de serviço de apoio, mas continuam precisando cuidar de seus membros. É aí que nós entramos: o Family Talks atua influenciando a tomada de decisão na esfera pública para garantir que as famílias recebam esse suporte. Acreditamos que a família é um vetor de transformação social muito importante; quando essa base está fortalecida, protegida e cuidada, toda a sociedade se beneficia disso.
Lumine: Os números do Family Talks são gigantes, com mais de 40 milhões de crianças e adolescentes beneficiados. Mas grandes transformações sempre têm rostos por trás. Existe alguma história de uma família ou criança que resumiu para você o sentido de todo esse trabalho em Brasília?
Rodolfo: Uma das nossas principais linhas de trabalho é impulsionar programas governamentais de capacitação parental em grupo. O que é isso? São programas que visam prevenir comportamentos negligentes ou violentos e são aplicados com uma perspectiva de “prevenção universal”, semelhante a uma campanha de vacinação.
Em um desses trabalhos de prevenção, teve um relato que me marcou bastante: um pai disciplinava o filho apagando cigarros na pele da criança. E, ao longo do acompanhamento, fomos entendendo que ele não fazia isso por pura maldade, mas porque reproduzia a única forma de disciplina violenta e pautada no espancamento que ele mesmo havia aprendido na infância.
Após passar pelos sete a oito encontros estruturados do programa, que duram cerca de duas horas por semana, vimos que houve uma mudança no comportamento desse pai. Ele entendeu que existiam outras formas de educar e parou de queimar o filho com cigarro.
Um outro relato, mais simpático, é o de um menino de 10 a 14 anos que relatou que apanhava de vassoura todos os dias. Depois que a mãe participou do programa, ele ficou superfeliz contando que nunca mais havia levado uma “vassourada”.
E esses são só dois exemplos de como capacitar a família quebra ciclos geracionais de violência que já tinham sido normalizados. Então, a partir desses encontros — que muitas vezes precisam de incentivos palpáveis, como presentes ou jantares, para que as famílias realmente participem — vemos mudanças que parecem pequenas num primeiro momento, mas que interferem diretamente na forma que cada uma das pessoas envolvidas irá lidar com o mundo.
Lumine: Vocês costumam dizer que políticas públicas que ignoram a família tendem a sobrecarregá-la. Na prática, o que acontece com a sociedade quando as leis fingem que a estrutura familiar não existe?
Rodolfo: A primeira coisa que precisamos entender é que a pobreza é uma realidade multidimensional. Muitas vezes associamos a vulnerabilidade apenas à condição financeira, mas há uma dimensão sobre a qual existem cada vez mais estudos: a “pobreza de tempo”. Pense em grandes metrópoles, como São Paulo. Uma pessoa de renda menor, que mora em uma região muito periférica, pode gastar tranquilamente de quatro a cinco horas por dia no transporte público se deslocando até o trabalho. Quem tem uma renda maior acaba “comprando” tempo para a vida em família simplesmente por conseguir morar mais perto. Essa pobreza de mobilidade urbana gera, inevitavelmente, uma grave pobreza de tempo, subtraindo a capacidade de convivência do lar.
Porém, essa falta de tempo não é exclusividade dos mais pobres; ela atinge também as famílias ricas por conta da dinâmica profissional exaustiva. Aqui em Brasília, por exemplo, tornou-se comum ouvirmos relatos de pediatras que se recusam a dar prescrições médicas para crianças ou pré-adolescentes porque eles foram levados à consulta apenas pelo motorista da casa, sem a presença do pai ou da mãe. Ou seja, o tempo é um ativo valiosíssimo e imprescindível. Por isso, uma das nossas frentes é justamente promover políticas de equilíbrio entre o trabalho e a vida familiar, garantindo que as pessoas tenham, concretamente, mais espaço na agenda para estarem juntas.
