Em uma das cenas ainda no início do filme, Penélope e Telêmaco conversam na sacada do palácio. A rainha diz algo assim: que a construção, a casa, as pedras, eram as mesmas de sempre, de décadas, séculos, imemoriais talvez. Mas acrescenta que deixariam de ser se o significado delas não fosse mantido.
É o que Christopher Nolan fez com a Odisseia de Homero: manteve várias partes, mas rearranjou diferente e mudou o significado do conjunto. No que segue, é claro que haverá spoilers. Então, se você é um spoilerfóbico, recomendo ler o artigo somente depois de assistir.
A diferença mais relevante diz respeito aos deuses. Não há deuses na Odisseia de Nolan. E são eles, na obra original, quem definem os destinos dos homens, de maneira clara, explícita, não como uma suposição da fé humana.
Sim, Atena aparece no filme, mas não como a deusa que convenceu Zeus a permitir o retorno de Odisseu e o auxilia decisivamente na sua volta. Não, Atena surge como o superego de Odisseu e desaparece quando a reintegração da consciência se completa ao confessar sua culpa a Penélope (trato disso mais adiante).
Culpa que não tem a ver com o fato de Odisseu ter sido infiel, na Odisseia original, relacionando-se com Circe e Calipso. No filme, ele não fica com Circe e, com Calipso, estava enfeitiçado o tempo todo, sem saber sequer que tinha esposa e filho. E Nolan apagou a existência dos feácios e, com eles, de Nausícaa, a princesa que se torna um teste de fidelidade para Odisseu antes de seu retorno. A consequência é tornar Odisseu um homem melhor do que era.
Mais ainda quando vemos que sua culpa tampouco tem a ver com seu orgulho desmedido. Evento crucial no épico é a forma como Odisseu escapa de Polifemo, o ciclope. Seu orgulho desmedido, a tal da hybris, não o deixa ir embora sem que Polifemo saiba que foi Odisseu quem o enganou com sua astúcia, fazendo se passar por “Ninguém”. Mas a glória do feito tem de ser de Odisseu, não de ninguém. E é por dizer quem era que Poseidon consegue puni-lo, impedindo seu retorno para casa durante tantos anos.

No filme, Odisseu nunca foi “Ninguém”. Nolan deliberadamente modificou esta parte, mudando, com isso, todo o sentido da “culpa” do protagonista, deslocando-a para outra coisa, inexistente na obra original.
Há outras mudanças importantes, mas creio que essas bastam para demonstrar quão diferentes são as Odisseias de Homero e Nolan. Isso não quer dizer que o filme seja ruim por ser infiel ao original. Quer dizer, apenas, que o filme não é fiel ao original.
Nolan se baseou na tradução para o inglês feita por Emily Wilson, que faz uma série de modificações que desnaturam Odisseu e o épico como um todo. O herói deixa de ser astucioso, engenhoso, para ser “a complicated man”, um homem complicado, no sentido de complexo.
Em sua introdução e notas à sua versão, Emily considera o protagonista como um mentiroso compulsivo e um narrador pouco confiável. São Odisseus muito diferentes, portanto, os de Homero e o inventado por Emily, que demonstrou mais simpatia, pelas escolhas lexicais que fez, com o ciclope e os lestrigões do que com o protagonista. Também resumiu passagens inteiras, achatou a grandiosidade épica e a imponência divina para uma dimensão psicologizante, usando uma linguagem mais comum, seca, anacrônica em vários momentos.
Nolan seguiu nessa psicologização, mas não rebaixou Odisseu como a tradutora. Ao contrário. Como visto acima, retrata-o como sendo melhor do que era, mais nobre, parecendo mais prudente do que astuto. Sua culpa, aliás, também confirma essa nobreza. Porque Odisseu se sente culpado por algo muito mais sério do que infidelidade conjugal ou orgulho desmedido, mas por ter tido a ideia do cavalo de Troia e, por isso, causado a morte de centenas ou milhares de pessoas.

Odisseu considera que sua ideia foi contra a “lei de Zeus”. Mas que lei seria essa? O filme não explica. Pelas demais referências feitas a essa mesma lei em outros momentos, o que se sugere é que se trata da lei da hospitalidade com estrangeiros. O problema é que os gregos não estavam visitando Troia, estavam em guerra com os troianos. A lei que regia aquele contexto era a da guerra, não a da hospitalidade. Por isso é perfeitamente possível ler o cavalo de Troia pela perspectiva oposta: a de que isso encerrou a guerra, poupando vidas dos dois lados, já que a alternativa era a matança seguir indefinidamente.
