Quando O Diabo Veste Prada chegou ao público pela primeira vez, eu tinha doze anos. Estava entrando naquela fase estranha da adolescência e morava no interior de Minas Gerais, em uma cidade sem cinema, onde a internet chegava por sinal de rádio (antes que Elon Musk tornasse isso algo descolado). Não saberia dizer com precisão como o filme chegou até mim. Talvez por meio de filas em locadoras, talvez por cópias digitais de procedência incerta. Mas é verdade que chegou.
Não apenas a mim, é claro, mas a toda uma geração para quem se abriu, de repente, o mundo cintilante da revista Runway. Nova Iorque. Os terninhos. O salto alto. A pressa elegante. Os blogs. Girlboss. Até a forma de escrever. Frases curtas. Incisivas. Entrecortadas. Você precisava estar lá.1
Crescemos sob a sombra dessa promessa. O mundo parecia amplo e distante, mas ao mesmo tempo perfeitamente navegável, desde que estivéssemos dispostas a seguir o roteiro implícito. Ointerior era apenas o ponto de partida. Havia sempre uma capital à espera, uma universidade capaz de refinar o talento bruto, um estágio decisivo, uma primeira oportunidade que abriria todas as outras. E, mais adiante, a internacionalização inevitável: Nova Iorque, Paris, Londres e então…
E então… o preço. Quando as malas já estavam prontas para aquilo que, por todos os critérios disponíveis, deveria ser o início de uma trajetória bem-sucedida, uma ligação interrompe a continuidade desse enredo. Uma ligação que coloca a moça frente à decisão da mulher:
Família ou carreira.
Como tantas outras, eu me via em Andy Sachs. Via-me naquela ambição intelectual mal disfarçada, no desejo de escrever para jornais importantes, e, ao mesmo tempo, em uma certa distância irônica em relação à feminilidade performativa que aquele universo exigia. Mas havia uma semelhança mais difícil de admitir.
Eu também não estava disposta a pagar o preço integral do topo.
E esse preço nunca foi exatamente um segredo.
Miranda Priestly jamais o ocultou. O filme o apresentava muito claramente como a condição do sucesso, exatamente onde a fantasia da girlboss encontra seu limite. Um limite que não está exatamente na possibilidade de ascensão (vivemos em um mundo onde isso é perfeitamente possível), mas na estrutura sacrificial que a sustenta.
Há nomes antigos para esse tipo de tentação. Um deles poderia ser chamado, sem grande esforço, de: a tentação das Amazonas.
* * *
Agora que o mito da girlboss começa a se dissolver, cada vez mais associada ao esgotamento que produziu, tornou-se comum atribuir o fenômeno ao chamado “feminismo millennial” ou, de modo mais amplo, ao feminismo liberal.2
Se essa imputação procede ou não, é um voto de Minerva que pode ser deixado aos críticos mais sistemáticos. O que se pode afirmar com alguma segurança é que nenhuma formulação recente seria capaz, por si só, de engendrar uma mística tão persistente. A ideia de mulheres fortes e autossuficientes não nasce no feminismo contemporâneo, nem na cultura pop dos anos 2000, nem em qualquer agenda cultural das últimas décadas.
Afinal, Miranda Priestly é uma Amazona.
As Amazonas, na mitologia grega, são filhas de Ares, o deus da guerra. Homero as chama de antianeirai — iguais aos homens. Vivem em uma sociedade que prescinde do masculino em quase todas as suas dimensões: política, militar, econômica. Guerreiam e governam como iguais, existindo à margem daquilo que se reconhece como civilização.
