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Hoje tem jogo do Brasil e nós somos os adultos na sala
Por Débora Luciano
|
29.jun.2026
Midle Dot

Ao contrário da maioria dos funcionários públicos, eu estava trabalhando em plena sexta-feira quando, no meio do expediente, meu celular tocou. Procurei a fonte do som, perdida no meio de uma pilha de processos, e atendi, nervosa (em pleno 2026, quem ainda faz ligações?).

Era meu marido. Ele queria saber se eu achava uma boa ideia comprar tintas e bandeirinhas: 

“Sabe… quero criar um clima de Copa para nosso filho” – dizia.

“Ah, é mesmo! Hoje tem jogo do Brasil!” – pensei.

Imediatamente, revisei quantos prazos ainda precisava cumprir para ontem, imaginei o trabalho que daria ir até o Centro procurar bugigangas, encenei a correria que seria encomendar, de última hora, a comida para alimentar a família e, em um fôlego só, quase deixei escapar entre os meus dentes:

“Deixa pra próxima!”

Ah, maldito egoísmo! 

Houve um tempo — e quem passou dos trinta ainda lembra — em que a rua se pintava. Vinha a Copa e alguém arrastava a lata de tinta para fora de casa, alguém subia na escada para pendurar as bandeirinhas, as crianças eram convocadas para o serviço miúdo — segurar o barbante, espalhar a tinta para fora da linha, atrapalhar com desenhos aleatórios — e, de repente, aquele pedaço de mundo que no resto do ano não passava de via pública amanhecia, feito mágica, verde e amarelo.

Ninguém chamava aquilo de trabalho.

E no entanto era. Era trabalho da mais alta espécie, talvez o único que de fato devesse receber esse nome. Um trabalho relacional, ofertado sem fatura, esse tecido invisível de gestos não pagos que ninguém vê enquanto está lá e que só se percebe, como se percebe a falta de um dente, depois que sumiu.1

E sumiu. Não me venham com a tese fácil de que é saudosismo, que toda geração inventa um passado dourado para humilhar o presente. Eu ainda me lembro das pinturas horrorosas que resistiam anos a fio. Não me venha com argumentos esdrúxulos de que não temos mais ídolos, que o jogador Fulano de Tal (Neymar) não joga mais bola.

A rua deixou de ser pintada pela mesma razão pela qual quase tudo o que era gratuito deixou de existir. Porque não paga. Pergunte à qualquer um o que se ganha pintando a rua, e ele responderá, com lógica do mercado, que não se ganha nada. Nadica de nada.

E é exatamente esse «nada» que deveria nos parar o coração, porque foi sempre desse nada que se fez tudo o que vale a pena ser feito.

O gratuito é o nome secreto da Graça.

Reduza o valor ao preço (e não foi isso que todos nós fizemos?) e verá desaparecer, uma a uma, a conversa na calçada, o velório que a vizinhança organiza, a comida que se leva para a casa da puérpera, a procissão, a quermesse…

Então, ocupados como estamos com outras coisas importantíssimas, cruzamos os braços. Aguardamos os adultos chegarem para resolver essa coisa chamada doação.

Mas eles não vão chegar, não há cavalaria na retaguarda. 

Nós somos os adultos na sala.

E, justo na nossa vez, planejamos fazer algo horrível! Pretendemos recusar a condição de ser grande e, dessa forma, roubamos das crianças aquilo que deveria ser o mais caro de todos os presentes. A mágica daquilo que vem do nada.

A infância é um artefato. É construída, sustentada e encantada por adultos que deveriam sair de si mesmos para erguer, em torno do pequeno, um mundo habitável e dotado de sentido — um mundo onde a Copa é um acontecimento cósmico, a rua é o centro do universo e os vizinhos são um povo.

Isso é a nossa obrigação.

Tomo a palavra no sentido exato em que a entendia Simone Weil, em que a obrigação não é a contrapartida de direito algum, mas o que vem antes de todo direito e o funda. A obrigação é algo que pesa sobre quem deve, independentemente de ser reconhecido, reclamado ou retribuído, e que não perde uma só grama de sua força pelo fato de jamais poder ser cobrado.

Devemos às crianças e às gerações que ainda não existem um mundo que valha a pena herdar, e o devemos sem esperar absolutamente nada em troca. Veja bem, não porque somos generosos, bondosos, puros de alma. Não é isso. Pois a obrigação que exige certo reconhecimento heróico já perdeu sua verdadeira natureza para se transformar em simples contrato.

A criança que ainda não nasceu nada nos pode prometer, nada pode reconhecer, nada poderá um dia nos devolver. Justamente por isso, e não apesar disso, que ela nos obriga de modo absoluto.

Devemos porque sim, pela simples condição de homens (e mulheres, vocês me entenderam).

Então visto a carapuça e respiro. Penso de novo antes de responder ao meu marido: 

“Sim, senhor! Vamos atrás das bandeiras, das cornetas, de tudo que for de direito! Vamos pintar o rosto e convocar a família toda. Que tal um churrasco? Vou terminar esse prazo, rapidinho, e já chego aí”.


  1. É o que Ivan Illich nomeou shadow work — o trabalho-sombra, invisível e não remunerado, que toda economia formal pressupõe e nenhuma reconhece. Cruzado, aqui, com o enraizamento de Simone Weil: a raiz não é recurso a administrar, mas pertencimento que se recebe e se transmite — e cuja destruição ela tinha por crime característico da modernidade. ↩︎


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One thought on “Hoje tem jogo do Brasil e nós somos os adultos na sala

  1. Algumas das melhores lembranças que tenho estao relacionadas às copas que vivi na minha infância. Obrigado pelo texto nostálgico.

