Existe uma crise da masculinidade.
Que essa afirmação ainda cause desconforto em certos ambientes (ah, o horror!) é, por si só, o diagnóstico mais eloquente que se poderia oferecer. Culturas saudáveis não precisam interditar as perguntas sobre si mesmas. Quando uma civilização começa a tratar certas constatações como obscenidades, normalmente é porque elas deixaram de ser opiniões e se tornaram sintomas.
No livro Leaving a Legacy, Johann Kurtz argumenta que a crise de masculinidade é, antes de tudo, uma crise de stewardship: a dissolução da consciência de que aquilo que possuímos, sejamos ricos ou pobres, nos foi confiado e deve ser transmitido. Riqueza, força e autoridade são formas de dominion no sentido bíblico, mas não se sustentam por si mesmas. Elas dependem de uma rede de relações, deveres e heranças que as torna inteligíveis.
O problema, portanto, não está nos homens enquanto tais, como se “o macho” fosse uma doença congênita da civilização (e esse é o erro feminista), mas na dissolução das raízes que tornavam a masculinidade legível.
Já não existe uma moral compartilhada recebida pela comunidade, justificada pela tradição, encarnada pela família, que permita que o menino entenda o caminho que deve seguir. E assim, o homem moderno, desenraizado e lançado nessa massa amorfa que insistimos em chamar de metrópole, ficou sem qualquer auxílio que o valha.
Esse vazio tem uma forma. Uma forma que, mais frequentemente que a filosofia — mais hábil para capturar a ordem do que a negatividade —, a ficção consegue cartografar com precisão. E esse é o caso curioso de Uma Batalha Após a Outra, filme ganhador do Oscar.
Para entender melhor tudo isso, precisaremos misturar Johann Kurtz, Leonardo DiCaprio e cursos sobre como ser homem; de modo que, depois disso, eu mesma termine merecendo uma estatueta.
***
O personagem de DiCaprio, “Rocketman” Pat Calhoun — cujo codinome já é uma confissão involuntária —, é um militante revolucionário que vive uma relação intensa e fragmentada com Perfidia Beverly Hills. Mas quando Perfidia engravida, “escolhe” recusar a vida doméstica para continuar perseguindo as glórias da revolução, abandonando Pat com o bebê.
É só então que a história realmente começa. Pat Calhoun se torna Bob Ferguson, de revolucionário para pai, recebendo não só um novo documento de identificação, como também um desafio mais exigente: renascer em uma nova identidade sem nenhum modelo que o prepare para isso.

Há nele algo de profundamente prosaico e, por isso mesmo, profundamente reconhecível. Tudo em sua formação anterior o preparou apenas para a fuga, a explosão ou a fantasia revolucionária. E então, do dia para a noite, Bob se vê sozinho, responsável por uma alma pequena e vulnerável que depende inteiramente dele.
Quando o reencontramos, ele é um homem devastado: paranoico, maconheiro, isolado, superprotetor e meio patético. Bob ama a filha, mas é um pai confuso, quebrado, incapaz de sustentar uma autoridade verdadeira.
Ele é um homem bom que está perdido. E essa é uma categoria muito diferente do homem mau, embora o Zeitgeist prefira não fazer distinções tão inconvenientes.
***
É frequente que o homem nessa situação tente reconstruir a masculinidade a partir de seus próprios destroços. Por isso, a resposta mais comum à crise masculina ganha a forma daquilo que a tragédia grega chamaria simplesmente de hybris.
A hybris grega é a crença na própria onipotência, a tentação de tornar-se divino, a cegueira do homem que imagina poder fundar a si mesmo e ordenar o mundo a partir da própria vontade. Pouco importa se esse homem se chama Édipo, Otelo, ou qualquer nome mais Vila Madalena e menos poético. A estrutura é a mesma, ele sempre tenta dominar aquilo que deveria primeiro aprender a receber.
A tragédia revela (deveria alertar, pelo menos) que o homem que perdeu o fio condutor da própria masculinidade jamais será capaz de reencontrá-lo pela performance da força. Ele só pode ser reintegrado pelo contato com uma ordem que o precede e que, justamente por precedê-lo, pode orientá-lo.
