“Seja como for, cada ser humano é extraordinário — seja para o melhor, ou para o pior”.
É com esta afirmação que o narrador começa a contar a história de um dos filmes queridos da Sessão da Tarde: Matilda (1996). Essa afirmação ecoa por todo o enredo do filme, à medida em que acompanhamos a história e as aventuras da simpática menina tão distinta de sua família.
Conhecemos Matilda por seus poderes cinéticos — a sua capacidade de controlar objetos com a mente, deslocando-os, fazendo-os flutuar, abrir e fechar, etc. O que mais me chama a atenção no filme, porém, é o desenvolvimento da personagem. Apesar das condições desfavoráveis que lhe são preestabelecidas — e, obviamente, da perpétua tentação de ceder à grande vantagem que tem sobre os demais por conta de seus poderes —, Matilda torna-se ainda mais meiga, ainda mais sagaz e, surpreendentemente, encontra os limites éticos, digamos assim, da utilização de seu poder, aprendendo a conviver também com frustrações e decepções sem se deixar levar pelo desejo de revanche.
Matilda Wormwood é a filha mais nova de Harry e Zinnia Wormwood. Sem exagero, seus pais são figuras detestáveis: Harry Wormwood é um vendedor de carros usados que vive fazendo trapaças, trocando peças perfeitamente boas por peças velhas ou com defeito, visando margens de lucro cada vez maiores e querendo levar vantagem sobre os clientes.
A mãe de Matilda, Zinnia Wormwood, é uma perua irresponsável que só pensa em si, na própria aparência e no passatempo preferido, o bingo. Diz o narrador: “Harry e Zinnia Wormwood moravam num bairro muito bom, numa casa muito boa, mas na verdade não eram gente muito boa” — e, enquanto isso, vemos a família voltando da maternidade logo após o nascimento da filha mais nova, quase atropelando (de modo aparentemente proposital) as crianças que brincavam na rua e, por fim, esquecendo a menina recém-nascida dentro do carro.

Nesses primeiros minutos de filme, já temos uma ideia clara de como será o relacionamento de Matilda com a própria família — e essa ideia não é das melhores. Continua o narrador: “Os Wormwood estavam tão absorvidos em suas próprias vidas vazias que mal notaram que tinham uma filha. Se tivesse prestado alguma atenção nela, teriam percebido que era uma criança bem extraordinária”.
“Bem extraordinária” é um eufemismo: Matilda é doce, leal e inteligentíssima desde o berço. Acompanhamos a menina em seu crescimento solitário e em seu desenvolvimento independente, já que não há ninguém naquela casa a cuidar dela e a estender-lhe qualquer manifestação de afeto. Inteiramente centrados em si próprios, os pais negligenciam até mesmo questões básicas, como a segurança da criança — que fica sozinha em casa o dia todo desde muito cedo — e a sua alimentação — ela aprende a preparar o próprio desjejum e a virar-se na cozinha. Em suma, muito antes de ser uma moça, Matilda aprende a cuidar de si mesma como se moça fosse.
A verdade é que a brilhante menina entende desde muito cedo que está só. No entanto, em vez de deixar-se consumir pela situação adversa, Matilda usa-a a seu favor. Já que os pais não estão por perto, ela sente-se livre para fazer o que bem entender — e a sua vontade de conhecer as coisas, a sua vontade de descobrir o mundo, é enorme. Aprende a ler sozinha, antes da idade normal, e passa a devorar todos os livros que encontra pela frente. Descobrindo a biblioteca, faz daquelas estantes o seu refúgio e, mais tarde, tendo obtido da bibliotecária a preciosa informação de que com uma carteirinha poderia levar livros para casa, toma livros emprestados e mergulha em obras das mais complexas do cânone da literatura mundial. Aí está uma das partes que me parecem as mais interessantes no desenvolvimento de Matilda: a partir desses mesmos livros, a menina aprende virtudes e valores que não existem em seu ambiente imediato.
Esses conceitos — a verdade, a coragem, a bondade, a justiça, a amizade, a lealdade, o heroísmo — tornam-se uma janela para um outro mundo, para uma outra vida. Sem adultos ao seu redor que os refletissem, a menina faz dos personagens da literatura as suas referências pessoais.