Certamente, se o mito amazônico é o mais conhecido, não significa que reste isolado. Em culturas tão distintas quanto a grega, a escandinava e a chinesa — separadas por língua, cosmologia e organização social — ele reaparece, com notável regularidade, em histórias sobre mulheres que habitam a fronteira.3
Mulheres situadas entre a civilização e a barbárie. Entre o feminino e o masculino. Entre a vida e a morte. Entre o humano e o divino. Que não pertencem inteiramente a nenhum desses polos. Mulheres que avançam na direção do masculino e, ainda assim, permanecem, por razões que escapam à descrição direta, inconfundivelmente femininas.4
Elas são autossuficientes. Regulam o próprio corpo, a própria sexualidade, a própria maternidade. Ocupam as posições de poder da sua comunidade. São capazes de matar sem hesitação. Não estão sob a sombra de ninguém. Não dependem de ninguém. Não se submetem a ninguém. Sobretudo, não precisam atravessar a vulnerabilidade que toda relação exige.
Essa é a promessa amazônica.
Mais expostas à experiência da dependência, as mulheres a encontram cedo sob a forma de um sofrimento específico. O corpo feminino, de modo particularmente evidente, não permite esquecer que a dependência é uma condição fundamental da existência humana. A fertilidade, que o torna permeável a outra vida, e a maternidade, que implica uma partilha literal de substância, inscrevem a abertura ao outro como dado constitutivo e, portanto, como fonte permanente de vulnerabilidade.5
A tentação amazônica é a recusa dessa vulnerabilidade elevada a uma performance.
A lógica interna é impecável. Se depender expõe, então não dependa. Se amar fragiliza, então endureça. Se existe o risco de ser destruída pela abertura ao outro, torne-se alguém que não precisa se abrir. A autossuficiência se apresenta, aqui, como estratégia de sobrevivência.6
O controle absoluto, no entanto, cobra um preço absoluto.
Algo que o próprio mito registra, com uma regularidade que não pode ser acidental: a Amazona, quando se torna heroína, é sempre uma heroína trágica. Héracles parte com o cinto de Hipólita sobre o seu cadáver. Pentesiléia é morta por Aquiles. A recusa absoluta da dependência jamais encontra a liberdade que prometia. Encontra o isolamento e, eventualmente, a destruição. O mito celebra a figura como símbolo e, ao mesmo tempo, denuncia a impossibilidade do que ela propõe.
É essa estrutura, com toda a sua beleza e toda a sua tragédia, que O Diabo Veste Prada coloca diante de nós, protagonizada por duas mulheres que encarnam os dois estágios da mesma tentação.
* * *
Miranda é uma vilã.
Não porque o filme a reduza a isso, mas porque as Amazonas tendem a assumir essa forma quando encarnadas, quando habitantes do mundo profano.
Ela veio de baixo, escalou até sua posição e tornou-se a editora mais poderosa da indústria mais glamorosa do mundo. O filme é deliberadamente preciso quanto à natureza dessa conquista. A frieza de Miranda é o preço de entrada, não um desvio de rota. Ela sabe que qualquer vulnerabilidade seria imediatamente interpretada como evidência de inadequação.
A cena decisiva, aquela que desloca o filme de uma comédia corporativa para algo mais grave, é a cena do quarto de hotel em Paris. Andy bate à porta de Miranda tarde da noite para entregar documentos e encontra uma figura inesperadamente alterada. Sem maquiagem, vestida de branco, com uma postura ligeiramente deslocada, Miranda revela que o marido pediu o divórcio, seu terceiro.
Por um instante, a armadura cede. O que emerge é uma mulher que suprimiu o desejo de comunhão durante décadas; que construiu uma fortaleza de autossuficiência tão sólida que ninguém mais consegue atravessá-la; e que, naquele quarto de hotel iluminado por uma luz fria, se depara com a persistência daquilo que tentou eliminar. A ferida permanece sob a armadura, a mesma ferida que a tornou necessária.
Mas o filme não se limita a sugerir esse preço. Ele o torna explícito.
Nigel, o diretor de arte da Runway, interpretado por Stanley Tucci, é o único personagem que mantém com Miranda uma relação que não se funda no medo. Sua admiração é real, sustentada por anos de lealdade e proximidade, a forma mais próxima de afeto que a narrativa permite à personagem de Meryl Streep.