É uma hipótese óbvia, e chama atenção que um personagem tão inteligente e sagaz quanto Odisseu não a tenha considerado, resolvendo assim seu drama de consciência, até com certa facilidade. Afinal, é burrice julgar atos de guerra por critérios de hospitalidade, e esse não é um detalhe do roteiro, é central para o filme inteiro: torna Odisseu inverossímil como sujeito inteligente. Acaba caracterizado mais como um “bom homem” arrependido de seu pecado e traumatizado. É por isso que, no fundo, não quer voltar para casa.
Como disse acima, Atena é mais seu superego do que uma deusa — e, se a causa real de Odisseu não voltar é sua culpa, a punição de Poseidon também se torna mais um castigo do mesmo superego. Os deuses são funções psíquicas de Odisseu, nada além disso. A de Atena acaba sendo a de uma terapeuta que aos poucos faz com que Odisseu confesse a culpa reprimida. Cumprido seu papel, Atena desaparece.

Tudo isso, claro, embaladinho na surrada fórmula da jornada do herói que, paradoxalmente, pouco serve para compreender os heróis da antiguidade, especialmente os de Homero.
Quer entender melhor essa diferença? Vale a pena ler Bernardo Lins Brandão, que resume com clareza o que é um herói como Odisseu: para os antigos, o que define o herói não é o sacrifício, mas a ascendência divina. É ela que o torna mais forte e mais capaz do que os demais mortais, ainda que mortal. O que o move não é o desejo do bem, mas a busca pelo kléos, a glória das façanhas.
É por habitar essa fronteira entre o humano e o divino que o herói antigo tende a ultrapassar os limites que separam os homens dos deuses, cometendo a hybris que atrai sobre ele a punição divina.
O Odisseu de Nolan se move por outra lógica: pelo desejo do bem. E, como cometeu o mal, sente-se culpado. Como se redimir dessa culpa? É aí que a estrutura da jornada do herói revela sua origem real: como observa Brandão, essa estrutura — grande aventura, morte simbólica, sacrifício redentor, renascimento transformado — é, no fundo, “imitação da vida de Cristo”.
Sim, imitação de Cristo, você não leu errado. O Odisseu de Nolan só volta para casa depois de morrer simbolicamente, entregando-se ao mar de Poseidon. Em seu palácio, realiza o sacrifício matando os pretendentes de Penélope, e tem seu final redentor navegando em direção ao sol poente com a esposa, para enfim honrar os homens caídos em batalha.
Mas se a jornada do herói é, na estrutura, uma imitação da vida de Cristo, basta olhar para qualquer narrativa construída sobre ela — como o filme de Nolan — para perceber que é uma imitação da vida de Cristo sem Cristo. Nela, o herói se redime pelo próprio sacrifício, não pela graça de uma divindade, como nos épicos antigos.
É um corpo cristão sem alma cristã: a culpa é evidente, o sacrifício é evidente, mas a graça desaparece, e o que sobra é o mérito da humildade do herói que assume suas culpas, paga por seus erros e tem um “final feliz”. É, no fim das contas, uma psicologização do cristianismo.
Aqui cabem dois julgamentos diferentes, e vale separá-los.
O primeiro é de gosto: estou cansado da estética grandiloquente de Nolan, do excesso de acinzentado na tela, da seriedade constante de tudo, tensionada por uma trilha sonora que faz parecer tudo mais grave, e das correspondentes expressões faciais de hemorroida contida dos atores. Mas se você gosta do estilo do diretor e não se cansou como eu, provavelmente vai gostar do filme.
O segundo julgamento é estrutural, e esse eu sustento independentemente do gosto: o filme repete fórmulas que Nolan já usou em outros trabalhos. A primeira parte, a de Telêmaco, tem a mesma “vibe” do jovem Bruce Wayne na trilogia do seu Batman, com o mesmo uso de luz e trevas emoldurando uma narrativa de formação. O drama de consciência de Odisseu, por sua vez, é o mesmo de Oppenheimer: “ai, acabei com a civilização, oh, não!, salvem-se de mim!”.
Há poucos momentos realmente inspirados, como a caracterização de Polifemo devorando os soldados de Odisseu, que remete à pintura “Saturno devorando seus filhos”, de Goya. No mais, os pontos fortes do filme não vêm de Nolan, vêm do que ele preserva da Odisseia de Homero. É o suficiente para fazer dele uma aventura acima da média do gênero sessão da tarde, não mais que isso.
Há quem considere que, se o filme levar as pessoas a lerem a Odisseia original, já terá valido a pena. Talvez — espero que sim, de verdade. Mas isso não muda a conclusão estrutural: o filme é um desperdício do material original. Homero continua sem uma adaptação cinematográfica minimamente digna dele.