Além de tentar aumentar esse tempo, nós também trabalhamos para qualificar o pouco tempo que as famílias já têm. Uma ação extremamente simples é o jantar em família. Existe até um projeto da Universidade de Harvard, o Family Dinner Project, focado nisso. Sentar-se à mesa todos os dias não custa absolutamente nada, mas a quantidade de indicadores que isso melhora é assombrosa: reduz a violência intrafamiliar contra a mulher e a criança, diminui a evasão escolar e melhora o desempenho acadêmico. A família que se esforça para jantar junto já tem mais diálogo e uma convivência muito mais saudável.
Tudo isso para dizer que, quando o legislativo finge que a estrutura familiar não existe, todas essas coisas são deixadas de lado. O papel do Estado deve ser também o de incentivar esses bons hábitos, cujos grandes beneficiários são os próprios lares e, em última instância, toda a sociedade.
Lumine: Vocês tiveram vitórias enormes, como a luta para aumentar a licença-paternidade para 20 dias, que passará a valer no ano que vem. Como essa presença muda a dinâmica em casa e a identidade desse pai nos primeiros dias de vida do filho?
Rodolfo: O impacto é gigantesco porque o pai não é uma peça acessória na família. Para o homem, envolver-se no cuidado desde cedo melhora a saúde mental, diminui a agressividade e, estatisticamente, reduz muito a incidência de violência intrafamiliar. Para a criança, um pai presente significa menor probabilidade de envolvimento com crimes, menores taxas de evasão escolar e um melhor desenvolvimento socioeconômico ao longo da vida.
Além disso, há o suporte fundamental à mulher. No Brasil, uma em cada três mulheres desenvolve depressão pós-parto, um índice altíssimo. Ter o parceiro presente nesses primeiros 20 dias — um tempo quatro vezes maior que os cinco dias anteriores — ajuda enormemente a atravessar as dificuldades intrínsecas do puerpério. Essa conexão intensificada logo no nascimento aumenta muito a probabilidade de esse homem se tornar um pai mais presente ao longo de toda a vida da criança — e da criança se tornar, depois, um bom cidadão.
Lumine: Olhando para as eleições, o conceito de “defesa da família” às vezes acaba esvaziado. O que vocês acham importante uma pessoa olhar na hora de votar para não ser enganada com falsas promessas?
Rodolfo: Estar posicionado contra ideias extravagantes ou ideologias hostis à família é importante, mas não é suficiente. O Brasil não está entre os piores lugares do mundo para formar uma família, mas a realidade ainda é muito dura. Nós enfrentamos gargalos diários de pobreza, problemas crônicos de saúde mental infantil e uma enorme falta de apoio logístico para pais e mães. Então, definitivamente, as ideologias não são um dos nossos maiores problemas. É importante lutar contra elas, claro, mas precisamos também nos atentar às outras questões.
Na hora de votar, a pessoa deve usar como gabarito as propostas reais do candidato. Ele defende ações consistentes para apoiar o dia a dia dessas casas? Precisamos lembrar que é o governante quem decide como aplicar trilhões de reais do orçamento. Em vez de gastar dinheiro com coisas que não funcionam, o voto deve ser direcionado àquele candidato que destinará os recursos a políticas públicas concretas e embasadas em evidências para sanar os problemas estruturais das famílias.
Lumine: Conta pra gente quais são os próximos projetos que vocês têm em mente.
Rodolfo: O nosso projeto prioritário, que é de longo prazo, é escalar a capacitação parental. Nós queremos chegar a 1 milhão de famílias atendidas por ano no Brasil, e sabemos que só alcançaremos isso trabalhando junto ao poder público. Paralelo a isso, estamos focando pesadamente na proteção digital. A idade média com que as crianças acessam pornografia caiu assustadoramente, com relatos de acesso aos sete anos. Já conseguimos a aprovação de uma lei que exigirá verificação etária nesses sites.
Agora, a luta é proibir a publicidade de plataformas de prostituição e pornografia em espaços acessíveis ao grande público, como os patrocínios no futebol. O objetivo dessas empresas é normalizar esses serviços, mas acreditamos que eles são nocivos à sociedade e que não podemos tolerar essa exposição para as nossas crianças e adolescentes. Educar as famílias para lidarem com as ameaças do mundo digital e continuar fortalecendo o núcleo familiar com políticas sólidas são as frentes que vão guiar nosso trabalho nos próximos anos.
