NoVEMblack (TOPO) : NoVEMblack (TOPO) Saiba mais

ArtigoCatolicismo

Homilia do Papa Leão XIV na missa em Paysandú

Por Redação Lumine
08 de nov de 20268 min de leitura
Homilia do Papa Leão XIV na missa em Paysandú

Queridos irmãos e irmãs,

Esta é a primeira Missa da minha viagem que celebro em solo uruguaio. Obrigado por estar aqui! As leituras que ouvimos descrevem-nos a figura de um homem justo, a quem o Senhor ajuda e fortalece para que leve a cabo a missão que lhe foi confiada. Na Carta que escreve aos filipenses, São Paulo agradece o apoio da comunidade à sua ação missionária, consciente de que, na sua pobreza, Deus é toda a sua riqueza e a sua Divina Providência se manifesta através dos irmãos a quem foi enviado.

O Salmo, por sua vez, chama bem-aventurado àquele que ama a lei do Senhor e cujas obras são coerentes com a sua fé. Da mesma forma, Jesus, no Evangelho, valoriza o homem íntegro, que serve a Deus e o coloca no centro da sua vida, sendo fiel em tudo o que lhe é confiado, tanto assunto de grande como de pequena importância.

Hoje, reunidos aqui em Paysandú para celebrar a Eucaristia, com a alegria de reunir à volta da mesma mesa tantos fiéis da Igreja uruguaia, bem como peregrinos vindos de países irmãos, a liturgia da Palavra leva-nos a recordar a presença, nestas terras do Rio da Prata, de tantas pessoas de fé que, desde os primórdios da evangelização do continente, vieram em nome do Senhor para anunciar a grande alegria que eles próprios tinham experimentado ao encontrar-se com Cristo. Eles – tal como os anjos aos pastores (cf. Lc 2, 10) – transmitiram com alegria a boa nova do Evangelho, expressando a sua fé por meio de obras de caridade e misericórdia.

Nesta celebração, queremos também recordar e dar graças a Deus pela vida e ministério de um filho destas terras, o Beato Jacinto Vera, Bispo de Montevidéu, que foi uma testemunha coerente da fé que anunciava, generoso na caridade e totalmente dedicado à missão apostólica. Demonstrou o seu zelo pastoral em todas as direções e sem poupar sacrifícios. Por exemplo, ia a cavalo visitar os doentes, apesar das grandes distâncias, dos perigos do caminho e das intempéries. O Bispo gaucho percorreu três vezes o território uruguaio, levando fé e esperança aos seus habitantes. Durante a histórica Defesa de Paysandú, em 1864, Dom Vera instalou-se na Ilha da Caridade, em frente à cidade sitiada, para atender refugiados e feridos de ambos os lados. Lá permaneceu até ao fim do cerco para acompanhar o seu povo, suplicando em nome de Deus que os exércitos de irmãos se abraçassem fraternalmente.

Queridos irmãos e irmãs: cabe-nos hoje dar continuidade ao legado que estes semeadores do Evangelho nos deixaram, e devemos fazê-lo tendo em conta o que nos diz a Palavra de Deus: com justiça, honestidade e fidelidade, conscientes de que a mensagem que anunciamos não nos pertence. É um tesouro que recebemos do Senhor e que trazemos em vasos de barro (cf. 2 Cor 4, 7).

Esta região é caracterizada por três símbolos que nos podem ajudar a refletir sobre o depósito da fé que nos foi concedido e sobre a missão que hoje nos é confiada. O primeiro é a ponte, o segundo os palmeirais e o terceiro o mate.

Nesta cidade de Paysandú, encontra-se a Ponte Internacional General Artigas que atravessa o rio Uruguai e une dois países vizinhos. Não é difícil imaginar os benefícios que uma ponte pode trazer: abertura, comunicação, intercâmbio. Por isso, como é importante ser construtor de pontes! É a vocação à qual todos somos chamados: construir pontes, estreitar laços, unir, comunicar, transmitir a alegria da fé, tal como fez o Beato Jacinto «em tempo propício e fora dele» (2 Tm 4, 2).

Além disso, é necessário que a ponte tenha bons alicerces para que não sucumba às correntes mais violentas. Certamente, tal como a casa construída sobre a rocha permanece firme no meio da tempestade e a casa construída sobre a areia corre o risco de ruir (cf. Mt 7, 24-27), também uma ponte precisa de fundações adequadas para não desabar com a força do vento e das águas. Sempre que fordes à costa e avistardes a ponte, lembrai-vos de que este símbolo nos representa e nos indica a importância de uma sólida formação cristã. Precisamos de estar bem preparados para dar as razões da nossa fé a quem quer que no-las peça (cf. 1 Pe 3, 15), sem nos deixarmos levar «por doutrinas diversas e estranhas» (Heb 13, 9). Só assim seremos instrumentos de unidade e vínculos de caridade.

Outro símbolo que caracteriza e embeleza esta terra são os palmeirais. O Livro dos Salmos diz-nos que «os justos florescerão como a palmeira» (Sl 92, 13). Esta árvore é resistente à força dos ventos, possui raízes profundas, ergue-se em direção ao céu em busca de luz e produz o doce fruto butiá-jataí. Esta é uma bela imagem da origem e do destino para o qual somos chamados: enraizar-nos em Cristo, Alfa e Ómega, Princípio e Fim da nossa vida, para que, permanecendo unidos a Ele, possamos dar bons frutos (cf. Jo 15, 5).

