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Game of Thrones, Poetas Mortos e o Faro Cristão: o medo não é critério de seleção
Por Francisco Escorsim
|
28.abr.2026
Midle Dot

Viu que a Lumine tem feito um especial sobre a relação do cristão com a cultura pop? Está nas redes, especialmente no canal do YouTube. Ainda não assisti tudo, mas na entrevista com o padre Pedro Willemsens, que muito recomendo, tem algo que acho valioso e vale destacar desde já.

Está logo no início, quando fala sobre ter ou criar um “faro” para selecionar o que assistir. O vídeo cita Game Of Thrones como algo que não valeria a pena por seu niilismo e conter muita baixaria. Entendo, tem essas coisas mesmo. Mas queria fazer um contraponto, pois não me parece haver celebração disso na obra.

I – Game Of Espectadores

Façamos uma analogia com Flannery O’Connor, escritora cujo catolicismo é inegável. Em termos espirituais, vivemos num mundo de surdos e cegos, por isso, Flannery dizia que, para o “surdo”, é preciso gritar, e para o “quase cego”, é preciso desenhar figuras grandes e terríveis. 

Daí o motivo porque ela preferia retratar personagens mesquinhos, violentos e bizarros, chocantes mesmo, valendo-se de uma estética do grotesco não para glorificar o vício, mas para mostrar a miséria humana sem a Graça.

Em Game of Thrones, a violência e a crueza podem ser lidas da mesma forma: um mundo que abandonou a transcendência (ou onde os deuses são distantes e cruéis) torna-se um moedor de carne. A “baixaria” não seria um fim em si, mas o retrato fiel do que sobra do homem quando ele é apenas um animal em busca de poder. O arco de personagens como Cersei e Joffrey ilustra perfeitamente isso, levando a uma solidão abissal e à autodestruição.

Ou seja, se a série fosse niilista de fato, a maldade seria recompensada com paz e satisfação, mas o que vemos é que quanto mais “maquiavélico” o personagem, mais vazia e paranoica sua vida se torna. Na obra de O’Connor, este momento de confronto com o resultado da violência é quase sempre o momento da revelação (como o desfecho do conto Um Homem Bom é Difícil de Encontrar) de algo que, porém, não se diz o que é, nem se mostra, salvo como ausência.

É verdade que o niilismo e baixarias podem fazer mal à alma de quem assiste Game Of Thrones. Mas é igualmente possível que ao conhecer este mundo onde a justiça é rara e a misericórdia é vista como fraqueza, a obra gera no espectador uma fome de transcendência, aquilo que teólogos chamam de desiderium naturale: um desejo natural pelo que falta, pelo nosso fim último, pela felicidade plena, por Deus, enfim. 

É claro que O’Connor escrevia com uma intenção teológica clara, enquanto George R. R. Martin escreve sob uma ótica mais agnóstica e histórica. Mas a realidade bem descrita, independente da intenção da descrição, confessa a Deus, mesmo que o autor não o faça. O risco do espectador se perder na “estética da violência” na obra de ambos existe, mas depende mais de como digere sobre o que leu ou assistiu do que das intenções dos artistas.

Para incrementar mais a discussão, lembremos do livro de Juízes na Bíblia, recheado de estupros, traições e assassinatos brutais. Ninguém o chama de niilista porque está na Bíblia, mas e se não estivesse? Deixaria de ser o que é,  relatos mostrando a depravação humana para apontar a necessidade de um Salvador? A Bíblia não omite a “baixaria” justamente porque a Verdade é o compromisso com a realidade, e a realidade humana sem Deus é escabrosa.  

Mais adiante na entrevista, padre Pedro recomenda alguns filmes, dentre eles, A Sociedade dos Poetas Mortos. Adoro este filme também, mas ele têm seus riscos para a alma tanto quanto Game Of Thrones, diria até que mais. 

II – A Sociedade dos Católicos Medrosos

Muitos foram apresentados ao conceito de “carpe diem” (aproveite o dia) por este filme. Para um católico, é óbvio que o sentido do carpe diem não está em si mesmo, mas como um meio para um fim maior. Aproveitar o dia não significa uma liberdade para fazer o que se quer, mas “querer o que é certo”, como disse Santo Agostinho.

No filme, o professor Keating estimula o desejo de liberdade, mas não oferece uma bússola moral do que fazer com esta liberdade. Acontece que sem uma estrutura de valores ou o conceito de sacrifício, o desejo em si se torna um ídolo. A consequência acaba sendo o que vemos muito por aí, talvez dentro de você também: se não posso realizar meu desejo, a vida perde a graça, por vezes o valor, não raro levando ao desespero. 

É o que acontece com o personagem Neil, que deseja ser ator de teatro, mas é proibido por seu pai. A tragédia do seu suicídio é o resultado de uma sensibilidade inflamada que não tem raízes em nada além das próprias emoções. Há um problema sério neste filme a partir daí, pois o professor é mandado embora da escola como uma vítima injustiçada pelo bem que fez aos seus alunos, como se não tivesse alguma responsabilidade pelo ocorrido com Neil. 

