Dizem as más-línguas que o Brasil é uma república desde 1889.
Pode até ser (e eu não quero comprar briga com ninguém), mas uma República com R maiúsculo, dessas pomposas em que partidos organizados, propaganda, comícios e disputas eleitorais livres compõem o enredo, demoraria um pouco mais para chegar.
Entre idas e vindas, foi apenas em 1945, com a deposição de Getúlio Vargas e o fim do Estado Novo, que o país realizou sua primeira eleição geral no sentido que hoje reconhecemos; e os entusiastas da democracia puderam, enfim, anunciar a festa: haveria candidatos, rádios, panfletos, comícios e, sobretudo… eleitores.
Muitos eleitores.
E, pela primeira vez numa eleição nacional daquele tipo, também eleitoras.
As 1mulheres recém-elevadas ao posto de “eleitorado” sabiam de sua importância e tinham até um candidato favorito: o Brigadeiro Eduardo Gomes, militar, católico notório e, naquele momento, opositor ferrenho do Estado Novo, alguém que para muitos representava a possibilidade de ruptura definitiva com a ditadura que acabava de cair.
A mobilização feminina em favor de Eduardo Gomes, embalada pelo slogan “vote no Brigadeiro, que é bonito e solteiro”, organizou-se em chás, bailes e quermesses, nos quais, reza a lenda, começou a circular o “doce do Brigadeiro” — feito de leite condensado e chocolate —, vendido para arrecadar fundos de campanha.
Bem,2 os doces existiram. E o Brigadeiro era, aparentemente, bonito (e solteiro).
Mas havia algo muito maior acontecendo.
As mulheres “do Brigadeiro” não eram apenas “senhoras apaixonadas por um partidão”, que organizavam bailes e enrolavam docinhos para passar o tempo.
Entre elas havia mães e avós, é verdade, mas também engenheiras, advogadas, médicas e intelectuais. Muitas vinham de redes políticas com décadas de existência — particularmente das antigas organizações sufragistas. Elas fundaram comitês, produziram manifestos, fizeram discursos e participaram da própria estrutura partidária que se formava em torno da recém-criada União Democrática Nacional (UDN).3
Mesmo o doce, que à primeira vista parece a parte frívola da história, diz algo a mais sobre elas: é o fruto de uma habilidade caseira, praticada dentro de uma rede de sociabilidade feminina e convertida em instrumento de financiamento e propaganda política.
Mas essa intensa movimentação de mulheres não era exclusiva da direita. Em torno do Partido Comunista do Brasil (PCB), havia as chamadas Uniões Femininas — associações de mulheres que alcançavam bairros centrais e periféricos e incorporavam à atividade política donas de casa, empregadas domésticas e trabalhadoras. Nelas, a mobilização partia de uma estrutura partidária centralizada e ia buscar a mulher dentro de seu cotidiano doméstico e comunitário.
A primeiríssima eleição do pós-Vargas nos mostra, portanto, duas formas distintas e bem documentadas de expansão política feminina.
De um lado, uma rede de mulheres que já se conheciam e já se organizavam e que, diante da abertura eleitoral, converteu essa sociabilidade em ação pública; de outro, uma estrutura partidária com centro, programa e disciplina que se estendeu em direção à mulher para incorporá-la às suas fileiras.
Poderíamos passar dias (até mesmo anos) discutindo qual das duas formas seria mais propriamente feminina. Provavelmente, os conservadores se uniriam às antigas sufragistas (ah, a ironia!) e diriam que o movimento centrífugo, da casa para a praça, é melhor e mais ordenado. Já os revolucionários, naturalmente, defenderiam o segundo modelo, alegando que a ação que vai do partido à casa é mais eficaz.
A verdade depurada dessas opiniões, no entanto, dependeria do que se entenderia por “feminino”, “ordem” e “eficácia”; e essa é uma conversa muito maior, que fica desde já agendada para outro dia.
O que mais nos interessa neste ensaio não é a diferença, mas o que ambas têm em comum: a natureza expansiva.
Nenhuma dessas movimentações surgiu porque alguém, semanas antes da eleição, descobriu uma categoria chamada “mulheres” e resolveu disputar seus votos. As duas cresceram a partir de relações que já existiam.
A campanha de Eduardo Gomes mostrou que o “doméstico”, tão alardeado por aí como lugar feminino por excelência, não é necessariamente o oposto do “público”. Um baile, um evento beneficente, uma associação profissional ou uma organização religiosa podem ser justamente formas de integrar a autoridade feminina à vida pública e de canalizar um poder que, de outro modo, permaneceria sem rumo.
Já as Uniões Femininas reuniam donas de casa e trabalhadoras em torno de problemas concretos da vida cotidiana: discutiam o preço dos alimentos, a falta de escolas e hospitais, a condição dos bairros; organizavam distribuições de comida e tentavam criar cooperativas de consumo. Até mesmo a política comunista, com toda a sua disciplina partidária, chegava à mulher através daquilo que ela já fazia, e só a partir daí a levava para a política: a associação de bairro não era o oposto do partido, mas a sua porta de entrada.