Porém, mesmo com o alento encontrado nos livros, a verdade é que, quando não temos amigos de carne e osso, a vida fica encurtada, diminuída; menor do que poderia ser. Tendo crescido sozinha num lar de pais que se importavam mais com qualquer outra coisa do que com os filhos, Matilda chega aos seis anos de idade muito solitária e desejosa por criar laços verdadeiros e afetuosos com pessoas reais (e normais).
Quer ser matriculada na escola, pedido ao qual os pais não querem ceder, e ao qual só ouvem quando há um quê de interesse próprio: o pai vende um carro velho para Agatha Trunchbull, que menciona ser diretora de uma escola chamada Crunchem Hall (sendo “Crunchem” uma inserção disfarçada, por assim dizer, do inglês “crunch ‘em”: algo como “triture-os”, “esmigalhe-os” ou, ainda, uma gíria para “manipule-os”). Percebendo que a diretora era incrivelmente severa, o pai decide fazer a vontade da filha, pensando assim colocá-la “na linha”.
Na escola, contudo, apesar da rigidez descomunal com que a diretora conduz as atividades, Matilda encontra amigos. Mais que isso: encontra, enfim, uma pessoa adulta amável e amorosa. Em meio às loucuras da mão de ferro de Agatha Trunchbull, a doçura da professora Honey basta para fazer com que as crianças vislumbrem uma melhor via — uma via de aprendizagem e de amadurecimento que não é impositiva e tirânica, mas antes paciente, cuidadosa e amorosa.

É a partir do momento em que Matilda passa a conviver com a senhorita Honey que conhecemos o lado mais doce da menina que tem agora, enfim, alguém em quem confiar e em quem se espelhar; e é então que vemos se desenvolverem, na prática, os valores e as virtudes daquelas histórias pelas quais Matilda interessava-se tanto.
A menina e a professora encontram uma na outra uma projeção de si mesmas: a pequena, de um futuro que agora via ser possível; a moça, da fase difícil por que passara em sua infância e juventude, sendo órfã de pai e mãe. Desse reconhecimento mútuo, nasce o laço de amizade, de cuidado e de lealdade que Matilda tanto precisava — e que, conforme veremos, era também uma necessidade para a professora. Juntas, elas enfrentam o medo dos adultos autoritários em suas vidas.
Na convivência e enfrentando as situações que se lhes são postas, as duas aprendem a exigir respeito dessas figuras desagradáveis e tirânicas, bem como a dar-se o respeito que merecem — e, fazendo-o, assumem um caráter heroico. Descobrem que a postura repressiva e injusta dos outros é um reflexo de quem aquelas pessoas são, e que o seu comportamento opressor não dita o valor real daqueles a quem elas oprimem. Através do exemplo de retidão da senhorita Honey, sem que esta lhe diga uma palavra sequer a esse respeito, Matilda compreende que, mesmo erradas, tais pessoas são apenas pessoas e que, portanto, não se combate injustiça com outras injustiças; o preço a pagar deve ser proporcional às ações cometidas.