Quer se aprofundar no assunto? Conheça mais sobre o Family Talks!
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Na hora de votar, você leva em conta quais candidatos têm as melhores propostas para fortalecer as famílias brasileiras?
Para te ajudar a separar as falsas promessas do que realmente importa, o Family Talks preparou um guia fundamental para estas eleições.
O conceito de “defesa da família”, sobretudo em anos eleitorais, frequentemente se converte em slogans que arrancam aplausos em palanques. Até porque é fácil, para não dizer óbvio, intuir que se trata de um tema importante. Todo indivíduo nasce em uma família. Do seu seio, surge não só a vida, mas uma criança, uma mãe, um pai, uma avó, um avô, um neto — cidadãos que, individualmente e em conjunto, constituem as engrenagens de uma sociedade.
Ou seja, o problema não está na reverberação desses discursos. Pelo contrário: é mais do que esperado que eles surjam e que sejam incisivos, pois todo o resto, em maior ou menor medida, parte daí.
A grande questão, no entanto, é quando a “defesa da vida” se converte em jargões vazios — por mais que sejam convincentes —, sem que haja uma proposta real por trás.
Sob a perspectiva cristã, então, a reverberação desses slogans têm um impacto ainda maior. Para os cristãos, mais do que um mero núcleo sociológico ou um arranjo civil, a família carrega, de forma intrínseca, uma dimensão de mistério e desígnio.
Ela é o ambiente originário onde a pessoa é acolhida de forma gratuita; onde ela forja a sua identidade e aprende, na rotina, o significado prático do amor, da doação e da autoridade.
Ou, como diria Chesterton: “Quando entramos numa família, pelo ato de nascermos, entramos realmente num mundo que é incalculável, num mundo que tem suas próprias e estranhas leis, num mundo que poderia passar sem nós, num mundo que não criamos. Em outras palavras, quando entramos numa família, entramos num conto de fadas” (Hereges, p.143).
É justamente para proteger esse terreno tão precioso, raro e individual que surge o Family Talks — uma organização não governamental (ONG) dedicada a influenciar decisões políticas para garantir que todas as famílias recebam o apoio físico, financeiro e emocional de que precisam para lidar com as pressões do mundo.
Para entender melhor como esse trabalho se traduz em impacto real dentro das casas brasileiras, conversamos com Rodolfo Canônico, Co-fundador e Diretor de Relações Governamentais do Family Talks.
Nesta entrevista exclusiva para o nosso blog, exploramos desde os desafios práticos do dia a dia das famílias até as vitórias institucionais recentes, como a ampliação da licença-paternidade, dissecando o que realmente significa colocar a família no centro das decisões do Brasil.
Lumine: Para começarmos, qual é a missão de vocês? O que significa, na prática, essa ideia de colocar a família no centro das decisões do Brasil?
Rodolfo: O Family Talks parte da crença de que a realidade da sociedade é, em grande medida, um reflexo da realidade das famílias. Para promovermos transformações positivas na vida das pessoas, precisamos promover transformações na vida das famílias, porque todo mundo se beneficia dessa melhoria. A nossa missão é garantir que todas as famílias tenham o apoio de que precisam para exercer a sua principal função: cuidar das pessoas.
No entanto, quase nenhuma família brasileira tem condições de fazer isso por conta própria. Hoje, 80% das famílias do Brasil não têm recursos para contratar nenhum tipo de serviço de apoio, mas continuam precisando cuidar de seus membros. É aí que nós entramos: o Family Talks atua influenciando a tomada de decisão na esfera pública para garantir que as famílias recebam esse suporte. Acreditamos que a família é um vetor de transformação social muito importante; quando essa base está fortalecida, protegida e cuidada, toda a sociedade se beneficia disso.