Portanto, a eleição de 1945 não produziu mulheres de esquerda ou de direita, prontas para votar no candidato escolhido; encontrou-as com seus vínculos, associações e interesses, e deu a essas estruturas nova direção e nova escala.
Eis um pequeno detalhe histórico que deveria nos fazer desconfiar de uma das ficções mais persistentes da política contemporânea: a ideia de que o “eleitorado feminino” é um bloco adormecido que os partidos podem simplesmente ativar durante a campanha.
Nas pesquisas e nas reuniões de marqueteiros, essa ficção tem um bordão — “o voto feminino é decisivo para as eleições no Brasil” — e sempre o mesmo rosto: o da mulher como unidade estatística, pessoa do sexo feminino, de tal território e tal faixa de renda, com tal probabilidade de votar em tal candidato, à espera da promessa certa (para as jovens, para as mães, para as mães solteiras) que finalmente a desperte.
Mas ninguém começa a agir politicamente como unidade estatística. Antes de ser “eleitorado feminino”, a mulher é filha, mãe, esposa, vizinha, amiga, colega, trabalhadora, membro de uma associação ou de uma comunidade, e vive dentro de redes que são políticas por natureza, mas que podem permanecer majoritariamente privadas ou, em certas circunstâncias, ganhar dimensão pública.
Agregar o voto feminino é, de fato, um problema de marketing; mas a ação política feminina é um fenômeno social, e nenhum horário eleitoral gratuito é capaz de fabricar uma rede que não existia antes dele.
É somente dessa forma que o “voto feminino” define uma eleição.
A história registra que as mulheres votaram e que Eurico Gaspar Dutra, o candidato de Vargas, venceu — não sem antes seus aliados transformarem uma frase de Eduardo Gomes contra os apoiadores do ditador numa suposta ofensa aos “marmiteiros”, num dos episódios de desinformação mais eficazes da nossa história eleitoral.
Mas, oitenta anos depois, Dutra sobrevive sobretudo no nome de uma rodovia entre Rio e São Paulo. O Brigadeiro teve destino mais curioso: virou doce de festa de aniversário, espalhou-se pelo país inteiro e, sem que ninguém planejasse, levou consigo um pequeno pedaço da história das formas possíveis de ação feminina na República.
Agora que você sabe disso, da próxima vez que resgatar um brigadeiro meio esquecido entre as forminhas de papel, lembre-se: antes de chegar às urnas, muitas vezes a política brasileira passa pela cozinha.
Notas de rodapé:
Dizem as más-línguas que o Brasil é uma república desde 1889.
Pode até ser (e eu não quero comprar briga com ninguém), mas uma República com R maiúsculo, dessas pomposas em que partidos organizados, propaganda, comícios e disputas eleitorais livres compõem o enredo, demoraria um pouco mais para chegar.
Entre idas e vindas, foi apenas em 1945, com a deposição de Getúlio Vargas e o fim do Estado Novo, que o país realizou sua primeira eleição geral no sentido que hoje reconhecemos; e os entusiastas da democracia puderam, enfim, anunciar a festa: haveria candidatos, rádios, panfletos, comícios e, sobretudo… eleitores.
Muitos eleitores.
E, pela primeira vez numa eleição nacional daquele tipo, também eleitoras.
As 1mulheres recém-elevadas ao posto de “eleitorado” sabiam de sua importância e tinham até um candidato favorito: o Brigadeiro Eduardo Gomes, militar, católico notório e, naquele momento, opositor ferrenho do Estado Novo, alguém que para muitos representava a possibilidade de ruptura definitiva com a ditadura que acabava de cair.
A mobilização feminina em favor de Eduardo Gomes, embalada pelo slogan “vote no Brigadeiro, que é bonito e solteiro”, organizou-se em chás, bailes e quermesses, nos quais, reza a lenda, começou a circular o “doce do Brigadeiro” — feito de leite condensado e chocolate —, vendido para arrecadar fundos de campanha.
Bem,2 os doces existiram. E o Brigadeiro era, aparentemente, bonito (e solteiro).
Mas havia algo muito maior acontecendo.
As mulheres “do Brigadeiro” não eram apenas “senhoras apaixonadas por um partidão”, que organizavam bailes e enrolavam docinhos para passar o tempo.
Entre elas havia mães e avós, é verdade, mas também engenheiras, advogadas, médicas e intelectuais. Muitas vinham de redes políticas com décadas de existência — particularmente das antigas organizações sufragistas. Elas fundaram comitês, produziram manifestos, fizeram discursos e participaram da própria estrutura partidária que se formava em torno da recém-criada União Democrática Nacional (UDN).3
Mesmo o doce, que à primeira vista parece a parte frívola da história, diz algo a mais sobre elas: é o fruto de uma habilidade caseira, praticada dentro de uma rede de sociabilidade feminina e convertida em instrumento de financiamento e propaganda política.