Há um paradoxo paulino no coração disso – “o poder se aperfeiçoa na fraqueza” —, e ele é tão contraintuitivo que cada geração parece precisar redescobri-lo por conta própria, normalmente depois de ter tentado todas as alternativas.
Como Kurtz sustenta, restaurar o dominion sem restaurar o stewardship que lhe dá sentido produz apenas sua caricatura, e é exatamente isso que os movimentos masculinistas mais ruidosos entregam. A autoridade sem mediação é só barulho. E a mediação, no sentido mais concreto e mais exigente do termo, tem outro nome: caridade. Ou seja, o relacionamento direto, pessoal e custoso com o outro.
Bob, aos tropeços, demonstra essa verdade (de forma tão sutil que é até difícil saber se é intencional). Ele se reconstrói através do difícil vínculo com a filha. E mesmo quando descobre que ela não é biologicamente sua, isso não muda nada. A paternidade que ele construiu não depende do sangue, mas da escolha repetida de compreender “e quem é o meu próximo?”. É esse vínculo concreto que o arranca da fantasia revolucionária e o devolve à realidade.1
Quando o filme termina, Bob ainda é um homem em construção, mas já é um homem orientado, o que é uma distinção importante.
***
Como um personagem hollywoodiano, estranho e mal ajambrado, pode representar tão perfeitamente a situação do homem urbano perdido, esmagado pelo peso de suas próprias escolhas?
Por muitos caminhos, o filme poderia ser classificado como sátira, o que não estaria errado. Toda sátira pressupõe um padrão moral a partir do qual a realidade retratada aparece como absurda ou corrupta. E, como Francisco Escorsim esclarece em seu artigo, esse certamente tem o seu, com a diferença notável de que o contraste não se dá entre esta ou aquela ideologia, mas entre todas elas e aquilo que nenhuma consegue metabolizar sem pagar o preço de se tornar desumana: o mais simples e natural bom senso.2
Mas há algo no filme que excede a sátira, ou talvez a corrija. A sátira ainda pressupõe um crítico, alguém que ocupa o lugar de quem sabe, que exagera a realidade para revelar algo sobre ela e, nesse exagero, embute uma lição. Em Uma Batalha Após a Outra, esse lugar está vazio. Não há lição a ser extraída porque não há ninguém fora do absurdo para extraí-la.
O que resta, quando nem a crítica nem a revelação conseguem representar uma realidade, é a farsa — e é nessa farsa que o homem desenraizado aparece em toda a sua dimensão trágica e, por que não, cômica.
***
Essa é a farsa niilista — resultado da ruptura moderna do eixo vertical de ordem, da corrupção do Logos, da dissolução da hierarquia inteligível que tornava a masculinidade transmissível. 3
Se é verdade que a ordem e a hierarquia são necessidades vitais da alma, é também verdade que o homem que não as recebeu buscará ansiosamente por esse alimento. E, se não as encontrar na verdadeira caridade — o vínculo pessoal, encarnado, custoso — recorrerá às formas mais ou menos desordenadas do mesmo princípio.
É aí que entram os cursos, as palestras refinadas por funis de vendas, os guias que prometem devolver o que a modernidade levou. Sintoma tardio de uma cultura que já não sabe formar homens, mas ainda precisa fingir que sabe vendê-los.
O que não significa dizer que todas as propostas sejam más por natureza. Elas refletem um desejo legítimo da alma, e muitos homens estão sendo movidos pelo espírito certo, ainda que por caminhos imperfeitos. Um guia imperfeito que aponta na direção certa vale mais do que uma teoria perfeita que não leva a lugar algum — desde que ele saiba, no momento certo, abrir a mão.
Bob, no final do filme, deixa a filha partir para um caminho que ele sabe ser amargo. Esse gesto, que à primeira vista parece uma concessão ao espírito do tempo, ecoa a conclusão de Kurtz: só pode libertar quem construiu algo suficientemente sólido para sobreviver sem ele.

O que se espera de um guia, no fim, não é que você o siga para sempre. É que ele te deixe partir sem que você se perca.
Essa é a verdadeira medida de um legado.