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Ao contrário da maioria dos funcionários públicos, eu estava trabalhando em plena sexta-feira quando, no meio do expediente, meu celular tocou. Procurei a fonte do som, perdida no meio de uma pilha de processos, e atendi, nervosa (em pleno 2026, quem ainda faz ligações?).

Era meu marido. Ele queria saber se eu achava uma boa ideia comprar tintas e bandeirinhas: 

“Sabe… quero criar um clima de Copa para nosso filho” – dizia.

“Ah, é mesmo! Hoje tem jogo do Brasil!” – pensei.

Imediatamente, revisei quantos prazos ainda precisava cumprir para ontem, imaginei o trabalho que daria ir até o Centro procurar bugigangas, encenei a correria que seria encomendar, de última hora, a comida para alimentar a família e, em um fôlego só, quase deixei escapar entre os meus dentes:

“Deixa pra próxima!”

Ah, maldito egoísmo! 

Houve um tempo — e quem passou dos trinta ainda lembra — em que a rua se pintava. Vinha a Copa e alguém arrastava a lata de tinta para fora de casa, alguém subia na escada para pendurar as bandeirinhas, as crianças eram convocadas para o serviço miúdo — segurar o barbante, espalhar a tinta para fora da linha, atrapalhar com desenhos aleatórios — e, de repente, aquele pedaço de mundo que no resto do ano não passava de via pública amanhecia, feito mágica, verde e amarelo.

Ninguém chamava aquilo de trabalho.

E no entanto era. Era trabalho da mais alta espécie, talvez o único que de fato devesse receber esse nome. Um trabalho relacional, ofertado sem fatura, esse tecido invisível de gestos não pagos que ninguém vê enquanto está lá e que só se percebe, como se percebe a falta de um dente, depois que sumiu.1

E sumiu. Não me venham com a tese fácil de que é saudosismo, que toda geração inventa um passado dourado para humilhar o presente. Eu ainda me lembro das pinturas horrorosas que resistiam anos a fio. Não me venha com argumentos esdrúxulos de que não temos mais ídolos, que o jogador Fulano de Tal (Neymar) não joga mais bola.

A rua deixou de ser pintada pela mesma razão pela qual quase tudo o que era gratuito deixou de existir. Porque não paga. Pergunte à qualquer um o que se ganha pintando a rua, e ele responderá, com lógica do mercado, que não se ganha nada. Nadica de nada.

E é exatamente esse «nada» que deveria nos parar o coração, porque foi sempre desse nada que se fez tudo o que vale a pena ser feito.

O gratuito é o nome secreto da Graça.

Reduza o valor ao preço (e não foi isso que todos nós fizemos?) e verá desaparecer, uma a uma, a conversa na calçada, o velório que a vizinhança organiza, a comida que se leva para a casa da puérpera, a procissão, a quermesse…

Então, ocupados como estamos com outras coisas importantíssimas, cruzamos os braços. Aguardamos os adultos chegarem para resolver essa coisa chamada doação.

Mas eles não vão chegar, não há cavalaria na retaguarda. 

Nós somos os adultos na sala.

E, justo na nossa vez, planejamos fazer algo horrível! Pretendemos recusar a condição de ser grande e, dessa forma, roubamos das crianças aquilo que deveria ser o mais caro de todos os presentes. A mágica daquilo que vem do nada.

A infância é um artefato. É construída, sustentada e encantada por adultos que deveriam sair de si mesmos para erguer, em torno do pequeno, um mundo habitável e dotado de sentido — um mundo onde a Copa é um acontecimento cósmico, a rua é o centro do universo e os vizinhos são um povo.

Isso é a nossa obrigação.

Tomo a palavra no sentido exato em que a entendia Simone Weil, em que a obrigação não é a contrapartida de direito algum, mas o que vem antes de todo direito e o funda. A obrigação é algo que pesa sobre quem deve, independentemente de ser reconhecido, reclamado ou retribuído, e que não perde uma só grama de sua força pelo fato de jamais poder ser cobrado.

Devemos às crianças e às gerações que ainda não existem um mundo que valha a pena herdar, e o devemos sem esperar absolutamente nada em troca. Veja bem, não porque somos generosos, bondosos, puros de alma. Não é isso. Pois a obrigação que exige certo reconhecimento heróico já perdeu sua verdadeira natureza para se transformar em simples contrato.

A criança que ainda não nasceu nada nos pode prometer, nada pode reconhecer, nada poderá um dia nos devolver. Justamente por isso, e não apesar disso, que ela nos obriga de modo absoluto.

Devemos porque sim, pela simples condição de homens (e mulheres, vocês me entenderam).

Então visto a carapuça e respiro. Penso de novo antes de responder ao meu marido: 

“Sim, senhor! Vamos atrás das bandeiras, das cornetas, de tudo que for de direito! Vamos pintar o rosto e convocar a família toda. Que tal um churrasco? Vou terminar esse prazo, rapidinho, e já chego aí”.


  1. É o que Ivan Illich nomeou shadow work — o trabalho-sombra, invisível e não remunerado, que toda economia formal pressupõe e nenhuma reconhece. Cruzado, aqui, com o enraizamento de Simone Weil: a raiz não é recurso a administrar, mas pertencimento que se recebe e se transmite — e cuja destruição ela tinha por crime característico da modernidade. ↩︎


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  1. Algumas das melhores lembranças que tenho estao relacionadas às copas que vivi na minha infância. Obrigado pelo texto nostálgico.

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