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Quem cuida de quem cuida? Uma análise de The Pitt
Por Francisco Escorsim
|
10.set.2026
Midle Dot

Em 2025, The Pitt recebeu 13 indicações para o Emmy, o Oscar da TV, ganhando cinco. Um ano depois, chega à nova cerimônia com 25 indicações, liderando tudo. Curioso, fui conferir o seriado. 

Sem muita expectativa, porém; já tem anos que essas premiações vão para obras que “representam” algo, não por mérito artístico. Mas me surpreendi e teria me surpreendido mesmo que tivesse criado expectativas. A série é realmente muito boa. 

Virão spoilers no que segue, é claro.

O arquétipo do cuidador ferido

Talvez o prêmio mais justo tenha sido o de melhor ator em série de drama para Noah Wyle, que concorre novamente neste ano e merece levar também. Não só por sua atuação exemplar na temporada, mas pelo, digamos assim, conjunto da obra.

Creio que Noah era mais conhecido por ter interpretado o médico novato na famosa série médica dos anos 90, E.R. Tornou-se um dos principais personagens daquele seriado. Seu retorno à fama agora, interpretando outro médico, Robby, um veterano de 50 anos que ensina novatos, torna inevitável enxergar uma conexão entre ambos.

A escolha do mesmo ator para personagens que permitem serem vistos como o mesmo faz com que os 30 anos entre as séries deem ao Robby de The Pitt uma consistência existencial maior e Noah a representa com brilhantismo, aproveitando bem as marcas do envelhecimento. E foi a intenção dos produtores, sem dúvida.

Como a estrutura de The Pitt acompanha hora a hora de um plantão na emergência hospitalar, sua forma ideal de assistir é maratonando os episódios para que a experiência de imersão aconteça. Na forma espaçada com que os episódios são lançados, porém, a concentração dramática se dilui, com o espectador facilmente esquecendo que tudo está acontecendo sem intervalos. E isso importa mais do que parece.

Os personagens quase não tem tempo para nada. Precisam tomar decisões imediatas e lidar com seus dramas pessoais enquanto atendem incessantemente as emergências que surgem. Por isso, pode dar a impressão, na primeira temporada, de que se demora a apresentar a gravidade da crise existencial pela qual passa Robby. 

Sabemos desde o início que o plantão se passa no mesmo dia em que seu mentor morreu na pandemia da covid e que Robby não conseguiu salvá-lo. Entendemos que isso torna seu dia mais difícil, mas é só nos episódios finais que se revela que seu drama é muito pior, com ele pensando seriamente em se jogar do telhado do hospital no último episódio.

O interessante no seriado é como ninguém percebia a gravidade da situação. Robby escondia muito bem sua dor. E não era o único. Dana, a enfermeira-chefe que mantém tudo funcionando, esconde o trauma depois de ter sido agredida durante um plantão. Langdon, o médico que é braço direito de Robby, tentou esconder seu vício em medicamentos. Al-Hashimi, a médica da segunda temporada, sofre crises de ausência e as esconde também. 

Há outros exemplos do mesmo drama que faz The Pitt ser menos sobre emergência médica e mais um drama típico do “Cuidador Ferido”, para usar a expressão cunhada por Jung para um dos arquétipos humanos. O drama típico acontece quando o cuidador precisa ser cuidado, mas resiste a pedir ajuda. O orgulho está em achar que ele se cura ao cuidar dos outros, não deixando-se cuidar por eles.

Na primeira temporada, o drama se apresenta e na segunda é melhor desenvolvido, quando vemos que Robby já passou por alguns terapeutas e não parece disposto a continuar, preferindo tirar alguns meses sabáticos para rodar de moto sozinho pelo país. O cuidador acredita que pode se cuidar e curar por conta própria. Quando Dana o confronta sobre sua decisão, a resposta dele não é sobre o sabático: “E se eu não voltar?”

O que verdadeiramente cura

Robby perdeu a vontade de viver e temia que o hospital fosse a única coisa que o distraía do seu vazio. E quando o vazio se impunha, o desespero tomava conta. 

Há uma cena emblemática na primeira temporada. Em meio ao caos no hospital pelo acúmulo de feridos em um atentado, Robby desaba no chão depois de não conseguir salvar a namorada de seu ex-enteado. 

Eis que o vemos segurando a Estrela de Davi, repetindo a oração da Shemá (afirmação de fé judaica) entre lágrimas. Não sabe por que reza, tem dúvida se acredita em Deus, mas recorre à oração como quem corre para um colo de mãe. Uma mãe que não teve, como descobrimos apenas na segunda temporada.

No primeiro episódio da segunda, um bebê foi abandonado no hospital. Quando Robby o embala, em um episódio mais adiante, confessa algo que ninguém sabia: a mãe o deixou quando ele tinha oito anos e a avó, a mulher que o ensinou a rezar, foi quem cuidou dele. Dana, sempre perspicaz, percebe a abertura e não deixa o momento passar: sugere a adoção do bebê por afinidade afetiva, uma possibilidade dada pela lei americana.

A cena se dá no mesmo espaço onde o seu mentor morreu anos atrás. O lugar onde a crise havia começado é também onde a cura poderia começar a acontecer. A ressignificação do hospital acontece também no fim da temporada, no terraço onde Robby contemplou o suicídio no último episódio da primeira temporada. Agora, é ocupado por vários cuidadores do hospital se abraçando vendo os fogos do feriado americano de 4 de julho. 