Lumine: Os números do Family Talks são gigantes, com mais de 40 milhões de crianças e adolescentes beneficiados. Mas grandes transformações sempre têm rostos por trás. Existe alguma história de uma família ou criança que resumiu para você o sentido de todo esse trabalho em Brasília?
Rodolfo: Uma das nossas principais linhas de trabalho é impulsionar programas governamentais de capacitação parental em grupo. O que é isso? São programas que visam prevenir comportamentos negligentes ou violentos e são aplicados com uma perspectiva de “prevenção universal”, semelhante a uma campanha de vacinação.
Em um desses trabalhos de prevenção, teve um relato que me marcou bastante: um pai disciplinava o filho apagando cigarros na pele da criança. E, ao longo do acompanhamento, fomos entendendo que ele não fazia isso por pura maldade, mas porque reproduzia a única forma de disciplina violenta e pautada no espancamento que ele mesmo havia aprendido na infância.
Após passar pelos sete a oito encontros estruturados do programa, que duram cerca de duas horas por semana, vimos que houve uma mudança no comportamento desse pai. Ele entendeu que existiam outras formas de educar e parou de queimar o filho com cigarro.
Um outro relato, mais simpático, é o de um menino de 10 a 14 anos que relatou que apanhava de vassoura todos os dias. Depois que a mãe participou do programa, ele ficou superfeliz contando que nunca mais havia levado uma “vassourada”.
E esses são só dois exemplos de como capacitar a família quebra ciclos geracionais de violência que já tinham sido normalizados. Então, a partir desses encontros — que muitas vezes precisam de incentivos palpáveis, como presentes ou jantares, para que as famílias realmente participem — vemos mudanças que parecem pequenas num primeiro momento, mas que interferem diretamente na forma que cada uma das pessoas envolvidas irá lidar com o mundo.
Lumine: Vocês costumam dizer que políticas públicas que ignoram a família tendem a sobrecarregá-la. Na prática, o que acontece com a sociedade quando as leis fingem que a estrutura familiar não existe?
Rodolfo: A primeira coisa que precisamos entender é que a pobreza é uma realidade multidimensional. Muitas vezes associamos a vulnerabilidade apenas à condição financeira, mas há uma dimensão sobre a qual existem cada vez mais estudos: a “pobreza de tempo”. Pense em grandes metrópoles, como São Paulo. Uma pessoa de renda menor, que mora em uma região muito periférica, pode gastar tranquilamente de quatro a cinco horas por dia no transporte público se deslocando até o trabalho. Quem tem uma renda maior acaba “comprando” tempo para a vida em família simplesmente por conseguir morar mais perto. Essa pobreza de mobilidade urbana gera, inevitavelmente, uma grave pobreza de tempo, subtraindo a capacidade de convivência do lar.
Porém, essa falta de tempo não é exclusividade dos mais pobres; ela atinge também as famílias ricas por conta da dinâmica profissional exaustiva. Aqui em Brasília, por exemplo, tornou-se comum ouvirmos relatos de pediatras que se recusam a dar prescrições médicas para crianças ou pré-adolescentes porque eles foram levados à consulta apenas pelo motorista da casa, sem a presença do pai ou da mãe. Ou seja, o tempo é um ativo valiosíssimo e imprescindível. Por isso, uma das nossas frentes é justamente promover políticas de equilíbrio entre o trabalho e a vida familiar, garantindo que as pessoas tenham, concretamente, mais espaço na agenda para estarem juntas.
Além de tentar aumentar esse tempo, nós também trabalhamos para qualificar o pouco tempo que as famílias já têm. Uma ação extremamente simples é o jantar em família. Existe até um projeto da Universidade de Harvard, o Family Dinner Project, focado nisso. Sentar-se à mesa todos os dias não custa absolutamente nada, mas a quantidade de indicadores que isso melhora é assombrosa: reduz a violência intrafamiliar contra a mulher e a criança, diminui a evasão escolar e melhora o desempenho acadêmico. A família que se esforça para jantar junto já tem mais diálogo e uma convivência muito mais saudável.
