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Deus não é agiota: o que o torcedor de arquibancada tem a ensinar ao cristão  
Por Francisco Escorsim
|
12.jun.2026
Midle Dot

Estava aqui assistindo ao seriado “A Saga do Tri”, produção da Netflix, que ficcionaliza nossa conquista mundial de 1970, e me peguei pensando no quanto um cristão pode aprender com o torcer no futebol.

Não me refiro à torcida enquanto fé e esperança desvirtuadas em superstições tolas, ainda que divertidas, como as de Zagallo, obrigando os jogadores a pisarem com o pé direito ao chegarem no México, sua mania com o número 13, seu santinho quebrado antes da semifinal. 

Tampouco dos torcedores jogando sal grosso no campo para tentar espantar o fantasma do Maracanazo antes da semifinal contra o Uruguai. Ou as que fazemos, como os rituais que precisam ser repetidos antes e durante os jogos. Tem de usar a mesma roupa que costuma “trazer” vitórias, sentar no mesmo lugar, acender velas sobre a TV etc. 

Quando você descasca os eufemismos, como o de “é pra dar sorte”, quando desnuda a verdade, resta o desejo de poder sobre o destino. Toda superstição é, no fundo, desejo de poder determinar o destino. É um contrato imposto por nós a Deus (ou deuses, a depender da crença). Se eu fizer isso e aquilo e mais “aqueloutro”, tudo certinho, Deus atenderá meu desejo. 

A diferença para quem faz “trabalhos para amarrar a pessoa amada”, ou se vingar de alguém ou conseguir algo, está apenas na sinceridade de explicitamente desejar o poder de determinar o destino.

Há uma cena do seriado que acho didática. No último capítulo, antes da grande final, Pelé sentia o peso do mundo nos ombros. Decide ligar para casa e fala, primeiro, com o pai, que pesa ainda mais a responsabilidade sobre o filho, dizendo que ele vai ganhar, vai calar a boca de quem achava que tinha morrido pro futebol. Pelé pede, então, para falar com a mãe. 

Dona Celeste, muito mais perceptiva, não precisa que o filho fale nada, mas sabe o que precisa dizer naquele momento: “Reza, meu filho, apenas reza. Deus sempre cuidou do teu destino”. Na cena seguinte, Pelé foge da concentração no porta-malas do carro de João Saldanha e vão a uma igreja. É lá que Pelé queria rezar. O enquadramento dele de joelhos, com o ateu João Saldanha chegando e também se colocando de joelhos é a melhor cena do seriado.

Saldanha interrompe a oração de Pelé, perguntando se estava pedindo para ganhar o título. Pelé responde: “Nunca rezo pedindo pra ganhar jogo”. Saldanha pergunta para o que ele reza, então. Pelé não responde, apenas pede para ficar sozinho, mas acaba conversando sobre um acontecido na infância, achando que tinha uma dívida com Deus por tê-lo salvado de uma tragédia, que Ele vinha cobrando o preço por isso e temia que na final do Mundial tivesse de pagar um pouco mais com a derrota.

Percebe a dinâmica de poder aí? Deus é um agiota que cobra caro a conta pelas graças concedidas. Pelé não pediu pra ganhar porque acreditava que já tinha recebido o suficiente e restava pagar o preço. É uma superstição. O que ele pedia naquela oração, portanto, só podia ser para ser liberado da dívida ou que esta fosse adiada para depois. 

Melhor seria se pedisse para ganhar o jogo, sim, para ganhar todos, ser campeão sempre. Como uma criança que pede tudo ao pai e deixa que Ele decida o que é melhor, não como quem faz ou promete sacrifícios. É o que sua mãe pediu: “Deus sempre cuidou do teu destino”. Ou seja, confia nEle. Ponto final. Isso é fé. 

E é interessante como todo torcedor saudável, ainda que mantenha suas superstições (eu tenho algumas: camisa ganhadora se repete etc), sem levá-las a ferro e fogo, sabe que sua esperança não está nessas coisas. Que isso faz parte da diversão inerente ao torcer, apenas isso. 

Se levar a sério mesmo essas bobagens, desistiria muito rapidamente de torcer, afinal, sofre-se mais com o futebol do que se sorri. Nenhum time, seleção, jogador, ganha mais do que perde. Por exemplo, o Brasil, que é a seleção que mais ganhou Copas, levou 5, mas perdeu 17… 

Se não for por amor…

É o que sustenta o torcer. Não são as vitórias, os títulos, mas o amor pelo time. O amor que faz acompanhar o dia-a-dia do clube, ter a memória vivíssima da sua história. O amor que faz conhecer a alma do time e o estilo de jogo que melhor lhe cabe, sabendo mais e melhor do que qualquer técnico que esteja no comando. 