Quando a posição de Miranda na revista é ameaçada, ela negocia sua permanência oferecendo Nigel em troca, sacrificando a carreira do aliado mais fiel para preservar a própria posição. O gesto é executado sem hesitação.
“I had to give them something,” diz Miranda. “Nigel was what I gave them.”
A lógica é inteiramente amazônica. Nigel confia em Miranda, e é precisamente isso que o torna sacrificável. A confiança cria uma obrigação; a obrigação introduz uma forma de dependência que, em seu estágio mais avançado, o mito amazônico já não pode sustentar.
A autossuficiência absoluta exige, em algum momento, o sacrifício daqueles de quem se poderia depender ou, de modo ainda mais revelador, daqueles que poderiam depender de você. A abertura ao outro constitui uma vulnerabilidade que a Amazona não pode tolerar. No centro dessa recusa está a recusa da própria lógica da criação.
Por esse motivo, a jornada de Andy é uma narrativa sobre a tentação amazônica e sua recusa. O momento em que cruza a linha, para além dos conflitos com os amigos e o namorado, é um gesto quase discreto: ela usa uma informação privilegiada para garantir a própria posição, em detrimento de uma colega.
Em Paris, Miranda diz a Andy: “Você e eu somos exatamente iguais.” É o convite à iniciação completa, a aceitação de que é assim que funciona, de que o afeto é incompatível com a sobrevivência no topo.
Andy joga o celular na fonte da Place de la Concorde e vai embora.
* * *
Por muitos anos, encarei esse gesto como algo profundamente injusto.
Injusto que seja exigido das mulheres um sacrifício que não se é exigido dos homens. Injusto que eles “possam ter tudo”, enquanto as mulheres precisam sacrificar suas ambições. Hoje, vejo nele uma forma de orientação.
Recusar a tentação amazônica não é recusar o sucesso, é recusar um modelo específico de sucesso. Um modelo que exige, como condição de entrada, a supressão de tudo que torna a vida propriamente humana e essencialmente feminina.
Andy não volta para casa derrotada. Volta para uma vida que inclui dependência, afeto, abertura ao outro. O que ela rejeita é a certeza de que a força exige fechamento, que o poder exige invulnerabilidade, que a máscara pode se confundir com a pessoa.
O que o filme nunca diz — e que por isso mesmo constitui o argumento mais honesto que consegue fazer — é que a pergunta não é se o desejo de força é legítimo. É. A pergunta é se há uma forma de integrá-lo sem que ele exija, como condição de entrada, a supressão daquilo que torna a vida propriamente humana.
Nós, que crescemos vendo esse filme em telas pequenas no interior de Minas Gerais, ainda estamos tentando responder a essa pergunta. Responder em termos práticos e relacionais, a cada vez que família e carreira se apresentam como alternativas mutuamente exclusivas; a cada vez que o afeto parece incompatível com a sobrevivência no ambiente moderno. Percebemos, algumas muito cedo, outras tarde demais, o engodo dessa falsa promessa. Sentimos, em igual medida, certa urgência de voltar para casa.
Mas o que “voltar para casa” significa? A tentação amazônica não desapareceu. E nós continuamos a reconhecê-la como resposta compreensível a uma dor real.
O que se tornou mais claro, nos vinte anos que separam o primeiro filme de sua continuação, é que essa promessa, exatamente por habitar a fronteira, tem um limite. A armadura não é a pessoa e a ferida que a Amazona tenta proteger, ao ser suprimida, não desaparece.
A pergunta que a continuação terá de responder — e provavelmente não terá coragem para tanto — é o que acontece depois que a Amazona sabe.