Ao mesmo tempo, vemos que as palmeiras não crescem isoladas nesta região, mas formam palmeirais; ou seja, são muitas e não estão sozinhas nem distanciadas umas das outras. Da mesma forma, a Igreja é uma comunidade de irmãos que tem raízes profundas, alimentando-se de uma fonte comum: a Palavra de Deus, os Sacramentos, a oração e a ação caritativa; os seus fiéis elevam o olhar em conjunto para louvar a Cristo, o Sol que nasce do alto, cuja luz guia os passos da humanidade pelo caminho da paz (cf. Lc 1, 78-79).

Por fim, pensemos num símbolo que está presente em cada lar deste país, em cada local de estudo e trabalho, em cada encontro de amigos. Refiro-me ao mate, essa bebida tão típica da América do Sul, cujo significado profundo sabeis explicar melhor do que eu. Com certeza, o mate também vos acompanhou hoje na viagem a caminho desta celebração, e irá acompanhar-vos no regresso. Chegou inclusivamente a Roma!

O mate é sinal de familiaridade, amizade e convívio. Ensina-nos a partilhar e a estar juntos, a estreitar os laços que nos unem e nos tornam irmãos. É sinal de acolhimento, integração e valores comuns. “Tomar mate” é um ritual repleto de simbolismo, no qual se dialoga sem palavras e cada detalhe tem um significado próprio. Penso também nos mates que se bebem quando se está sozinho e que acompanham um instante de silêncio e oração. Nesses momentos de solidão, quantas vezes muitos de vós tereis confiado a Deus as vossas preocupações e necessidades, os vossos desejos e anseios mais profundos.

Queridos irmãos e irmãs: precisamos de refletir sobre estes símbolos que nos são comuns, que nos dão identidade e sentido de pertença, que falam das nossas origens e nos projetam para o futuro. Também a fé faz parte do povo uruguaio desde os seus inícios, e é necessário transmiti-la às gerações futuras com ousadia criativa.

Jesus, no Evangelho de hoje, recorda-nos a importância da fidelidade aos dons recebidos: «Quem é fiel no pouco também é fiel no muito» (Lc 16, 10). Estas palavras foram postas em prática por tantos homens e mulheres – como Dom Jacinto Vera – que foram fiéis à vocação recebida e espalharam as sementes do Evangelho na alma do povo uruguaio. Essas sementes permanecem vivas na comunidade, mas é necessário continuar a proporcionar as condições necessárias para que possam crescer e expressar todo o seu potencial. É necessário continuar formando as crianças e os jovens na fé, acompanhando as famílias, apoiando os idosos e praticando obras de caridade.

Queridos irmãos e irmãs: encorajo-vos a prosseguir a missão evangelizadora com entusiasmo. Sede pontes, para que muitos se encontrem com Jesus. Sede uma comunidade fraterna, que se reúne e partilha a vida e os projetos, os sonhos e as esperanças, especialmente com os mais necessitados. Sede uma comunidade de oração, que mantém o diálogo com o Senhor “como um amigo fala a outro amigo” (cf. Jo 15, 15). Cristo conta convosco! Cristo conta contigo!

Que a nossa Mãe celestial, a Virgem dos Trinta e Três, vos proteja no caminho da vida e vos guie sempre ao encontro do seu Filho Jesus.

Saudação improvisada do Santo Padre aos fiéis reunidos em frente à Basílica de Nossa Senhora do Rosário

Bom dia!

Muito obrigado pelo acolhimento e por estardes aqui.

Como talvez tenhais ouvido na homilia da Santa Missa, falei de três símbolos, três expressões que refletem muito bem uma parte da vida, uma parte da nossa vida cristã: ser construtores de pontes. Tal como aqui tendes esta ponte que une países, nós temos de construir pontes que unam todos os povos. Que os unam na fé, que os unam porque acreditamos num único Deus, acreditamos que a paz é possível e queremos construir a paz.

Os palmeirais representam a nossa vontade de estar todos reunidos, a nossa vontade de construir comunidades de fé.

E o mate, esta expressão tão importante na vossa cultura, em que dois amigos, dois familiares se unem para partilhar, muitas vezes dialogando sem palavras, mas unidos para partilhar a vida, as dificuldades e também as alegrias.

Que estes símbolos nos ajudem também a continuar a viver a nossa vida, apesar da dor, das dificuldades e dos desafios, buscando a presença de Deus entre nós e recebendo do Senhor a força e a coragem para viver a nossa fé, para proclamar a nossa fé em Jesus Cristo, que nos deu a vida. E como um pequeno gesto do meu desejo de estar sempre próximo de vós, ofereço-vos a bênção.

O Senhor esteja convosco.

A bênção de Deus Todo-Poderoso, Pai, Filho e Espírito Santo, desça sobre vós e convosco permaneça para sempre. Ámen.

Que Deus vos abençoe! Felicidades!

Foto e documento originais do Dicastério para a Comunicação (Vaticano), reproduzido na íntegra.

Acompanhe cada passo desta viagem histórica com a Lumine

A equipe da Lumine está realizando uma cobertura completa da visita do Papa à América Latina. Além de homilias e discursos, estamos produzindo um documentário original e exclusivo sobre a passagem do Santo Padre pelo continente.

A grande estreia será no dia 19/11, às 20h.

Clique aqui para garantir o seu lugar e assistir ao documentário em primeira mão!

NoVEMblack (LATERAL) : NoVEMblack (LATERAL) Saiba mais

Continue na Sala

Ver todos ↗

Carregando outras leituras…