Leia mais de Débora Luciano: A mulher independente e o preço que ninguém quer pagar
Existe uma crise da masculinidade.
Que essa afirmação ainda cause desconforto em certos ambientes (ah, o horror!) é, por si só, o diagnóstico mais eloquente que se poderia oferecer. Culturas saudáveis não precisam interditar as perguntas sobre si mesmas. Quando uma civilização começa a tratar certas constatações como obscenidades, normalmente é porque elas deixaram de ser opiniões e se tornaram sintomas.
No livro Leaving a Legacy, Johann Kurtz argumenta que a crise de masculinidade é, antes de tudo, uma crise de stewardship: a dissolução da consciência de que aquilo que possuímos, sejamos ricos ou pobres, nos foi confiado e deve ser transmitido. Riqueza, força e autoridade são formas de dominion no sentido bíblico, mas não se sustentam por si mesmas. Elas dependem de uma rede de relações, deveres e heranças que as torna inteligíveis.
O problema, portanto, não está nos homens enquanto tais, como se “o macho” fosse uma doença congênita da civilização (e esse é o erro feminista), mas na dissolução das raízes que tornavam a masculinidade legível.
Já não existe uma moral compartilhada recebida pela comunidade, justificada pela tradição, encarnada pela família, que permita que o menino entenda o caminho que deve seguir. E assim, o homem moderno, desenraizado e lançado nessa massa amorfa que insistimos em chamar de metrópole, ficou sem qualquer auxílio que o valha.
Esse vazio tem uma forma. Uma forma que, mais frequentemente que a filosofia — mais hábil para capturar a ordem do que a negatividade —, a ficção consegue cartografar com precisão. E esse é o caso curioso de Uma Batalha Após a Outra, filme ganhador do Oscar.
Para entender melhor tudo isso, precisaremos misturar Johann Kurtz, Leonardo DiCaprio e cursos sobre como ser homem; de modo que, depois disso, eu mesma termine merecendo uma estatueta.
***
O personagem de DiCaprio, “Rocketman” Pat Calhoun — cujo codinome já é uma confissão involuntária —, é um militante revolucionário que vive uma relação intensa e fragmentada com Perfidia Beverly Hills. Mas quando Perfidia engravida, “escolhe” recusar a vida doméstica para continuar perseguindo as glórias da revolução, abandonando Pat com o bebê.
É só então que a história realmente começa. Pat Calhoun se torna Bob Ferguson, de revolucionário para pai, recebendo não só um novo documento de identificação, como também um desafio mais exigente: renascer em uma nova identidade sem nenhum modelo que o prepare para isso.

Há nele algo de profundamente prosaico e, por isso mesmo, profundamente reconhecível. Tudo em sua formação anterior o preparou apenas para a fuga, a explosão ou a fantasia revolucionária. E então, do dia para a noite, Bob se vê sozinho, responsável por uma alma pequena e vulnerável que depende inteiramente dele.
Quando o reencontramos, ele é um homem devastado: paranoico, maconheiro, isolado, superprotetor e meio patético. Bob ama a filha, mas é um pai confuso, quebrado, incapaz de sustentar uma autoridade verdadeira.
Ele é um homem bom que está perdido. E essa é uma categoria muito diferente do homem mau, embora o Zeitgeist prefira não fazer distinções tão inconvenientes.
***
É frequente que o homem nessa situação tente reconstruir a masculinidade a partir de seus próprios destroços. Por isso, a resposta mais comum à crise masculina ganha a forma daquilo que a tragédia grega chamaria simplesmente de hybris.
A hybris grega é a crença na própria onipotência, a tentação de tornar-se divino, a cegueira do homem que imagina poder fundar a si mesmo e ordenar o mundo a partir da própria vontade. Pouco importa se esse homem se chama Édipo, Otelo, ou qualquer nome mais Vila Madalena e menos poético. A estrutura é a mesma, ele sempre tenta dominar aquilo que deveria primeiro aprender a receber.
A tragédia revela (deveria alertar, pelo menos) que o homem que perdeu o fio condutor da própria masculinidade jamais será capaz de reencontrá-lo pela performance da força. Ele só pode ser reintegrado pelo contato com uma ordem que o precede e que, justamente por precedê-lo, pode orientá-lo.