Não é à toa que Matilda tornou-se um clássico. O filme conta-nos dessas coisas sob a perspectiva infantil de Matilda e de seus colegas de escola. A escolha pela narração, que entremeia as cenas e costura o enredo; a escolha de ângulos ousados, que explicitam ainda mais os sentimentos de medo, de coragem, de diminuição, de exaltação; as situações bizarras; as personagens caricatas; os eventos desconcertantes; as excelentes atuações: as escolhas estéticas da direção emprestam uma sensação de exagero que contribui para que sejamos simpáticos à visão que Matilda tem das pessoas, dos ambientes e das situações de sua vida — é como se os víssemos com os olhos de uma criança.
O filme faz, enfim, que nos lembremos de nossa própria infância — e que, de volta à mais tenra idade, resgatemos um pouco da ingenuidade, da diversão e do senso de descoberta que tanto marcam os primeiros anos de nossas vidas.
“Seja como for, cada ser humano é extraordinário — seja para o melhor, ou para o pior”.
É com esta afirmação que o narrador começa a contar a história de um dos filmes queridos da Sessão da Tarde: Matilda (1996). Essa afirmação ecoa por todo o enredo do filme, à medida em que acompanhamos a história e as aventuras da simpática menina tão distinta de sua família.
Conhecemos Matilda por seus poderes cinéticos — a sua capacidade de controlar objetos com a mente, deslocando-os, fazendo-os flutuar, abrir e fechar, etc. O que mais me chama a atenção no filme, porém, é o desenvolvimento da personagem. Apesar das condições desfavoráveis que lhe são preestabelecidas — e, obviamente, da perpétua tentação de ceder à grande vantagem que tem sobre os demais por conta de seus poderes —, Matilda torna-se ainda mais meiga, ainda mais sagaz e, surpreendentemente, encontra os limites éticos, digamos assim, da utilização de seu poder, aprendendo a conviver também com frustrações e decepções sem se deixar levar pelo desejo de revanche.
Matilda Wormwood é a filha mais nova de Harry e Zinnia Wormwood. Sem exagero, seus pais são figuras detestáveis: Harry Wormwood é um vendedor de carros usados que vive fazendo trapaças, trocando peças perfeitamente boas por peças velhas ou com defeito, visando margens de lucro cada vez maiores e querendo levar vantagem sobre os clientes.
A mãe de Matilda, Zinnia Wormwood, é uma perua irresponsável que só pensa em si, na própria aparência e no passatempo preferido, o bingo. Diz o narrador: “Harry e Zinnia Wormwood moravam num bairro muito bom, numa casa muito boa, mas na verdade não eram gente muito boa” — e, enquanto isso, vemos a família voltando da maternidade logo após o nascimento da filha mais nova, quase atropelando (de modo aparentemente proposital) as crianças que brincavam na rua e, por fim, esquecendo a menina recém-nascida dentro do carro.

Nesses primeiros minutos de filme, já temos uma ideia clara de como será o relacionamento de Matilda com a própria família — e essa ideia não é das melhores. Continua o narrador: “Os Wormwood estavam tão absorvidos em suas próprias vidas vazias que mal notaram que tinham uma filha. Se tivesse prestado alguma atenção nela, teriam percebido que era uma criança bem extraordinária”.
“Bem extraordinária” é um eufemismo: Matilda é doce, leal e inteligentíssima desde o berço. Acompanhamos a menina em seu crescimento solitário e em seu desenvolvimento independente, já que não há ninguém naquela casa a cuidar dela e a estender-lhe qualquer manifestação de afeto. Inteiramente centrados em si próprios, os pais negligenciam até mesmo questões básicas, como a segurança da criança — que fica sozinha em casa o dia todo desde muito cedo — e a sua alimentação — ela aprende a preparar o próprio desjejum e a virar-se na cozinha. Em suma, muito antes de ser uma moça, Matilda aprende a cuidar de si mesma como se moça fosse.
A verdade é que a brilhante menina entende desde muito cedo que está só. No entanto, em vez de deixar-se consumir pela situação adversa, Matilda usa-a a seu favor. Já que os pais não estão por perto, ela sente-se livre para fazer o que bem entender — e a sua vontade de conhecer as coisas, a sua vontade de descobrir o mundo, é enorme. Aprende a ler sozinha, antes da idade normal, e passa a devorar todos os livros que encontra pela frente. Descobrindo a biblioteca, faz daquelas estantes o seu refúgio e, mais tarde, tendo obtido da bibliotecária a preciosa informação de que com uma carteirinha poderia levar livros para casa, toma livros emprestados e mergulha em obras das mais complexas do cânone da literatura mundial. Aí está uma das partes que me parecem as mais interessantes no desenvolvimento de Matilda: a partir desses mesmos livros, a menina aprende virtudes e valores que não existem em seu ambiente imediato.
Esses conceitos — a verdade, a coragem, a bondade, a justiça, a amizade, a lealdade, o heroísmo — tornam-se uma janela para um outro mundo, para uma outra vida. Sem adultos ao seu redor que os refletissem, a menina faz dos personagens da literatura as suas referências pessoais.