Uma descrição particularmente expressiva da identidade “girlboss” pode ser encontrada em um ensaio autobiográfico recente, que a define como um período marcado por ambição performativa e idealização profissional inspirada pela cultura pop, especialmente por The Devil Wears Prada. Ver: The Hyphen, “Notes from a Former Girlboss,” Substack. Disponível em: https://thehyphen.substack.com/p/notes-from-a-former-girlboss↩︎
A ideia de uma “ascensão girlboss” generalizada encontra pouco respaldo empírico. Dados recentes indicam que, mesmo em setores tradicionalmente associados a essa figura — como serviços profissionais e corporativos — a participação feminina permaneceu relativamente estável nas últimas décadas, apesar do crescimento absoluto de empregos; ver: Mike Konczal, “The Girlboss Takeover Has a Data Problem;” disponível em: https://newsletter.mikekonczal.com/p/the-girlboss-takeover-has-a-data
Por fim, a vinculação entre o ideal girlboss e o feminismo liberal contemporâneo — especialmente em sua versão millennial — é analisada criticamente em: Institute for Family Studies, “The Girlboss Lie That’s Breaking Working-Class Women’s Hearts;” disponível em https://ifstudies.org/blog/the-girlboss-lie-thats-breaking-working-class-womens-hearts
Para uma formulação mítica comparável à figura da mulher que habita zonas liminares entre o humano e o extraordinário, ver YOUNG, Serinity. Women who fly: Goddesses, witches, mystics, and other airborne females. Oxford University Press, 2018. ↩︎
A força simbólica desse “entre-lugar” — onde opostos se encontram sem se dissolver — pode ser compreendida à luz do tema da androginia mítica. Sobre isso, ver: ELIADE, Mircea. Mefistofele e l’androgine. Edizioni mediterranee, 1971. ↩︎
Para uma análise sofisticada da maternidade como experiência simultaneamente biológica, simbólica e linguística — frequentemente marcada por ambivalência e tensão; ver: KRISTEVA, Julia; GOLDHAMMER, Arthur. Stabat mater. Poetics today, v. 6, n. 1/2, p. 133-152, 1985. ↩︎
Uma formulação contemporânea da lógica interna da “tentação amazônica” — entendida como recusa estratégica da vulnerabilidade — pode ser encontrada em: Inês Carrières, “A Tentação da Amazona;” disponível em: https://inescarrieres.substack.com/p/a-tentacao-da-amazona↩︎
7 thoughts on “A mulher independente e o preço que ninguém quer pagar: o que “O Diabo Veste Prada” revela sobre a tentação amazônica”
Vivi isso na pele pois não consegui conciliar minha carreira com a família/maternidade por diversas razões que se talvez eu tivesse escolhido a carreira não estaria no Brasil. Isto me dá uma certa frustração que me consome todos os dias. São tantas desculpas por ter recusado lutar pela minha carreira que já cansei de pensar e agora sou só mãe e também não me arrependo disso.
Desde que eu me entendo por gente quis ser a Girlboss, mas queria ser também a mãe família, com o marido e muitos filhos ao redor da mesa. Durante alguns anos segurei as pontas dos dois papéis, mas chega uma hora que simplesmente não dá. O topo cobra um preço muito alto e é arriscado não conseguir fugir de lá a tempo! Ótimo texto, Débora – Necessário!
A Débora está acrescentando muita profundidade ao debate sobre o feminismo e feminilidade. Isso está sendo essencial até mesmo para que nós, católicas, vejamos o quão raso é o modelo ”anti-feminismo protestante/conservador/inglês” tão vigente em nosso país (de raízes ibéricas). Bravíssimo, garota!!
Novos artigos, recomendações de filmes, trailers,
lançamentos e muito mais.
Não muito — apenas o suficiente.
Quando O Diabo Veste Prada chegou ao público pela primeira vez, eu tinha doze anos. Estava entrando naquela fase estranha da adolescência e morava no interior de Minas Gerais, em uma cidade sem cinema, onde a internet chegava por sinal de rádio (antes que Elon Musk tornasse isso algo descolado). Não saberia dizer com precisão como o filme chegou até mim. Talvez por meio de filas em locadoras, talvez por cópias digitais de procedência incerta. Mas é verdade que chegou.