Amor que faz renovar a fé e esperança depois de cada jogo, de cada campeonato, independente do resultado. Se o time ganhar, é o Paraíso na terra. Se perder, o Inferno. Mas amanhã estaremos lá a torcer de novo, seja para tentar repetir o triunfo, seja para superar a derrota. É o amor que faz ir ao estádio em horários horrorosos e em dias impossíveis. Se não for por amor…

Quando digo que muito cristão pode aprender a amar assim, refiro-me àqueles que vivem a fé como torcedores de conveniência ou obcecados apenas por rituais externos.

Conheci uma senhora de certa idade. A casa abarrotada de objetos de devoção, rezava toda novena que aparecesse, participava de pastorais, adorava ir nos dias em que se rezava 1000 Aves Marias. Mas não se confessava há 50 anos… Era como o torcedor cheio de patuás e camisas da sorte, mas que não conhece a alma do próprio clube, nem entra em campo de verdade através do encontro com Jesus.

Conheci também várias pessoas que, não entendendo nem aguentando porque Deus lhes fazia sofrer tanto, carregando tantas cruzes sem enxergarem bênçãos e graças em suas vidas, viram amornar a fé até esfriar de vez. Esqueceram o que qualquer torcedor de arquibancada sabe: o amor não depende do placar do dia. Se abandonamos o barco na primeira ou quinquagésima temporada de derrotas, nunca foi amor; era apenas vaidade de querer vencer sempre.

E que dizer da raiva que se passa com tanta música ruim em missa, com tanto padre desleixado, com tanta intriga entre paroquianos, com dízimo em dia e esmola só quando mendigo tiver pix? São os nossos “horários horrorosos e dias impossíveis”. A paróquia pode estar em crise, a “diretoria” da comunidade pode bater cabeça e o “estádio” pode ser desconfortável. Mas o católico autêntico não rasga a carteirinha de sócio por causa disso. Ele sofre, reclama, mas permanece lá, de pé, porque o seu vínculo não é com a perfeição dos homens, mas com Aquele que ama.

Se não for por amor, a Igreja vira um clube de campo burocrático e a nossa oração, uma mesa de negociações supersticiosas. Há o que se aprender com as arquibancadas a gastar a vida por aquilo que amamos. Que possamos olhar para o céu, desarmados de cobranças e cheios de fidelidade, repetindo a sabedoria de Dona Celeste para os nossos próprios corações nos dias de goleada ou de jejum de títulos: “Apenas reza. Deus sempre cuidou do teu destino”. Por amor.

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Estava aqui assistindo ao seriado “A Saga do Tri”, produção da Netflix, que ficcionaliza nossa conquista mundial de 1970, e me peguei pensando no quanto um cristão pode aprender com o torcer no futebol.

Não me refiro à torcida enquanto fé e esperança desvirtuadas em superstições tolas, ainda que divertidas, como as de Zagallo, obrigando os jogadores a pisarem com o pé direito ao chegarem no México, sua mania com o número 13, seu santinho quebrado antes da semifinal. 

Tampouco dos torcedores jogando sal grosso no campo para tentar espantar o fantasma do Maracanazo antes da semifinal contra o Uruguai. Ou as que fazemos, como os rituais que precisam ser repetidos antes e durante os jogos. Tem de usar a mesma roupa que costuma “trazer” vitórias, sentar no mesmo lugar, acender velas sobre a TV etc. 

Quando você descasca os eufemismos, como o de “é pra dar sorte”, quando desnuda a verdade, resta o desejo de poder sobre o destino. Toda superstição é, no fundo, desejo de poder determinar o destino. É um contrato imposto por nós a Deus (ou deuses, a depender da crença). Se eu fizer isso e aquilo e mais “aqueloutro”, tudo certinho, Deus atenderá meu desejo. 

A diferença para quem faz “trabalhos para amarrar a pessoa amada”, ou se vingar de alguém ou conseguir algo, está apenas na sinceridade de explicitamente desejar o poder de determinar o destino.

Há uma cena do seriado que acho didática. No último capítulo, antes da grande final, Pelé sentia o peso do mundo nos ombros. Decide ligar para casa e fala, primeiro, com o pai, que pesa ainda mais a responsabilidade sobre o filho, dizendo que ele vai ganhar, vai calar a boca de quem achava que tinha morrido pro futebol. Pelé pede, então, para falar com a mãe. 

Dona Celeste, muito mais perceptiva, não precisa que o filho fale nada, mas sabe o que precisa dizer naquele momento: “Reza, meu filho, apenas reza. Deus sempre cuidou do teu destino”. Na cena seguinte, Pelé foge da concentração no porta-malas do carro de João Saldanha e vão a uma igreja. É lá que Pelé queria rezar. O enquadramento dele de joelhos, com o ateu João Saldanha chegando e também se colocando de joelhos é a melhor cena do seriado.