Porém, mesmo com o alento encontrado nos livros, a verdade é que, quando não temos amigos de carne e osso, a vida fica encurtada, diminuída; menor do que poderia ser. Tendo crescido sozinha num lar de pais que se importavam mais com qualquer outra coisa do que com os filhos, Matilda chega aos seis anos de idade muito solitária e desejosa por criar laços verdadeiros e afetuosos com pessoas reais (e normais).
Quer ser matriculada na escola, pedido ao qual os pais não querem ceder, e ao qual só ouvem quando há um quê de interesse próprio: o pai vende um carro velho para Agatha Trunchbull, que menciona ser diretora de uma escola chamada Crunchem Hall (sendo “Crunchem” uma inserção disfarçada, por assim dizer, do inglês “crunch ‘em”: algo como “triture-os”, “esmigalhe-os” ou, ainda, uma gíria para “manipule-os”). Percebendo que a diretora era incrivelmente severa, o pai decide fazer a vontade da filha, pensando assim colocá-la “na linha”.
Na escola, contudo, apesar da rigidez descomunal com que a diretora conduz as atividades, Matilda encontra amigos. Mais que isso: encontra, enfim, uma pessoa adulta amável e amorosa. Em meio às loucuras da mão de ferro de Agatha Trunchbull, a doçura da professora Honey basta para fazer com que as crianças vislumbrem uma melhor via — uma via de aprendizagem e de amadurecimento que não é impositiva e tirânica, mas antes paciente, cuidadosa e amorosa.

É a partir do momento em que Matilda passa a conviver com a senhorita Honey que conhecemos o lado mais doce da menina que tem agora, enfim, alguém em quem confiar e em quem se espelhar; e é então que vemos se desenvolverem, na prática, os valores e as virtudes daquelas histórias pelas quais Matilda interessava-se tanto.
A menina e a professora encontram uma na outra uma projeção de si mesmas: a pequena, de um futuro que agora via ser possível; a moça, da fase difícil por que passara em sua infância e juventude, sendo órfã de pai e mãe. Desse reconhecimento mútuo, nasce o laço de amizade, de cuidado e de lealdade que Matilda tanto precisava — e que, conforme veremos, era também uma necessidade para a professora. Juntas, elas enfrentam o medo dos adultos autoritários em suas vidas.
Na convivência e enfrentando as situações que se lhes são postas, as duas aprendem a exigir respeito dessas figuras desagradáveis e tirânicas, bem como a dar-se o respeito que merecem — e, fazendo-o, assumem um caráter heroico. Descobrem que a postura repressiva e injusta dos outros é um reflexo de quem aquelas pessoas são, e que o seu comportamento opressor não dita o valor real daqueles a quem elas oprimem. Através do exemplo de retidão da senhorita Honey, sem que esta lhe diga uma palavra sequer a esse respeito, Matilda compreende que, mesmo erradas, tais pessoas são apenas pessoas e que, portanto, não se combate injustiça com outras injustiças; o preço a pagar deve ser proporcional às ações cometidas.

Não é à toa que Matilda tornou-se um clássico. O filme conta-nos dessas coisas sob a perspectiva infantil de Matilda e de seus colegas de escola. A escolha pela narração, que entremeia as cenas e costura o enredo; a escolha de ângulos ousados, que explicitam ainda mais os sentimentos de medo, de coragem, de diminuição, de exaltação; as situações bizarras; as personagens caricatas; os eventos desconcertantes; as excelentes atuações: as escolhas estéticas da direção emprestam uma sensação de exagero que contribui para que sejamos simpáticos à visão que Matilda tem das pessoas, dos ambientes e das situações de sua vida — é como se os víssemos com os olhos de uma criança.
O filme faz, enfim, que nos lembremos de nossa própria infância — e que, de volta à mais tenra idade, resgatemos um pouco da ingenuidade, da diversão e do senso de descoberta que tanto marcam os primeiros anos de nossas vidas.
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