Não apenas a mim, é claro, mas a toda uma geração para quem se abriu, de repente, o mundo cintilante da revista Runway. Nova Iorque. Os terninhos. O salto alto. A pressa elegante. Os blogs. Girlboss. Até a forma de escrever. Frases curtas. Incisivas. Entrecortadas. Você precisava estar lá.1
Crescemos sob a sombra dessa promessa. O mundo parecia amplo e distante, mas ao mesmo tempo perfeitamente navegável, desde que estivéssemos dispostas a seguir o roteiro implícito. Ointerior era apenas o ponto de partida. Havia sempre uma capital à espera, uma universidade capaz de refinar o talento bruto, um estágio decisivo, uma primeira oportunidade que abriria todas as outras. E, mais adiante, a internacionalização inevitável: Nova Iorque, Paris, Londres e então…
E então… o preço. Quando as malas já estavam prontas para aquilo que, por todos os critérios disponíveis, deveria ser o início de uma trajetória bem-sucedida, uma ligação interrompe a continuidade desse enredo. Uma ligação que coloca a moça frente à decisão da mulher:
Família ou carreira.
Como tantas outras, eu me via em Andy Sachs. Via-me naquela ambição intelectual mal disfarçada, no desejo de escrever para jornais importantes, e, ao mesmo tempo, em uma certa distância irônica em relação à feminilidade performativa que aquele universo exigia. Mas havia uma semelhança mais difícil de admitir.
Eu também não estava disposta a pagar o preço integral do topo.
E esse preço nunca foi exatamente um segredo.
Miranda Priestly jamais o ocultou. O filme o apresentava muito claramente como a condição do sucesso, exatamente onde a fantasia da girlboss encontra seu limite. Um limite que não está exatamente na possibilidade de ascensão (vivemos em um mundo onde isso é perfeitamente possível), mas na estrutura sacrificial que a sustenta.
Há nomes antigos para esse tipo de tentação. Um deles poderia ser chamado, sem grande esforço, de: a tentação das Amazonas.
* * *
Agora que o mito da girlboss começa a se dissolver, cada vez mais associada ao esgotamento que produziu, tornou-se comum atribuir o fenômeno ao chamado “feminismo millennial” ou, de modo mais amplo, ao feminismo liberal.2
Se essa imputação procede ou não, é um voto de Minerva que pode ser deixado aos críticos mais sistemáticos. O que se pode afirmar com alguma segurança é que nenhuma formulação recente seria capaz, por si só, de engendrar uma mística tão persistente. A ideia de mulheres fortes e autossuficientes não nasce no feminismo contemporâneo, nem na cultura pop dos anos 2000, nem em qualquer agenda cultural das últimas décadas.
Afinal, Miranda Priestly é uma Amazona.
As Amazonas, na mitologia grega, são filhas de Ares, o deus da guerra. Homero as chama de antianeirai — iguais aos homens. Vivem em uma sociedade que prescinde do masculino em quase todas as suas dimensões: política, militar, econômica. Guerreiam e governam como iguais, existindo à margem daquilo que se reconhece como civilização.
Certamente, se o mito amazônico é o mais conhecido, não significa que reste isolado. Em culturas tão distintas quanto a grega, a escandinava e a chinesa — separadas por língua, cosmologia e organização social — ele reaparece, com notável regularidade, em histórias sobre mulheres que habitam a fronteira.3
Mulheres situadas entre a civilização e a barbárie. Entre o feminino e o masculino. Entre a vida e a morte. Entre o humano e o divino. Que não pertencem inteiramente a nenhum desses polos. Mulheres que avançam na direção do masculino e, ainda assim, permanecem, por razões que escapam à descrição direta, inconfundivelmente femininas.4
Elas são autossuficientes. Regulam o próprio corpo, a própria sexualidade, a própria maternidade. Ocupam as posições de poder da sua comunidade. São capazes de matar sem hesitação. Não estão sob a sombra de ninguém. Não dependem de ninguém. Não se submetem a ninguém. Sobretudo, não precisam atravessar a vulnerabilidade que toda relação exige.
Essa é a promessa amazônica.