Em uma das cenas ainda no início do filme, Penélope e Telêmaco conversam na sacada do palácio. A rainha diz algo assim: que a construção, a casa, as pedras, eram as mesmas de sempre, de décadas, séculos, imemoriais talvez. Mas acrescenta que deixariam de ser se o significado delas não fosse mantido.
É o que Christopher Nolan fez com a Odisseia de Homero: manteve várias partes, mas rearranjou diferente e mudou o significado do conjunto. No que segue, é claro que haverá spoilers. Então, se você é um spoilerfóbico, recomendo ler o artigo somente depois de assistir.
A diferença mais relevante diz respeito aos deuses. Não há deuses na Odisseia de Nolan. E são eles, na obra original, quem definem os destinos dos homens, de maneira clara, explícita, não como uma suposição da fé humana.
Sim, Atena aparece no filme, mas não como a deusa que convenceu Zeus a permitir o retorno de Odisseu e o auxilia decisivamente na sua volta. Não, Atena surge como o superego de Odisseu e desaparece quando a reintegração da consciência se completa ao confessar sua culpa a Penélope (trato disso mais adiante).
Culpa que não tem a ver com o fato de Odisseu ter sido infiel, na Odisseia original, relacionando-se com Circe e Calipso. No filme, ele não fica com Circe e, com Calipso, estava enfeitiçado o tempo todo, sem saber sequer que tinha esposa e filho. E Nolan apagou a existência dos feácios e, com eles, de Nausícaa, a princesa que se torna um teste de fidelidade para Odisseu antes de seu retorno. A consequência é tornar Odisseu um homem melhor do que era.
Mais ainda quando vemos que sua culpa tampouco tem a ver com seu orgulho desmedido. Evento crucial no épico é a forma como Odisseu escapa de Polifemo, o ciclope. Seu orgulho desmedido, a tal da hybris, não o deixa ir embora sem que Polifemo saiba que foi Odisseu quem o enganou com sua astúcia, fazendo se passar por “Ninguém”. Mas a glória do feito tem de ser de Odisseu, não de ninguém. E é por dizer quem era que Poseidon consegue puni-lo, impedindo seu retorno para casa durante tantos anos.

No filme, Odisseu nunca foi “Ninguém”. Nolan deliberadamente modificou esta parte, mudando, com isso, todo o sentido da “culpa” do protagonista, deslocando-a para outra coisa, inexistente na obra original.
Há outras mudanças importantes, mas creio que essas bastam para demonstrar quão diferentes são as Odisseias de Homero e Nolan. Isso não quer dizer que o filme seja ruim por ser infiel ao original. Quer dizer, apenas, que o filme não é fiel ao original.
Nolan se baseou na tradução para o inglês feita por Emily Wilson, que faz uma série de modificações que desnaturam Odisseu e o épico como um todo. O herói deixa de ser astucioso, engenhoso, para ser “a complicated man”, um homem complicado, no sentido de complexo.
Em sua introdução e notas à sua versão, Emily considera o protagonista como um mentiroso compulsivo e um narrador pouco confiável. São Odisseus muito diferentes, portanto, os de Homero e o inventado por Emily, que demonstrou mais simpatia, pelas escolhas lexicais que fez, com o ciclope e os lestrigões do que com o protagonista. Também resumiu passagens inteiras, achatou a grandiosidade épica e a imponência divina para uma dimensão psicologizante, usando uma linguagem mais comum, seca, anacrônica em vários momentos.
Nolan seguiu nessa psicologização, mas não rebaixou Odisseu como a tradutora. Ao contrário. Como visto acima, retrata-o como sendo melhor do que era, mais nobre, parecendo mais prudente do que astuto. Sua culpa, aliás, também confirma essa nobreza. Porque Odisseu se sente culpado por algo muito mais sério do que infidelidade conjugal ou orgulho desmedido, mas por ter tido a ideia do cavalo de Troia e, por isso, causado a morte de centenas ou milhares de pessoas.

Odisseu considera que sua ideia foi contra a “lei de Zeus”. Mas que lei seria essa? O filme não explica. Pelas demais referências feitas a essa mesma lei em outros momentos, o que se sugere é que se trata da lei da hospitalidade com estrangeiros. O problema é que os gregos não estavam visitando Troia, estavam em guerra com os troianos. A lei que regia aquele contexto era a da guerra, não a da hospitalidade. Por isso é perfeitamente possível ler o cavalo de Troia pela perspectiva oposta: a de que isso encerrou a guerra, poupando vidas dos dois lados, já que a alternativa era a matança seguir indefinidamente.
