Banner do topo do post
“Homem-Aranha: Um Novo Dia” é sobre aquele amigo que você parou de procurar
Por Francisco Escorsim
|
12.ago.2026
Midle Dot

Nos últimos anos, o mercado cinematográfico de super-heróis sofreu uma clara saturação. Até Vingadores: Ultimato, o público comprou a ideia de construir um universo costurando diversos filmes por mais de uma década. Mas, depois dele, a multiplicação de universos, surgindo seriados soltos, filmes distantes entre si e a repetição abusiva das mesmas fórmulas, cansou.

Creio até que o “copia e cola” foi a principal causa. Só ver o resultado do que James Gunn vem obtendo com a DC, que é o diretor que melhor entendeu que as histórias de super-heróis são histórias de adolescentes. Sua leitura não difere do que fez em seu período na Marvel, mas não vem obtendo o mesmo sucesso agora. O público cansou mesmo.

Talvez isso explique o sucesso impressionante do mais recente Homem-Aranha: Um Novo Dia. Eis uma história de um adolescente se despedindo, atravessando o que Joseph Conrad chamou de linha de sombra: a passagem para a vida adulta, tão incerta antes de ser transposta quanto o que há para além do alcance da lanterna numa noite sem estrelas. 

O grande mérito do filme é deixar de lado a confusão dos multiversos (ao menos até os créditos finais) e focar no amadurecimento de Peter Parker. As piadinhas diminuíram consideravelmente, as músicas se tornaram mais sóbrias e as cores também. 

A interpretação contida de Tom Holland torna o filme melhor do que seria. Sua tristeza e solidão são comunicadas sem palavras, sem forçar expressões, mas também sem perder o olhar de inocência, que está por se apagar, mas ainda resiste e não deixa o homem que vai se tornando perder a essência do piá que já não é mais.

O ritmo do filme é mais próximo do drama do que da aventura, equilibrando bem os momentos de mais introspecção com os de ação. É uma boa tradução visual do que significa cruzar a linha de sombra. Peter se lança ao trabalho obstinado de proteger a cidade, acreditando que a entrega cega ao dever e o isolamento ascético são o preço necessário para proteger seus amigos.

Mas quando observa aqueles que dividiam a vida com ele, tocando seus dias sem guardar um único fragmento de sua existência, o drama mais comum e universal da vida adulta se instala: a constatação de que o que se conquistou, seja o que for, significa pouco ou quase nada sem ter com quem compartilhar a vida. O grande acerto do filme está em mostrar que essa armadura de solidão é uma armadilha. 

Quão comum não é, tendo cursado boa parte do caminho da vida adulta, dar-nos conta de que os amigos da infância, juventude, foram ficando pelo caminho? Não porque deixaram de ser amigos, mas porque deixamos de manter contato. A correria, os afazeres… As desculpas são sempre as mesmas. Mas “um novo dia” surge quando se percebe que o foco exclusivo no trabalho e nas responsabilidades não basta e as conquistas não sustentam a vida. 

A engrenagem dos dias cobra o seu preço, e o herói descobre, a duras penas, que a autossuficiência é uma ilusão dolorosa. E se com grandes poderes vem grandes responsabilidades, com a maturidade vem a humildade de que não somos nada sozinhos.

Leia mais de Francisco Escorsim:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Icone

Receba nossos e-mails

Novos artigos, recomendações de filmes, trailers, lançamentos e muito mais. Não muito — apenas o suficiente.

Nos últimos anos, o mercado cinematográfico de super-heróis sofreu uma clara saturação. Até Vingadores: Ultimato, o público comprou a ideia de construir um universo costurando diversos filmes por mais de uma década. Mas, depois dele, a multiplicação de universos, surgindo seriados soltos, filmes distantes entre si e a repetição abusiva das mesmas fórmulas, cansou.

Creio até que o “copia e cola” foi a principal causa. Só ver o resultado do que James Gunn vem obtendo com a DC, que é o diretor que melhor entendeu que as histórias de super-heróis são histórias de adolescentes. Sua leitura não difere do que fez em seu período na Marvel, mas não vem obtendo o mesmo sucesso agora. O público cansou mesmo.

Talvez isso explique o sucesso impressionante do mais recente Homem-Aranha: Um Novo Dia. Eis uma história de um adolescente se despedindo, atravessando o que Joseph Conrad chamou de linha de sombra: a passagem para a vida adulta, tão incerta antes de ser transposta quanto o que há para além do alcance da lanterna numa noite sem estrelas. 

O grande mérito do filme é deixar de lado a confusão dos multiversos (ao menos até os créditos finais) e focar no amadurecimento de Peter Parker. As piadinhas diminuíram consideravelmente, as músicas se tornaram mais sóbrias e as cores também. 

A interpretação contida de Tom Holland torna o filme melhor do que seria. Sua tristeza e solidão são comunicadas sem palavras, sem forçar expressões, mas também sem perder o olhar de inocência, que está por se apagar, mas ainda resiste e não deixa o homem que vai se tornando perder a essência do piá que já não é mais.

O ritmo do filme é mais próximo do drama do que da aventura, equilibrando bem os momentos de mais introspecção com os de ação. É uma boa tradução visual do que significa cruzar a linha de sombra. Peter se lança ao trabalho obstinado de proteger a cidade, acreditando que a entrega cega ao dever e o isolamento ascético são o preço necessário para proteger seus amigos.

Mas quando observa aqueles que dividiam a vida com ele, tocando seus dias sem guardar um único fragmento de sua existência, o drama mais comum e universal da vida adulta se instala: a constatação de que o que se conquistou, seja o que for, significa pouco ou quase nada sem ter com quem compartilhar a vida. O grande acerto do filme está em mostrar que essa armadura de solidão é uma armadilha. 

Quão comum não é, tendo cursado boa parte do caminho da vida adulta, dar-nos conta de que os amigos da infância, juventude, foram ficando pelo caminho? Não porque deixaram de ser amigos, mas porque deixamos de manter contato. A correria, os afazeres… As desculpas são sempre as mesmas. Mas “um novo dia” surge quando se percebe que o foco exclusivo no trabalho e nas responsabilidades não basta e as conquistas não sustentam a vida. 

A engrenagem dos dias cobra o seu preço, e o herói descobre, a duras penas, que a autossuficiência é uma ilusão dolorosa. E se com grandes poderes vem grandes responsabilidades, com a maturidade vem a humildade de que não somos nada sozinhos.

Leia mais de Francisco Escorsim:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Icone

Receba nossos e-mails

Novos artigos, recomendações de filmes, trailers, lançamentos e muito mais. Não muito — apenas o suficiente.

Banner do rodapé do post

Mais Artigos

|
10.ago.2026

As 15 melhores frases de Santa Clara de Assis sobre desapego e amor a Cristo

Descubra 15 frases de Santa Clara de Assis que revelam sua profunda paixão por Cristo e seus ensinamentos sobre desapego, pobreza e santidade.

Por Redação Lumine

Ler artigo
|
08.ago.2026

São José, pai de Jesus: como a fé silenciosa deste homem garantiu a salvação do mundo 

São José, pai de Jesus, viveu uma fé silenciosa e corajosa. Conheça sua missão, seus desafios e os milagres atribuídos à sua poderosa intercessão.

Por Redação Lumine

Ler artigo
|
07.ago.2026

Os 10 melhores filmes sobre paternidade para assistir em família 

Uma seleção de filmes sobre paternidade que vai emocionar toda a família. Conheça histórias marcantes sobre amor, perdão e o legado de um pai.

Por Redação Lumine

Ler artigo