Mais expostas à experiência da dependência, as mulheres a encontram cedo sob a forma de um sofrimento específico. O corpo feminino, de modo particularmente evidente, não permite esquecer que a dependência é uma condição fundamental da existência humana. A fertilidade, que o torna permeável a outra vida, e a maternidade, que implica uma partilha literal de substância, inscrevem a abertura ao outro como dado constitutivo e, portanto, como fonte permanente de vulnerabilidade.5
A tentação amazônica é a recusa dessa vulnerabilidade elevada a uma performance.
A lógica interna é impecável. Se depender expõe, então não dependa. Se amar fragiliza, então endureça. Se existe o risco de ser destruída pela abertura ao outro, torne-se alguém que não precisa se abrir. A autossuficiência se apresenta, aqui, como estratégia de sobrevivência.6
O controle absoluto, no entanto, cobra um preço absoluto.
Algo que o próprio mito registra, com uma regularidade que não pode ser acidental: a Amazona, quando se torna heroína, é sempre uma heroína trágica. Héracles parte com o cinto de Hipólita sobre o seu cadáver. Pentesiléia é morta por Aquiles. A recusa absoluta da dependência jamais encontra a liberdade que prometia. Encontra o isolamento e, eventualmente, a destruição. O mito celebra a figura como símbolo e, ao mesmo tempo, denuncia a impossibilidade do que ela propõe.
É essa estrutura, com toda a sua beleza e toda a sua tragédia, que O Diabo Veste Prada coloca diante de nós, protagonizada por duas mulheres que encarnam os dois estágios da mesma tentação.
* * *
Miranda é uma vilã.
Não porque o filme a reduza a isso, mas porque as Amazonas tendem a assumir essa forma quando encarnadas, quando habitantes do mundo profano.
Ela veio de baixo, escalou até sua posição e tornou-se a editora mais poderosa da indústria mais glamorosa do mundo. O filme é deliberadamente preciso quanto à natureza dessa conquista. A frieza de Miranda é o preço de entrada, não um desvio de rota. Ela sabe que qualquer vulnerabilidade seria imediatamente interpretada como evidência de inadequação.
A cena decisiva, aquela que desloca o filme de uma comédia corporativa para algo mais grave, é a cena do quarto de hotel em Paris. Andy bate à porta de Miranda tarde da noite para entregar documentos e encontra uma figura inesperadamente alterada. Sem maquiagem, vestida de branco, com uma postura ligeiramente deslocada, Miranda revela que o marido pediu o divórcio, seu terceiro.
Por um instante, a armadura cede. O que emerge é uma mulher que suprimiu o desejo de comunhão durante décadas; que construiu uma fortaleza de autossuficiência tão sólida que ninguém mais consegue atravessá-la; e que, naquele quarto de hotel iluminado por uma luz fria, se depara com a persistência daquilo que tentou eliminar. A ferida permanece sob a armadura, a mesma ferida que a tornou necessária.
Mas o filme não se limita a sugerir esse preço. Ele o torna explícito.
Nigel, o diretor de arte da Runway, interpretado por Stanley Tucci, é o único personagem que mantém com Miranda uma relação que não se funda no medo. Sua admiração é real, sustentada por anos de lealdade e proximidade, a forma mais próxima de afeto que a narrativa permite à personagem de Meryl Streep.
Quando a posição de Miranda na revista é ameaçada, ela negocia sua permanência oferecendo Nigel em troca, sacrificando a carreira do aliado mais fiel para preservar a própria posição. O gesto é executado sem hesitação.
“I had to give them something,” diz Miranda. “Nigel was what I gave them.”
A lógica é inteiramente amazônica. Nigel confia em Miranda, e é precisamente isso que o torna sacrificável. A confiança cria uma obrigação; a obrigação introduz uma forma de dependência que, em seu estágio mais avançado, o mito amazônico já não pode sustentar.