Sem dúvida Keating merece créditos pelo bem que fez e o suicídio não invalida isso. Mas também deve ser criticado por não saber orientá-los depois de os ter cativado e incentivado a realizar seus sonhos e desejos. Keating ensinou os jovens a voar, mas não onde pousar, nem que o chão continua existindo. Promoveu uma autonomia sentimental nos meninos, mas não a ancorava na sólida necessidade real da aquisição de virtudes. Refiro-me às virtudes naturais, as básicas mesmo, como a fortaleza. Não fez isso, nem parecia saber como fazer, o que revela que Keating, no fundo, era apenas um romântico sentimental. 

Mais ainda, o filme coloca a autoridade (pais e escola) como puramente vilã e a “libertação” deles como puramente boa. Ao demonizar toda tradição e estrutura em favor da subjetividade individual, o filme flerta com um voluntarismo (minha vontade acima de tudo) que é a raiz de muitos problemas espirituais modernos. Com isso, traz o risco de convencer o espectador de que ele é seu próprio caminho, o que é a definição clássica de soberba e uma forma de pelagianismo moderno.

Isso significa, então, que não recomendo A Sociedade dos Poetas Mortos? Não, pelo contrário. Mas não se trata aqui de recomendar, se trata de seguir a orientação de São Paulo, de experimentar e examinar tudo e ficar com o que é bom. Passagem, aliás, citada pelo padre na entrevista. 

Se examinarmos com atenção, A Sociedade dos Poetas Mortos serve como um retrato do perigo de se viver apenas de paixões. Porque mostra a tragédia em que isso resulta, confirmando, pelo erro, que o homem precisa de algo mais sólido do que seus próprios sonhos e desejos para realizar aqueles e atender estes.

Percebe que o problema está menos em assistir ou não assistir esta ou aquela obra, mas em como você assiste e reflete sobre depois? Deixo, então, esta dica: não use o medo como critério de seleção do que assistir e ler e ouvir. O católico que “foge” de tudo por medo vive em uma eterna imaturidade espiritual. Mas tampouco seja irresponsável de não refletir depois de ter assistido e lido e ouvido o que quer que seja. 

Tem dificuldade para tanto? É pra isso que serve (ou deveria servir) as críticas de arte, as resenhas, as conversas, as discussões, posts de blog como este. Mas jamais transfira para outros a responsabilidade por aprimorar sua capacidade de discernimento, que não é outra coisa senão uma manifestação da virtude da prudência. É como todo católico exercita a musculatura da fé.    

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Viu que a Lumine tem feito um especial sobre a relação do cristão com a cultura pop? Está nas redes, especialmente no canal do YouTube. Ainda não assisti tudo, mas na entrevista com o padre Pedro Willemsens, que muito recomendo, tem algo que acho valioso e vale destacar desde já.

Está logo no início, quando fala sobre ter ou criar um “faro” para selecionar o que assistir. O vídeo cita Game Of Thrones como algo que não valeria a pena por seu niilismo e conter muita baixaria. Entendo, tem essas coisas mesmo. Mas queria fazer um contraponto, pois não me parece haver celebração disso na obra.

I – Game Of Espectadores

Façamos uma analogia com Flannery O’Connor, escritora cujo catolicismo é inegável. Em termos espirituais, vivemos num mundo de surdos e cegos, por isso, Flannery dizia que, para o “surdo”, é preciso gritar, e para o “quase cego”, é preciso desenhar figuras grandes e terríveis. 

Daí o motivo porque ela preferia retratar personagens mesquinhos, violentos e bizarros, chocantes mesmo, valendo-se de uma estética do grotesco não para glorificar o vício, mas para mostrar a miséria humana sem a Graça.

Em Game of Thrones, a violência e a crueza podem ser lidas da mesma forma: um mundo que abandonou a transcendência (ou onde os deuses são distantes e cruéis) torna-se um moedor de carne. A “baixaria” não seria um fim em si, mas o retrato fiel do que sobra do homem quando ele é apenas um animal em busca de poder. O arco de personagens como Cersei e Joffrey ilustra perfeitamente isso, levando a uma solidão abissal e à autodestruição.

Ou seja, se a série fosse niilista de fato, a maldade seria recompensada com paz e satisfação, mas o que vemos é que quanto mais “maquiavélico” o personagem, mais vazia e paranoica sua vida se torna. Na obra de O’Connor, este momento de confronto com o resultado da violência é quase sempre o momento da revelação (como o desfecho do conto Um Homem Bom é Difícil de Encontrar) de algo que, porém, não se diz o que é, nem se mostra, salvo como ausência.

É verdade que o niilismo e baixarias podem fazer mal à alma de quem assiste Game Of Thrones. Mas é igualmente possível que ao conhecer este mundo onde a justiça é rara e a misericórdia é vista como fraqueza, a obra gera no espectador uma fome de transcendência, aquilo que teólogos chamam de desiderium naturale: um desejo natural pelo que falta, pelo nosso fim último, pela felicidade plena, por Deus, enfim. 