Mas essa intensa movimentação de mulheres não era exclusiva da direita. Em torno do Partido Comunista do Brasil (PCB), havia as chamadas Uniões Femininas — associações de mulheres que alcançavam bairros centrais e periféricos e incorporavam à atividade política donas de casa, empregadas domésticas e trabalhadoras. Nelas, a mobilização partia de uma estrutura partidária centralizada e ia buscar a mulher dentro de seu cotidiano doméstico e comunitário.
A primeiríssima eleição do pós-Vargas nos mostra, portanto, duas formas distintas e bem documentadas de expansão política feminina.
De um lado, uma rede de mulheres que já se conheciam e já se organizavam e que, diante da abertura eleitoral, converteu essa sociabilidade em ação pública; de outro, uma estrutura partidária com centro, programa e disciplina que se estendeu em direção à mulher para incorporá-la às suas fileiras.
Poderíamos passar dias (até mesmo anos) discutindo qual das duas formas seria mais propriamente feminina. Provavelmente, os conservadores se uniriam às antigas sufragistas (ah, a ironia!) e diriam que o movimento centrífugo, da casa para a praça, é melhor e mais ordenado. Já os revolucionários, naturalmente, defenderiam o segundo modelo, alegando que a ação que vai do partido à casa é mais eficaz.
A verdade depurada dessas opiniões, no entanto, dependeria do que se entenderia por “feminino”, “ordem” e “eficácia”; e essa é uma conversa muito maior, que fica desde já agendada para outro dia.
O que mais nos interessa neste ensaio não é a diferença, mas o que ambas têm em comum: a natureza expansiva.
Nenhuma dessas movimentações surgiu porque alguém, semanas antes da eleição, descobriu uma categoria chamada “mulheres” e resolveu disputar seus votos. As duas cresceram a partir de relações que já existiam.
A campanha de Eduardo Gomes mostrou que o “doméstico”, tão alardeado por aí como lugar feminino por excelência, não é necessariamente o oposto do “público”. Um baile, um evento beneficente, uma associação profissional ou uma organização religiosa podem ser justamente formas de integrar a autoridade feminina à vida pública e de canalizar um poder que, de outro modo, permaneceria sem rumo.
Já as Uniões Femininas reuniam donas de casa e trabalhadoras em torno de problemas concretos da vida cotidiana: discutiam o preço dos alimentos, a falta de escolas e hospitais, a condição dos bairros; organizavam distribuições de comida e tentavam criar cooperativas de consumo. Até mesmo a política comunista, com toda a sua disciplina partidária, chegava à mulher através daquilo que ela já fazia, e só a partir daí a levava para a política: a associação de bairro não era o oposto do partido, mas a sua porta de entrada.
Portanto, a eleição de 1945 não produziu mulheres de esquerda ou de direita, prontas para votar no candidato escolhido; encontrou-as com seus vínculos, associações e interesses, e deu a essas estruturas nova direção e nova escala.
Eis um pequeno detalhe histórico que deveria nos fazer desconfiar de uma das ficções mais persistentes da política contemporânea: a ideia de que o “eleitorado feminino” é um bloco adormecido que os partidos podem simplesmente ativar durante a campanha.
Nas pesquisas e nas reuniões de marqueteiros, essa ficção tem um bordão — “o voto feminino é decisivo para as eleições no Brasil” — e sempre o mesmo rosto: o da mulher como unidade estatística, pessoa do sexo feminino, de tal território e tal faixa de renda, com tal probabilidade de votar em tal candidato, à espera da promessa certa (para as jovens, para as mães, para as mães solteiras) que finalmente a desperte.
Mas ninguém começa a agir politicamente como unidade estatística. Antes de ser “eleitorado feminino”, a mulher é filha, mãe, esposa, vizinha, amiga, colega, trabalhadora, membro de uma associação ou de uma comunidade, e vive dentro de redes que são políticas por natureza, mas que podem permanecer majoritariamente privadas ou, em certas circunstâncias, ganhar dimensão pública.
Agregar o voto feminino é, de fato, um problema de marketing; mas a ação política feminina é um fenômeno social, e nenhum horário eleitoral gratuito é capaz de fabricar uma rede que não existia antes dele.
É somente dessa forma que o “voto feminino” define uma eleição.
A história registra que as mulheres votaram e que Eurico Gaspar Dutra, o candidato de Vargas, venceu — não sem antes seus aliados transformarem uma frase de Eduardo Gomes contra os apoiadores do ditador numa suposta ofensa aos “marmiteiros”, num dos episódios de desinformação mais eficazes da nossa história eleitoral.
Mas, oitenta anos depois, Dutra sobrevive sobretudo no nome de uma rodovia entre Rio e São Paulo. O Brigadeiro teve destino mais curioso: virou doce de festa de aniversário, espalhou-se pelo país inteiro e, sem que ninguém planejasse, levou consigo um pequeno pedaço da história das formas possíveis de ação feminina na República.
Agora que você sabe disso, da próxima vez que resgatar um brigadeiro meio esquecido entre as forminhas de papel, lembre-se: antes de chegar às urnas, muitas vezes a política brasileira passa pela cozinha.
Notas de rodapé:
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