A autossuficiência absoluta exige, em algum momento, o sacrifício daqueles de quem se poderia depender ou, de modo ainda mais revelador, daqueles que poderiam depender de você. A abertura ao outro constitui uma vulnerabilidade que a Amazona não pode tolerar. No centro dessa recusa está a recusa da própria lógica da criação.
Por esse motivo, a jornada de Andy é uma narrativa sobre a tentação amazônica e sua recusa. O momento em que cruza a linha, para além dos conflitos com os amigos e o namorado, é um gesto quase discreto: ela usa uma informação privilegiada para garantir a própria posição, em detrimento de uma colega.
Em Paris, Miranda diz a Andy: “Você e eu somos exatamente iguais.” É o convite à iniciação completa, a aceitação de que é assim que funciona, de que o afeto é incompatível com a sobrevivência no topo.
Andy joga o celular na fonte da Place de la Concorde e vai embora.
* * *
Por muitos anos, encarei esse gesto como algo profundamente injusto.
Injusto que seja exigido das mulheres um sacrifício que não se é exigido dos homens. Injusto que eles “possam ter tudo”, enquanto as mulheres precisam sacrificar suas ambições. Hoje, vejo nele uma forma de orientação.
Recusar a tentação amazônica não é recusar o sucesso, é recusar um modelo específico de sucesso. Um modelo que exige, como condição de entrada, a supressão de tudo que torna a vida propriamente humana e essencialmente feminina.
Andy não volta para casa derrotada. Volta para uma vida que inclui dependência, afeto, abertura ao outro. O que ela rejeita é a certeza de que a força exige fechamento, que o poder exige invulnerabilidade, que a máscara pode se confundir com a pessoa.
O que o filme nunca diz — e que por isso mesmo constitui o argumento mais honesto que consegue fazer — é que a pergunta não é se o desejo de força é legítimo. É. A pergunta é se há uma forma de integrá-lo sem que ele exija, como condição de entrada, a supressão daquilo que torna a vida propriamente humana.
Nós, que crescemos vendo esse filme em telas pequenas no interior de Minas Gerais, ainda estamos tentando responder a essa pergunta. Responder em termos práticos e relacionais, a cada vez que família e carreira se apresentam como alternativas mutuamente exclusivas; a cada vez que o afeto parece incompatível com a sobrevivência no ambiente moderno. Percebemos, algumas muito cedo, outras tarde demais, o engodo dessa falsa promessa. Sentimos, em igual medida, certa urgência de voltar para casa.
Mas o que “voltar para casa” significa? A tentação amazônica não desapareceu. E nós continuamos a reconhecê-la como resposta compreensível a uma dor real.
O que se tornou mais claro, nos vinte anos que separam o primeiro filme de sua continuação, é que essa promessa, exatamente por habitar a fronteira, tem um limite. A armadura não é a pessoa e a ferida que a Amazona tenta proteger, ao ser suprimida, não desaparece.
A pergunta que a continuação terá de responder — e provavelmente não terá coragem para tanto — é o que acontece depois que a Amazona sabe.