É uma hipótese óbvia, e chama atenção que um personagem tão inteligente e sagaz quanto Odisseu não a tenha considerado, resolvendo assim seu drama de consciência, até com certa facilidade. Afinal, é burrice julgar atos de guerra por critérios de hospitalidade, e esse não é um detalhe do roteiro, é central para o filme inteiro: torna Odisseu inverossímil como sujeito inteligente. Acaba caracterizado mais como um “bom homem” arrependido de seu pecado e traumatizado. É por isso que, no fundo, não quer voltar para casa.
Como disse acima, Atena é mais seu superego do que uma deusa — e, se a causa real de Odisseu não voltar é sua culpa, a punição de Poseidon também se torna mais um castigo do mesmo superego. Os deuses são funções psíquicas de Odisseu, nada além disso. A de Atena acaba sendo a de uma terapeuta que aos poucos faz com que Odisseu confesse a culpa reprimida. Cumprido seu papel, Atena desaparece.

Tudo isso, claro, embaladinho na surrada fórmula da jornada do herói que, paradoxalmente, pouco serve para compreender os heróis da antiguidade, especialmente os de Homero.
Quer entender melhor essa diferença? Vale a pena ler Bernardo Lins Brandão, que resume com clareza o que é um herói como Odisseu: para os antigos, o que define o herói não é o sacrifício, mas a ascendência divina. É ela que o torna mais forte e mais capaz do que os demais mortais, ainda que mortal. O que o move não é o desejo do bem, mas a busca pelo kléos, a glória das façanhas.
É por habitar essa fronteira entre o humano e o divino que o herói antigo tende a ultrapassar os limites que separam os homens dos deuses, cometendo a hybris que atrai sobre ele a punição divina.
O Odisseu de Nolan se move por outra lógica: pelo desejo do bem. E, como cometeu o mal, sente-se culpado. Como se redimir dessa culpa? É aí que a estrutura da jornada do herói revela sua origem real: como observa Brandão, essa estrutura — grande aventura, morte simbólica, sacrifício redentor, renascimento transformado — é, no fundo, “imitação da vida de Cristo”.
Sim, imitação de Cristo, você não leu errado. O Odisseu de Nolan só volta para casa depois de morrer simbolicamente, entregando-se ao mar de Poseidon. Em seu palácio, realiza o sacrifício matando os pretendentes de Penélope, e tem seu final redentor navegando em direção ao sol poente com a esposa, para enfim honrar os homens caídos em batalha.
Mas se a jornada do herói é, na estrutura, uma imitação da vida de Cristo, basta olhar para qualquer narrativa construída sobre ela — como o filme de Nolan — para perceber que é uma imitação da vida de Cristo sem Cristo. Nela, o herói se redime pelo próprio sacrifício, não pela graça de uma divindade, como nos épicos antigos.
É um corpo cristão sem alma cristã: a culpa é evidente, o sacrifício é evidente, mas a graça desaparece, e o que sobra é o mérito da humildade do herói que assume suas culpas, paga por seus erros e tem um “final feliz”. É, no fim das contas, uma psicologização do cristianismo.
Aqui cabem dois julgamentos diferentes, e vale separá-los.
O primeiro é de gosto: estou cansado da estética grandiloquente de Nolan, do excesso de acinzentado na tela, da seriedade constante de tudo, tensionada por uma trilha sonora que faz parecer tudo mais grave, e das correspondentes expressões faciais de hemorroida contida dos atores. Mas se você gosta do estilo do diretor e não se cansou como eu, provavelmente vai gostar do filme.
O segundo julgamento é estrutural, e esse eu sustento independentemente do gosto: o filme repete fórmulas que Nolan já usou em outros trabalhos. A primeira parte, a de Telêmaco, tem a mesma “vibe” do jovem Bruce Wayne na trilogia do seu Batman, com o mesmo uso de luz e trevas emoldurando uma narrativa de formação. O drama de consciência de Odisseu, por sua vez, é o mesmo de Oppenheimer: “ai, acabei com a civilização, oh, não!, salvem-se de mim!”.
Há poucos momentos realmente inspirados, como a caracterização de Polifemo devorando os soldados de Odisseu, que remete à pintura “Saturno devorando seus filhos”, de Goya. No mais, os pontos fortes do filme não vêm de Nolan, vêm do que ele preserva da Odisseia de Homero. É o suficiente para fazer dele uma aventura acima da média do gênero sessão da tarde, não mais que isso.
Há quem considere que, se o filme levar as pessoas a lerem a Odisseia original, já terá valido a pena. Talvez — espero que sim, de verdade. Mas isso não muda a conclusão estrutural: o filme é um desperdício do material original. Homero continua sem uma adaptação cinematográfica minimamente digna dele.
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