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Análise de uma cena de “O Encontro”, novo original da Lumine

Por Redação Lumine
16 de abr de 20254 min de leitura
Análise de uma cena de “O Encontro”, novo original da Lumine

O Encontro é um documentário da Lumine que traz o depoimento de diversos leigos e importantes figuras da Igreja Católica a respeito de seus encontros pessoais com Deus.

As entrevistas e depoimentos são pontuados por imagens de diferentes lugares do mundo: sugerindo, assim, a presença de Deus em todos os lugares e a possibilidade de nos encontrarmos com Ele a qualquer momento.

Além dessas imagens, vemos, em alguns momentos, algumas inserções de imagens da Paixão de Cristo. Essas imagens sugerem que o martírio de Cristo não foi apenas um acontecimento histórico, mas que ele também permeia a nossa vida presente.

Esses pequenos vislumbres da Paixão de Cristo são presságios do que veremos no final do filme: o curta-metragem Ecce Homo, representação fictícia da Paixão, que abrange os últimos momentos do Calvário: do julgamento de Cristo por Pilatos à crucificação.

As imagens do curta são belas e emocionantes, realizadas com uma qualidade técnica muito rara no cinema nacional. Filmado no formato 4:3 — também conhecido como formato acadêmico, pois foi o formato predominante no cinema desde o seu surgimento até a década de 50 — e em preto-e-branco, o filme nos remete às grandes produções do cinema clássico. As personagens não apresentam falas e o efeito emotivo é provocado apenas pela interação entre as imagens e os sons.

E é justamente no uso de alguns recursos cinematográficos como a montagem e a mixagem de som que está uma de suas maiores qualidades. Analisemos uma das cenas do filme para ver como ele cria um efeito muito impactante mesmo sem nenhuma fala:

Durante o julgamento no palácio de Pilatos, ouvimos os sons da multidão enquanto vemos o rosto de Cristo:

Imagem da publicação Análise de uma cena de “O Encontro”, novo original da Lumine

De repente, Ele ergue sua cabeça e olha para o céu. Aí, misturados aos sons da multidão que está no palácio, começamos a ouvir alguns sons de água. Então há um corte que mostra o que Ele está vendo:

Imagem da publicação Análise de uma cena de “O Encontro”, novo original da Lumine
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Enquanto vemos as nuvens, a luz do sol se intensifica até ofuscar a vista e, depois de um clarão, vemos outro panorama de nuvens:

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Agora, os sons de água foram intensificados, mas os sons da multidão cessaram. Embora as imagens sejam parecidas, os sons nos fazem perceber que não estamos mais no mesmo espaço, o que será confirmado pelo próximo corte, que nos revelará a cena do batismo de Cristo por João Batista:

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A cena prossegue, mas não de forma “ininterrupta”, os cortes aceleram os acontecimentos e os sons não reproduzem, necessariamente, o que estamos vendo no momento, mas sugerem vários espaços diferentes. Por exemplo: depois do batismo, de ter saído da água — e de ter ouvido as palavras de Deus Pai confirmando que era o “Seu filho amado”, o que não ouvimos efetivamente, mas intuímos que tenha acontecido — o semblante de Cristo se modifica:

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Ainda ouvimos os sons das ondas, mas também ouvimos o som de correntes. Depois, um corte nos revela as mãos de Cristo pegando a água. No mesmo ritmo das ondas, ouvimos também os sons das chibatadas que seriam posteriormente recebidas por Ele e a Sua respiração sufocante por causa dos golpes:

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Das mãos de Cristo um corte nos leva para as mãos de Pilatos:

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Aí, retornamos ao momento em que a sequência teve início. Enquanto vemos e ouvimos Pilatos lavando as mãos, continuamos a ouvir o som das chibatadas. Mas agora eles não são tão nítidos. Estão abafados.

De toda forma, a associação construída por meio do som entre o gesto de Pilatos e o castigo recebido por Cristo é muito significativa: o frade tradicionalista Jean-Dominique O. P. diz que a arma com que Pilatos matou Jesus foi a indiferença, e que essa é uma “arma” comum a todos os tempos e a todas as pessoas. Afinal, Cristo morreu pelos pecados da humanidade inteira. E a indiferença é um pecado contra o primeiro e mais importante dos mandamentos, os quais, segundo Ele próprio, Sua vida humana veio confirmar.

Este é apenas um exemplo de como as cenas do curta Ecce Homo foram elaboradas. O filme tem apenas 20 minutos, mas sua construção sintetiza, mesmo em breves instantes como o que analisamos aqui, uma grande profundidade de significados.

Ao unir diferentes momentos do tempo e do espaço por meio dos recursos da linguagem cinematográfica — neste caso, especificamente, um uso muito inventivo do som e da montagem —, o filme coloca os acontecimentos retratados em uma dimensão cosmológica: a Paixão de Cristo foi um evento que aconteceu na história, mas que transcende a própria história — transcende quaisquer tempo e espaço determinados. Ela diz respeito à origem e ao fim de todas as coisas e, como pudemos ver nas entrevistas de O Encontro, diz respeito a cada um de nós.


Assista ao curta “Ecce Homo” em nosso canal do Youtube:

youtubeO ENCONTRO | Original Lumine

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