É claro que O’Connor escrevia com uma intenção teológica clara, enquanto George R. R. Martin escreve sob uma ótica mais agnóstica e histórica. Mas a realidade bem descrita, independente da intenção da descrição, confessa a Deus, mesmo que o autor não o faça. O risco do espectador se perder na “estética da violência” na obra de ambos existe, mas depende mais de como digere sobre o que leu ou assistiu do que das intenções dos artistas.

Para incrementar mais a discussão, lembremos do livro de Juízes na Bíblia, recheado de estupros, traições e assassinatos brutais. Ninguém o chama de niilista porque está na Bíblia, mas e se não estivesse? Deixaria de ser o que é,  relatos mostrando a depravação humana para apontar a necessidade de um Salvador? A Bíblia não omite a “baixaria” justamente porque a Verdade é o compromisso com a realidade, e a realidade humana sem Deus é escabrosa.  

Mais adiante na entrevista, padre Pedro recomenda alguns filmes, dentre eles, A Sociedade dos Poetas Mortos. Adoro este filme também, mas ele têm seus riscos para a alma tanto quanto Game Of Thrones, diria até que mais. 

II – A Sociedade dos Católicos Medrosos

Muitos foram apresentados ao conceito de “carpe diem” (aproveite o dia) por este filme. Para um católico, é óbvio que o sentido do carpe diem não está em si mesmo, mas como um meio para um fim maior. Aproveitar o dia não significa uma liberdade para fazer o que se quer, mas “querer o que é certo”, como disse Santo Agostinho.

No filme, o professor Keating estimula o desejo de liberdade, mas não oferece uma bússola moral do que fazer com esta liberdade. Acontece que sem uma estrutura de valores ou o conceito de sacrifício, o desejo em si se torna um ídolo. A consequência acaba sendo o que vemos muito por aí, talvez dentro de você também: se não posso realizar meu desejo, a vida perde a graça, por vezes o valor, não raro levando ao desespero. 

É o que acontece com o personagem Neil, que deseja ser ator de teatro, mas é proibido por seu pai. A tragédia do seu suicídio é o resultado de uma sensibilidade inflamada que não tem raízes em nada além das próprias emoções. Há um problema sério neste filme a partir daí, pois o professor é mandado embora da escola como uma vítima injustiçada pelo bem que fez aos seus alunos, como se não tivesse alguma responsabilidade pelo ocorrido com Neil. 

Sem dúvida Keating merece créditos pelo bem que fez e o suicídio não invalida isso. Mas também deve ser criticado por não saber orientá-los depois de os ter cativado e incentivado a realizar seus sonhos e desejos. Keating ensinou os jovens a voar, mas não onde pousar, nem que o chão continua existindo. Promoveu uma autonomia sentimental nos meninos, mas não a ancorava na sólida necessidade real da aquisição de virtudes. Refiro-me às virtudes naturais, as básicas mesmo, como a fortaleza. Não fez isso, nem parecia saber como fazer, o que revela que Keating, no fundo, era apenas um romântico sentimental. 

Mais ainda, o filme coloca a autoridade (pais e escola) como puramente vilã e a “libertação” deles como puramente boa. Ao demonizar toda tradição e estrutura em favor da subjetividade individual, o filme flerta com um voluntarismo (minha vontade acima de tudo) que é a raiz de muitos problemas espirituais modernos. Com isso, traz o risco de convencer o espectador de que ele é seu próprio caminho, o que é a definição clássica de soberba e uma forma de pelagianismo moderno.

Isso significa, então, que não recomendo A Sociedade dos Poetas Mortos? Não, pelo contrário. Mas não se trata aqui de recomendar, se trata de seguir a orientação de São Paulo, de experimentar e examinar tudo e ficar com o que é bom. Passagem, aliás, citada pelo padre na entrevista. 

Se examinarmos com atenção, A Sociedade dos Poetas Mortos serve como um retrato do perigo de se viver apenas de paixões. Porque mostra a tragédia em que isso resulta, confirmando, pelo erro, que o homem precisa de algo mais sólido do que seus próprios sonhos e desejos para realizar aqueles e atender estes.

Percebe que o problema está menos em assistir ou não assistir esta ou aquela obra, mas em como você assiste e reflete sobre depois? Deixo, então, esta dica: não use o medo como critério de seleção do que assistir e ler e ouvir. O católico que “foge” de tudo por medo vive em uma eterna imaturidade espiritual. Mas tampouco seja irresponsável de não refletir depois de ter assistido e lido e ouvido o que quer que seja. 

Tem dificuldade para tanto? É pra isso que serve (ou deveria servir) as críticas de arte, as resenhas, as conversas, as discussões, posts de blog como este. Mas jamais transfira para outros a responsabilidade por aprimorar sua capacidade de discernimento, que não é outra coisa senão uma manifestação da virtude da prudência. É como todo católico exercita a musculatura da fé.    

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