Tudo isso para dizer que, quando o legislativo finge que a estrutura familiar não existe, todas essas coisas são deixadas de lado. O papel do Estado deve ser também o de incentivar esses bons hábitos, cujos grandes beneficiários são os próprios lares e, em última instância, toda a sociedade.
Lumine: Vocês tiveram vitórias enormes, como a luta para aumentar a licença-paternidade para 20 dias, que passará a valer no ano que vem. Como essa presença muda a dinâmica em casa e a identidade desse pai nos primeiros dias de vida do filho?
Rodolfo: O impacto é gigantesco porque o pai não é uma peça acessória na família. Para o homem, envolver-se no cuidado desde cedo melhora a saúde mental, diminui a agressividade e, estatisticamente, reduz muito a incidência de violência intrafamiliar. Para a criança, um pai presente significa menor probabilidade de envolvimento com crimes, menores taxas de evasão escolar e um melhor desenvolvimento socioeconômico ao longo da vida.
Além disso, há o suporte fundamental à mulher. No Brasil, uma em cada três mulheres desenvolve depressão pós-parto, um índice altíssimo. Ter o parceiro presente nesses primeiros 20 dias — um tempo quatro vezes maior que os cinco dias anteriores — ajuda enormemente a atravessar as dificuldades intrínsecas do puerpério. Essa conexão intensificada logo no nascimento aumenta muito a probabilidade de esse homem se tornar um pai mais presente ao longo de toda a vida da criança — e da criança se tornar, depois, um bom cidadão.
Lumine: Olhando para as eleições, o conceito de “defesa da família” às vezes acaba esvaziado. O que vocês acham importante uma pessoa olhar na hora de votar para não ser enganada com falsas promessas?
Rodolfo: Estar posicionado contra ideias extravagantes ou ideologias hostis à família é importante, mas não é suficiente. O Brasil não está entre os piores lugares do mundo para formar uma família, mas a realidade ainda é muito dura. Nós enfrentamos gargalos diários de pobreza, problemas crônicos de saúde mental infantil e uma enorme falta de apoio logístico para pais e mães. Então, definitivamente, as ideologias não são um dos nossos maiores problemas. É importante lutar contra elas, claro, mas precisamos também nos atentar às outras questões.
Na hora de votar, a pessoa deve usar como gabarito as propostas reais do candidato. Ele defende ações consistentes para apoiar o dia a dia dessas casas? Precisamos lembrar que é o governante quem decide como aplicar trilhões de reais do orçamento. Em vez de gastar dinheiro com coisas que não funcionam, o voto deve ser direcionado àquele candidato que destinará os recursos a políticas públicas concretas e embasadas em evidências para sanar os problemas estruturais das famílias.
Lumine: Conta pra gente quais são os próximos projetos que vocês têm em mente.
Rodolfo: O nosso projeto prioritário, que é de longo prazo, é escalar a capacitação parental. Nós queremos chegar a 1 milhão de famílias atendidas por ano no Brasil, e sabemos que só alcançaremos isso trabalhando junto ao poder público. Paralelo a isso, estamos focando pesadamente na proteção digital. A idade média com que as crianças acessam pornografia caiu assustadoramente, com relatos de acesso aos sete anos. Já conseguimos a aprovação de uma lei que exigirá verificação etária nesses sites.
Agora, a luta é proibir a publicidade de plataformas de prostituição e pornografia em espaços acessíveis ao grande público, como os patrocínios no futebol. O objetivo dessas empresas é normalizar esses serviços, mas acreditamos que eles são nocivos à sociedade e que não podemos tolerar essa exposição para as nossas crianças e adolescentes. Educar as famílias para lidarem com as ameaças do mundo digital e continuar fortalecendo o núcleo familiar com políticas sólidas são as frentes que vão guiar nosso trabalho nos próximos anos.
Quer se aprofundar no assunto? Conheça mais sobre o Family Talks!
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Na hora de votar, você leva em conta quais candidatos têm as melhores propostas para fortalecer as famílias brasileiras?
Para te ajudar a separar as falsas promessas do que realmente importa, o Family Talks preparou um guia fundamental para estas eleições.
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