Há um paradoxo paulino no coração disso – “o poder se aperfeiçoa na fraqueza” —, e ele é tão contraintuitivo que cada geração parece precisar redescobri-lo por conta própria, normalmente depois de ter tentado todas as alternativas.
Como Kurtz sustenta, restaurar o dominion sem restaurar o stewardship que lhe dá sentido produz apenas sua caricatura, e é exatamente isso que os movimentos masculinistas mais ruidosos entregam. A autoridade sem mediação é só barulho. E a mediação, no sentido mais concreto e mais exigente do termo, tem outro nome: caridade. Ou seja, o relacionamento direto, pessoal e custoso com o outro.
Bob, aos tropeços, demonstra essa verdade (de forma tão sutil que é até difícil saber se é intencional). Ele se reconstrói através do difícil vínculo com a filha. E mesmo quando descobre que ela não é biologicamente sua, isso não muda nada. A paternidade que ele construiu não depende do sangue, mas da escolha repetida de compreender “e quem é o meu próximo?”. É esse vínculo concreto que o arranca da fantasia revolucionária e o devolve à realidade.1
Quando o filme termina, Bob ainda é um homem em construção, mas já é um homem orientado, o que é uma distinção importante.
***
Como um personagem hollywoodiano, estranho e mal ajambrado, pode representar tão perfeitamente a situação do homem urbano perdido, esmagado pelo peso de suas próprias escolhas?
Por muitos caminhos, o filme poderia ser classificado como sátira, o que não estaria errado. Toda sátira pressupõe um padrão moral a partir do qual a realidade retratada aparece como absurda ou corrupta. E, como Francisco Escorsim esclarece em seu artigo, esse certamente tem o seu, com a diferença notável de que o contraste não se dá entre esta ou aquela ideologia, mas entre todas elas e aquilo que nenhuma consegue metabolizar sem pagar o preço de se tornar desumana: o mais simples e natural bom senso.2
Mas há algo no filme que excede a sátira, ou talvez a corrija. A sátira ainda pressupõe um crítico, alguém que ocupa o lugar de quem sabe, que exagera a realidade para revelar algo sobre ela e, nesse exagero, embute uma lição. Em Uma Batalha Após a Outra, esse lugar está vazio. Não há lição a ser extraída porque não há ninguém fora do absurdo para extraí-la.
O que resta, quando nem a crítica nem a revelação conseguem representar uma realidade, é a farsa — e é nessa farsa que o homem desenraizado aparece em toda a sua dimensão trágica e, por que não, cômica.
***
Essa é a farsa niilista — resultado da ruptura moderna do eixo vertical de ordem, da corrupção do Logos, da dissolução da hierarquia inteligível que tornava a masculinidade transmissível. 3
Se é verdade que a ordem e a hierarquia são necessidades vitais da alma, é também verdade que o homem que não as recebeu buscará ansiosamente por esse alimento. E, se não as encontrar na verdadeira caridade — o vínculo pessoal, encarnado, custoso — recorrerá às formas mais ou menos desordenadas do mesmo princípio.
É aí que entram os cursos, as palestras refinadas por funis de vendas, os guias que prometem devolver o que a modernidade levou. Sintoma tardio de uma cultura que já não sabe formar homens, mas ainda precisa fingir que sabe vendê-los.
O que não significa dizer que todas as propostas sejam más por natureza. Elas refletem um desejo legítimo da alma, e muitos homens estão sendo movidos pelo espírito certo, ainda que por caminhos imperfeitos. Um guia imperfeito que aponta na direção certa vale mais do que uma teoria perfeita que não leva a lugar algum — desde que ele saiba, no momento certo, abrir a mão.
Bob, no final do filme, deixa a filha partir para um caminho que ele sabe ser amargo. Esse gesto, que à primeira vista parece uma concessão ao espírito do tempo, ecoa a conclusão de Kurtz: só pode libertar quem construiu algo suficientemente sólido para sobreviver sem ele.

O que se espera de um guia, no fim, não é que você o siga para sempre. É que ele te deixe partir sem que você se perca.
Essa é a verdadeira medida de um legado.
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