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Estou ficando velha
Por Débora Luciano
|
05.ago.2026
Midle Dot

Faço trinta e dois anos. Uma idade na qual as piadinhas sobre envelhecimento começam a se tornar mais delicadas. Talvez por isso, no lugar do conhecido “tá ficando velha, hein?”, hoje recebi mais de “nossa, você parece mais nova!”. Em um futuro próximo, tenho certeza de que a pergunta “quantos anos mesmo?” deverá seguir um novo protocolo.

Envelhecer é mesmo mais complicado para mulheres.

Enquanto sopro a velhinha no formato de “?”, penso que Susan Sontag 1está certa ao constatar que apenas as mulheres se preocupam com a idade com esse grau de futilidade e drama. Os homens não participam desta corrida desesperada contra o calendário, pelo contrário, parecem conquistar mais sucesso à medida que o tempo passa. Por quê? Talvez porque não precisem ser bonitos para serem desejáveis… 

As luzes já estão acesas, preciso escolher para quem vai o primeiro pedaço de bolo (meu filho, ou meu marido, eles brigam de mentirinha), mas, antes de decidir, divago que o problema feminino parece não ser tanto envelhecer, e sim dissolver. E o que se dissolve, acima de tudo, é a beleza. 

O problema não é morrer, e sim viver feia.

Sontag, melhor do que ninguém, consegue mapear o maquinário externo que torna o fim da beleza tão difícil: o treinamento das meninas, desde muito novas, para se interessarem pela própria aparência; a pressão social para que a mulher esteja sempre bonita; a ausência de espaço para a vulnerabilidade na visão do Progresso; e tudo isso é com certeza verdade. 

Mas Sontag especula que a causa dessa vaidade é totalmente externa. Ela argumenta que as mulheres carregam essa neurose, e não os homens, porque não são criadas para ser “plenamente adultas”, incentivadas a desenvolver outras habilidades, como o esporte, e a participar de profissões liberais.

Não sei o quanto disso era verdade em 1972, data do ensaio, mas não é verdade hoje. Nunca ganhei conjuntinho de maquiagem ou Barbie. Eu era levada para pescarias no meio do mato. Pratiquei esportes a vida toda, futebol, vôlei. Sou, aliás, advogada nas horas vagas – e a maior parte das minhas amigas seguiu o mesmo caminho. Mesmo assim, o duplo padrão permanece.

Poderíamos dobrar a aposta e continuar procurando mais agentes externos. Mas proponho, ainda que por um instante, olhar para dentro, para algo que a própria Sontag consegue tocar, sem, no entanto, capturar: envelhecer como uma crise da imaginação.

A juventude fornece chaves brilhantes. Quando a mulher é menina, ela pode começar uma carreira incrível que vai levá-la, de terno e salto alto, para as ruas de Nova Iorque. Pode ser uma grande acadêmica, trafegando apressadamente entre prazos, Sorbonne e Cambridge. Ou ainda viver romances avassaladores, com homens incríveis, muito parecidos com aqueles que ela vê nos filmes e lê nos folhetins. Enquanto menina, o mundo está inteiro à sua disposição, e as portas que as chaves abrem são infinitas.

Mas a juventude não é eterna. Aliás, talvez nunca tenha sido real. Os caminhos imaginados sempre foram só isso: criações que preenchem o vazio da alma. Pois a alma que sempre deseja muito – deseja até mesmo ser inteira – acredita muitas vezes poder encontrar esse muito na matéria. Nas viagens, na fama, no dinheiro, no sucesso profissional. E, até certo ponto, consegue mesmo se alimentar dessas expectativas, algumas mais ou menos cumpridas, mas nunca se fartar. 

A ilusão da posse do tempo se dissolve para as mulheres mais rapidamente do que para os homens. O corpo feminino, mais aberto à criação através da maternidade, reflete a limitação das possibilidades humanas ainda no florescer da vida adulta. É sua própria constituição que arrasta as mulheres para a realidade, de volta do futuro-do-presente, e, uma vez ancoradas na rotina, são forçadas a encarar as circunstâncias como são.