Saldanha interrompe a oração de Pelé, perguntando se estava pedindo para ganhar o título. Pelé responde: “Nunca rezo pedindo pra ganhar jogo”. Saldanha pergunta para o que ele reza, então. Pelé não responde, apenas pede para ficar sozinho, mas acaba conversando sobre um acontecido na infância, achando que tinha uma dívida com Deus por tê-lo salvado de uma tragédia, que Ele vinha cobrando o preço por isso e temia que na final do Mundial tivesse de pagar um pouco mais com a derrota.

Percebe a dinâmica de poder aí? Deus é um agiota que cobra caro a conta pelas graças concedidas. Pelé não pediu pra ganhar porque acreditava que já tinha recebido o suficiente e restava pagar o preço. É uma superstição. O que ele pedia naquela oração, portanto, só podia ser para ser liberado da dívida ou que esta fosse adiada para depois. 

Melhor seria se pedisse para ganhar o jogo, sim, para ganhar todos, ser campeão sempre. Como uma criança que pede tudo ao pai e deixa que Ele decida o que é melhor, não como quem faz ou promete sacrifícios. É o que sua mãe pediu: “Deus sempre cuidou do teu destino”. Ou seja, confia nEle. Ponto final. Isso é fé. 

E é interessante como todo torcedor saudável, ainda que mantenha suas superstições (eu tenho algumas: camisa ganhadora se repete etc), sem levá-las a ferro e fogo, sabe que sua esperança não está nessas coisas. Que isso faz parte da diversão inerente ao torcer, apenas isso. 

Se levar a sério mesmo essas bobagens, desistiria muito rapidamente de torcer, afinal, sofre-se mais com o futebol do que se sorri. Nenhum time, seleção, jogador, ganha mais do que perde. Por exemplo, o Brasil, que é a seleção que mais ganhou Copas, levou 5, mas perdeu 17… 

Se não for por amor…

É o que sustenta o torcer. Não são as vitórias, os títulos, mas o amor pelo time. O amor que faz acompanhar o dia-a-dia do clube, ter a memória vivíssima da sua história. O amor que faz conhecer a alma do time e o estilo de jogo que melhor lhe cabe, sabendo mais e melhor do que qualquer técnico que esteja no comando. 

Amor que faz renovar a fé e esperança depois de cada jogo, de cada campeonato, independente do resultado. Se o time ganhar, é o Paraíso na terra. Se perder, o Inferno. Mas amanhã estaremos lá a torcer de novo, seja para tentar repetir o triunfo, seja para superar a derrota. É o amor que faz ir ao estádio em horários horrorosos e em dias impossíveis. Se não for por amor…

Quando digo que muito cristão pode aprender a amar assim, refiro-me àqueles que vivem a fé como torcedores de conveniência ou obcecados apenas por rituais externos.

Conheci uma senhora de certa idade. A casa abarrotada de objetos de devoção, rezava toda novena que aparecesse, participava de pastorais, adorava ir nos dias em que se rezava 1000 Aves Marias. Mas não se confessava há 50 anos… Era como o torcedor cheio de patuás e camisas da sorte, mas que não conhece a alma do próprio clube, nem entra em campo de verdade através do encontro com Jesus.

Conheci também várias pessoas que, não entendendo nem aguentando porque Deus lhes fazia sofrer tanto, carregando tantas cruzes sem enxergarem bênçãos e graças em suas vidas, viram amornar a fé até esfriar de vez. Esqueceram o que qualquer torcedor de arquibancada sabe: o amor não depende do placar do dia. Se abandonamos o barco na primeira ou quinquagésima temporada de derrotas, nunca foi amor; era apenas vaidade de querer vencer sempre.

E que dizer da raiva que se passa com tanta música ruim em missa, com tanto padre desleixado, com tanta intriga entre paroquianos, com dízimo em dia e esmola só quando mendigo tiver pix? São os nossos “horários horrorosos e dias impossíveis”. A paróquia pode estar em crise, a “diretoria” da comunidade pode bater cabeça e o “estádio” pode ser desconfortável. Mas o católico autêntico não rasga a carteirinha de sócio por causa disso. Ele sofre, reclama, mas permanece lá, de pé, porque o seu vínculo não é com a perfeição dos homens, mas com Aquele que ama.

Se não for por amor, a Igreja vira um clube de campo burocrático e a nossa oração, uma mesa de negociações supersticiosas. Há o que se aprender com as arquibancadas a gastar a vida por aquilo que amamos. Que possamos olhar para o céu, desarmados de cobranças e cheios de fidelidade, repetindo a sabedoria de Dona Celeste para os nossos próprios corações nos dias de goleada ou de jejum de títulos: “Apenas reza. Deus sempre cuidou do teu destino”. Por amor.

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