Saudação improvisada do Santo Padre ás famílias residentes em Casavalle
A bênção de Deus manifesta-se de muitas formas. Hoje queremos pedir a sua bênção para cada família aqui representada, seus entes queridos e todas as famílias que vivem nesta zona.
Recebemos uma bênção especial sempre que nos reunimos em comunidade e aprendemos a trabalhar juntos, a colaborar num projeto comum e a afirmar que a vida é importante, que a nossa fé nos sustenta e que queremos ser fiéis a Jesus, o nosso melhor amigo.
O Senhor esteja convosco. Que a bênção de Deus Todo-Poderoso, Pai, Filho e Espírito Santo, desça sobre vós. Ámen.
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Discurso do Santo Padre
Queridos irmãos e irmãs, boa tarde!
É para mim uma grande alegria poder visitar esta paróquia, este bairro, percorrer as ruas e conhecer as obras que foram realizadas com tanto esforço. Ao vê-las, sinto-me em casa, recordando as visitas a diferentes comunidades como missionário. Agradeço ao Cardeal Daniel Sturla, Arcebispo de Montevidéu, ao Pe. Pablo Coimbra, pároco desta comunidade, e à senhora Carmen Albana Sanz pelas suas palavras de boas-vindas; e a todos vós pela vossa presença aqui hoje e por terdes preparado este encontro com tanto entusiasmo. De forma especial, quero agradecer àqueles que deram os seus testemunhos, abrindo os seus corações para partilhar conosco o triunfo da vida, da fé e da esperança: Obrigado Angélica, Alan e Katherine.
Esta paróquia é dedicada a Nossa Senhora de Guadalupe, que foi declarada pelos meus antecessores “Padroeira da América Latina” e “Imperatriz das Américas”. A presença amorosa da nossa Mãe do céu neste continente convida-nos a olhar para além da realidade que nos rodeia, a ver para além das fronteiras e, elevando o olhar, a abrir os nossos corações às realidades eternas. Da mesma forma, Maria ensina-nos a fazer o que o seu Filho Jesus nos diz (cf. Jo 2, 5), e essa é a missão das paróquias: ser como um farol que sinalize a presença de Jesus Cristo, oferecendo a todos a luz da Palavra de Deus, o auxílio dos Sacramentos, o apoio da oração e o bálsamo da caridade fraterna. Nesta comunidade paroquial foi levado a cabo um projeto de construção de várias habitações destinadas a famílias de baixos rendimentos. Alegre-me ter contribuído para esta bonita iniciativa através dos benfeitores da Papal Foundation, a quem agradeço sinceramente pela generosidade. Que estas casas sejam para as suas famílias muito mais do que um teto: um verdadeiro lar onde possam crescer com dignidade, paz e esperança, sentindo sempre a proximidade e o amor de Deus.
Quero partilhar convosco uma história – certamente conhecida – que Jesus contou aos seus discípulos: refiro-me à parábola do bom samaritano (cf. Lc 10, 29-37). Nela conta-se que um homem «caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto» (v. 30). Este acontecimento foi muito lamentável e injusto. À terrível agressão sofrida pelo homem que caminhava pela estrada, ainda se juntou a dor causada pela indiferença daqueles que, mesmo vendo-o necessitado, passaram ao largo (cf. vv. 31-32). Mas a história não termina aí; no relato acende-se uma luz de esperança: um samaritano, ao vê-lo, comoveu-se, aproximou-se, curou-lhe as feridas, levou-o a uma estalagem e providenciou os meios necessários para os seus cuidados e recuperação (cf. vv. 33-35).
Queridos irmãos e irmãs, também hoje podemos ver esta história repetir-se diversas vezes nos muitos casos de insegurança e violência que, infelizmente, ameaçam a paz dos nossos bairros e até mesmo a vida dos nossos entes queridos, aos quais a sociedade tantas vezes responde com indiferença. Ao mesmo tempo, podemos ver o outro lado, ou seja, a ação de numerosas instituições e pessoas de bom coração que contribuem para promover a paz e ajudam as pessoas a suprir as suas necessidades de forma concreta. Um exemplo luminoso é a vida dedicada do Padre Cacho, que soube construir pontes, derrubar muros e promover o encontro, como nos contou a Angélica no seu testemunho.
Precisamos de continuar a apostar na proximidade caritativa do bom samaritano que, ao perceber o infortúnio alheio, não ficou indiferente, mas assumiu a responsabilidade pela vida do seu irmão. Não podemos passar ao largo quando sabemos que há crianças no Uruguai que não vão à escola por medo de não voltarem. Não podemos silenciar a nossa consciência quando constatamos que uma mãe não tem meios para alimentar os seus filhos. Não podemos ignorar que, à nossa volta, há muitas pessoas que sofrem, estão sozinhas e vulneráveis. Ouvimo-lo em primeira mão, nas palavras comoventes de Katherine. Um filho deste país, tão rico em recursos, não deveria deitar-se sem comer, nem deveria renunciar a uma educação e um futuro dignos devido à insegurança que reina nas ruas. Muito menos deveria sofrer violência a ponto de perder a vida.
Temos de trabalhar unidos: a Igreja, a sociedade civil e o Estado. É preciso despertar da nossa inércia e defender o bem comum. Foi a experiência que o Alan partilhou conosco: hoje oferece gratuitamente aquilo que, por sua vez, recebeu. Cabe-nos a decisão de construir uma nova cidade, na qual ninguém seja excluído, ou de continuarmos confortavelmente mergulhados, cada um nos seus assuntos. O Papa Francisco dizia-nos que «a inclusão ou exclusão da pessoa que sofre na margem da estrada define todos os projetos económicos, políticos, sociais e religiosos. Dia a dia enfrentamos a opção de ser bons samaritanos ou viandantes indiferentes que passam ao largo» (Carta enc. Fratelli tutti, 69).
A missão da Igreja nasce da caridade evangélica, «que a impele a aproximar-se das feridas da humanidade quando se manifestam com maior gravidade. Ao intervir, fá-lo imitando o bom Samaritano, com discrição e proximidade, consciente de que, quanto surge duma necessidade imediata não pode transformar-se em norma, nem substituir as responsabilidades institucionais próprias da comunidade civil» (Carta enc. Magnifica humanitas, 21). Unamos, portanto, os nossos esforços e respondamos com generosidade ao apelo para construirmos juntos uma pátria de irmãos.
Queridos amigos, a parábola do bom samaritano conclui-se com esta exortação de Jesus: «Vai e faz tu também o mesmo» (Lc 10, 37). Trata-se de um mandamento que cada cristão deve ouvir ressoar todos os dias no seu coração (cf. Exort. ap. Dilexi te, 107). Deixemos que estas palavras nos renovem e impulsionem a continuar juntos a construção duma nova cidade, onde reinem o amor e a paz. Que Deus vos abençoe e que a nossa Mãe de Guadalupe, por quem nutro especial afeto e veneração pois na sua festa recebi a ordenação episcopal, vos proteja com o seu manto celestial. Muito obrigado.
Foto e documento originais do Dicastério para a Comunicação (Vaticano), reproduzido na íntegra.
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