Esse processo é doloroso, pois envolve abrir mão de parte da própria personalidade (na verdade, de algumas falsidades que se travestiram de eu, mas só ficamos sabendo depois). Envolve, principalmente, perceber que a ideia de que somos capazes de controlar totalmente os rumos da vida é uma bela farsa. E é ainda mais doloroso quando essa verdade precisa ser encarada no espelho todas as manhãs. É compreensível a recusa de quem não consegue fazê-lo.

Mas, se uma moça-mulher ainda pode tentar arrastar a imaginação para dentro da casa dos 30, talvez dos 40 com a ajuda de alguma técnica, certamente estará em maus lençóis se continuar evitando a morte das possibilidades aos 50.

Então podemos nos ajudar a sofrer menos com a dissolução da beleza, como recomenda Sontag, almejando ser sábias, não apenas agradáveis; competentes, não apenas prestativas; fortes, não apenas graciosas; ambiciosas por nós mesmas, não apenas pelos homens e pelas crianças. Mas só poderemos realmente envelhecer de forma natural e sem constrangimentos quando, a cada bolo de aniversário, deixarmos para trás tudo aquilo que “poderíamos ter sido”.

Devemos parar de mentir, claro!, mas ver a verdade só é possível quando tiramos da frente alguns ressentimentos do passado e outras promessas de um futuro glorioso esperado. Devemos deixar nossos rostos mostrarem a vida que levamos, sim!, mas principalmente a vida que deixamos de sonhar. 

E o primeiro pedaço do bolo vai para… Não deve ser tão difícil assim escolher, certo?

Notas de rodapé:

  1.  Susan Sontag, “The Double Standard of Aging,” in On Women, ed. David Rieff (New York: Farrar, Straus and Giroux, 2023). Publicado originalmente em The Saturday Review, 23 de setembro de 1972.
    ↩︎

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Faço trinta e dois anos. Uma idade na qual as piadinhas sobre envelhecimento começam a se tornar mais delicadas. Talvez por isso, no lugar do conhecido “tá ficando velha, hein?”, hoje recebi mais de “nossa, você parece mais nova!”. Em um futuro próximo, tenho certeza de que a pergunta “quantos anos mesmo?” deverá seguir um novo protocolo.

Envelhecer é mesmo mais complicado para mulheres.

Enquanto sopro a velhinha no formato de “?”, penso que Susan Sontag 1está certa ao constatar que apenas as mulheres se preocupam com a idade com esse grau de futilidade e drama. Os homens não participam desta corrida desesperada contra o calendário, pelo contrário, parecem conquistar mais sucesso à medida que o tempo passa. Por quê? Talvez porque não precisem ser bonitos para serem desejáveis… 

As luzes já estão acesas, preciso escolher para quem vai o primeiro pedaço de bolo (meu filho, ou meu marido, eles brigam de mentirinha), mas, antes de decidir, divago que o problema feminino parece não ser tanto envelhecer, e sim dissolver. E o que se dissolve, acima de tudo, é a beleza. 

O problema não é morrer, e sim viver feia.

Sontag, melhor do que ninguém, consegue mapear o maquinário externo que torna o fim da beleza tão difícil: o treinamento das meninas, desde muito novas, para se interessarem pela própria aparência; a pressão social para que a mulher esteja sempre bonita; a ausência de espaço para a vulnerabilidade na visão do Progresso; e tudo isso é com certeza verdade. 

Mas Sontag especula que a causa dessa vaidade é totalmente externa. Ela argumenta que as mulheres carregam essa neurose, e não os homens, porque não são criadas para ser “plenamente adultas”, incentivadas a desenvolver outras habilidades, como o esporte, e a participar de profissões liberais.