Uma descrição particularmente expressiva da identidade “girlboss” pode ser encontrada em um ensaio autobiográfico recente, que a define como um período marcado por ambição performativa e idealização profissional inspirada pela cultura pop, especialmente por The Devil Wears Prada. Ver: The Hyphen, “Notes from a Former Girlboss,” Substack. Disponível em: https://thehyphen.substack.com/p/notes-from-a-former-girlboss↩︎
A ideia de uma “ascensão girlboss” generalizada encontra pouco respaldo empírico. Dados recentes indicam que, mesmo em setores tradicionalmente associados a essa figura — como serviços profissionais e corporativos — a participação feminina permaneceu relativamente estável nas últimas décadas, apesar do crescimento absoluto de empregos; ver: Mike Konczal, “The Girlboss Takeover Has a Data Problem;” disponível em: https://newsletter.mikekonczal.com/p/the-girlboss-takeover-has-a-data
Por fim, a vinculação entre o ideal girlboss e o feminismo liberal contemporâneo — especialmente em sua versão millennial — é analisada criticamente em: Institute for Family Studies, “The Girlboss Lie That’s Breaking Working-Class Women’s Hearts;” disponível em https://ifstudies.org/blog/the-girlboss-lie-thats-breaking-working-class-womens-hearts
Para uma formulação mítica comparável à figura da mulher que habita zonas liminares entre o humano e o extraordinário, ver YOUNG, Serinity. Women who fly: Goddesses, witches, mystics, and other airborne females. Oxford University Press, 2018. ↩︎
A força simbólica desse “entre-lugar” — onde opostos se encontram sem se dissolver — pode ser compreendida à luz do tema da androginia mítica. Sobre isso, ver: ELIADE, Mircea. Mefistofele e l’androgine. Edizioni mediterranee, 1971. ↩︎
Para uma análise sofisticada da maternidade como experiência simultaneamente biológica, simbólica e linguística — frequentemente marcada por ambivalência e tensão; ver: KRISTEVA, Julia; GOLDHAMMER, Arthur. Stabat mater. Poetics today, v. 6, n. 1/2, p. 133-152, 1985. ↩︎
Uma formulação contemporânea da lógica interna da “tentação amazônica” — entendida como recusa estratégica da vulnerabilidade — pode ser encontrada em: Inês Carrières, “A Tentação da Amazona;” disponível em: https://inescarrieres.substack.com/p/a-tentacao-da-amazona↩︎
7 thoughts on “A mulher independente e o preço que ninguém quer pagar: o que “O Diabo Veste Prada” revela sobre a tentação amazônica”
Vivi isso na pele pois não consegui conciliar minha carreira com a família/maternidade por diversas razões que se talvez eu tivesse escolhido a carreira não estaria no Brasil. Isto me dá uma certa frustração que me consome todos os dias. São tantas desculpas por ter recusado lutar pela minha carreira que já cansei de pensar e agora sou só mãe e também não me arrependo disso.
Desde que eu me entendo por gente quis ser a Girlboss, mas queria ser também a mãe família, com o marido e muitos filhos ao redor da mesa. Durante alguns anos segurei as pontas dos dois papéis, mas chega uma hora que simplesmente não dá. O topo cobra um preço muito alto e é arriscado não conseguir fugir de lá a tempo! Ótimo texto, Débora – Necessário!
A Débora está acrescentando muita profundidade ao debate sobre o feminismo e feminilidade. Isso está sendo essencial até mesmo para que nós, católicas, vejamos o quão raso é o modelo ”anti-feminismo protestante/conservador/inglês” tão vigente em nosso país (de raízes ibéricas). Bravíssimo, garota!!
Vivi isso na pele pois não consegui conciliar minha carreira com a família/maternidade por diversas razões que se talvez eu tivesse escolhido a carreira não estaria no Brasil. Isto me dá uma certa frustração que me consome todos os dias. São tantas desculpas por ter recusado lutar pela minha carreira que já cansei de pensar e agora sou só mãe e também não me arrependo disso.
Muito boa essa análise do filme.
Um ensaio com uma profundidade que foi ao fundo da alma. Muitas “amazonas” da minha geração estão doentes, pois não sabiam o preço que iriam pagar.
Desde que eu me entendo por gente quis ser a Girlboss, mas queria ser também a mãe família, com o marido e muitos filhos ao redor da mesa. Durante alguns anos segurei as pontas dos dois papéis, mas chega uma hora que simplesmente não dá. O topo cobra um preço muito alto e é arriscado não conseguir fugir de lá a tempo! Ótimo texto, Débora – Necessário!
perfeita análise, estou realmente curiosa para saber se o próximo filme fará jus ao primeiro.
Muito boa a análise! Profunda, honesta e desafiadora.
A Débora está acrescentando muita profundidade ao debate sobre o feminismo e feminilidade. Isso está sendo essencial até mesmo para que nós, católicas, vejamos o quão raso é o modelo ”anti-feminismo protestante/conservador/inglês” tão vigente em nosso país (de raízes ibéricas). Bravíssimo, garota!!