Não sei o quanto disso era verdade em 1972, data do ensaio, mas não é verdade hoje. Nunca ganhei conjuntinho de maquiagem ou Barbie. Eu era levada para pescarias no meio do mato. Pratiquei esportes a vida toda, futebol, vôlei. Sou, aliás, advogada nas horas vagas – e a maior parte das minhas amigas seguiu o mesmo caminho. Mesmo assim, o duplo padrão permanece.

Poderíamos dobrar a aposta e continuar procurando mais agentes externos. Mas proponho, ainda que por um instante, olhar para dentro, para algo que a própria Sontag consegue tocar, sem, no entanto, capturar: envelhecer como uma crise da imaginação.

A juventude fornece chaves brilhantes. Quando a mulher é menina, ela pode começar uma carreira incrível que vai levá-la, de terno e salto alto, para as ruas de Nova Iorque. Pode ser uma grande acadêmica, trafegando apressadamente entre prazos, Sorbonne e Cambridge. Ou ainda viver romances avassaladores, com homens incríveis, muito parecidos com aqueles que ela vê nos filmes e lê nos folhetins. Enquanto menina, o mundo está inteiro à sua disposição, e as portas que as chaves abrem são infinitas.

Mas a juventude não é eterna. Aliás, talvez nunca tenha sido real. Os caminhos imaginados sempre foram só isso: criações que preenchem o vazio da alma. Pois a alma que sempre deseja muito – deseja até mesmo ser inteira – acredita muitas vezes poder encontrar esse muito na matéria. Nas viagens, na fama, no dinheiro, no sucesso profissional. E, até certo ponto, consegue mesmo se alimentar dessas expectativas, algumas mais ou menos cumpridas, mas nunca se fartar. 

A ilusão da posse do tempo se dissolve para as mulheres mais rapidamente do que para os homens. O corpo feminino, mais aberto à criação através da maternidade, reflete a limitação das possibilidades humanas ainda no florescer da vida adulta. É sua própria constituição que arrasta as mulheres para a realidade, de volta do futuro-do-presente, e, uma vez ancoradas na rotina, são forçadas a encarar as circunstâncias como são.

Esse processo é doloroso, pois envolve abrir mão de parte da própria personalidade (na verdade, de algumas falsidades que se travestiram de eu, mas só ficamos sabendo depois). Envolve, principalmente, perceber que a ideia de que somos capazes de controlar totalmente os rumos da vida é uma bela farsa. E é ainda mais doloroso quando essa verdade precisa ser encarada no espelho todas as manhãs. É compreensível a recusa de quem não consegue fazê-lo.

Mas, se uma moça-mulher ainda pode tentar arrastar a imaginação para dentro da casa dos 30, talvez dos 40 com a ajuda de alguma técnica, certamente estará em maus lençóis se continuar evitando a morte das possibilidades aos 50.

Então podemos nos ajudar a sofrer menos com a dissolução da beleza, como recomenda Sontag, almejando ser sábias, não apenas agradáveis; competentes, não apenas prestativas; fortes, não apenas graciosas; ambiciosas por nós mesmas, não apenas pelos homens e pelas crianças. Mas só poderemos realmente envelhecer de forma natural e sem constrangimentos quando, a cada bolo de aniversário, deixarmos para trás tudo aquilo que “poderíamos ter sido”.

Devemos parar de mentir, claro!, mas ver a verdade só é possível quando tiramos da frente alguns ressentimentos do passado e outras promessas de um futuro glorioso esperado. Devemos deixar nossos rostos mostrarem a vida que levamos, sim!, mas principalmente a vida que deixamos de sonhar. 

E o primeiro pedaço do bolo vai para… Não deve ser tão difícil assim escolher, certo?

Notas de rodapé:

  1.  Susan Sontag, “The Double Standard of Aging,” in On Women, ed. David Rieff (New York: Farrar, Straus and Giroux, 2023). Publicado originalmente em The Saturday Review, 23 de setembro de 1972.
    ↩︎

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