A oração que Robby repete no chão começa com uma palavra: “Ouve”. Talvez seja isso, no fundo, que verdadeiramente cura, não o corpo, mas a alma: saber que alguém ouve. E é nesse cuidado mútuo, imperfeito, que Deus aparece, mesmo quando ninguém o nomeia. 

Leia mais de Francisco Escorsim 

Gostou desta análise de The Pitt? Confira outros ensaios escritos pelo autor: 

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Em 2025, The Pitt recebeu 13 indicações para o Emmy, o Oscar da TV, ganhando cinco. Um ano depois, chega à nova cerimônia com 25 indicações, liderando tudo. Curioso, fui conferir o seriado. 

Sem muita expectativa, porém; já tem anos que essas premiações vão para obras que “representam” algo, não por mérito artístico. Mas me surpreendi e teria me surpreendido mesmo que tivesse criado expectativas. A série é realmente muito boa. 

Virão spoilers no que segue, é claro.

O arquétipo do cuidador ferido

Talvez o prêmio mais justo tenha sido o de melhor ator em série de drama para Noah Wyle, que concorre novamente neste ano e merece levar também. Não só por sua atuação exemplar na temporada, mas pelo, digamos assim, conjunto da obra.

Creio que Noah era mais conhecido por ter interpretado o médico novato na famosa série médica dos anos 90, E.R. Tornou-se um dos principais personagens daquele seriado. Seu retorno à fama agora, interpretando outro médico, Robby, um veterano de 50 anos que ensina novatos, torna inevitável enxergar uma conexão entre ambos.

A escolha do mesmo ator para personagens que permitem serem vistos como o mesmo faz com que os 30 anos entre as séries deem ao Robby de The Pitt uma consistência existencial maior e Noah a representa com brilhantismo, aproveitando bem as marcas do envelhecimento. E foi a intenção dos produtores, sem dúvida.

Como a estrutura de The Pitt acompanha hora a hora de um plantão na emergência hospitalar, sua forma ideal de assistir é maratonando os episódios para que a experiência de imersão aconteça. Na forma espaçada com que os episódios são lançados, porém, a concentração dramática se dilui, com o espectador facilmente esquecendo que tudo está acontecendo sem intervalos. E isso importa mais do que parece.

Os personagens quase não tem tempo para nada. Precisam tomar decisões imediatas e lidar com seus dramas pessoais enquanto atendem incessantemente as emergências que surgem. Por isso, pode dar a impressão, na primeira temporada, de que se demora a apresentar a gravidade da crise existencial pela qual passa Robby. 

Sabemos desde o início que o plantão se passa no mesmo dia em que seu mentor morreu na pandemia da covid e que Robby não conseguiu salvá-lo. Entendemos que isso torna seu dia mais difícil, mas é só nos episódios finais que se revela que seu drama é muito pior, com ele pensando seriamente em se jogar do telhado do hospital no último episódio.

O interessante no seriado é como ninguém percebia a gravidade da situação. Robby escondia muito bem sua dor. E não era o único. Dana, a enfermeira-chefe que mantém tudo funcionando, esconde o trauma depois de ter sido agredida durante um plantão. Langdon, o médico que é braço direito de Robby, tentou esconder seu vício em medicamentos. Al-Hashimi, a médica da segunda temporada, sofre crises de ausência e as esconde também. 

Há outros exemplos do mesmo drama que faz The Pitt ser menos sobre emergência médica e mais um drama típico do “Cuidador Ferido”, para usar a expressão cunhada por Jung para um dos arquétipos humanos. O drama típico acontece quando o cuidador precisa ser cuidado, mas resiste a pedir ajuda. O orgulho está em achar que ele se cura ao cuidar dos outros, não deixando-se cuidar por eles.

Na primeira temporada, o drama se apresenta e na segunda é melhor desenvolvido, quando vemos que Robby já passou por alguns terapeutas e não parece disposto a continuar, preferindo tirar alguns meses sabáticos para rodar de moto sozinho pelo país. O cuidador acredita que pode se cuidar e curar por conta própria. Quando Dana o confronta sobre sua decisão, a resposta dele não é sobre o sabático: “E se eu não voltar?”

O que verdadeiramente cura

Robby perdeu a vontade de viver e temia que o hospital fosse a única coisa que o distraía do seu vazio. E quando o vazio se impunha, o desespero tomava conta. 

Há uma cena emblemática na primeira temporada. Em meio ao caos no hospital pelo acúmulo de feridos em um atentado, Robby desaba no chão depois de não conseguir salvar a namorada de seu ex-enteado. 

Eis que o vemos segurando a Estrela de Davi, repetindo a oração da Shemá (afirmação de fé judaica) entre lágrimas. Não sabe por que reza, tem dúvida se acredita em Deus, mas recorre à oração como quem corre para um colo de mãe. Uma mãe que não teve, como descobrimos apenas na segunda temporada.

No primeiro episódio da segunda, um bebê foi abandonado no hospital. Quando Robby o embala, em um episódio mais adiante, confessa algo que ninguém sabia: a mãe o deixou quando ele tinha oito anos e a avó, a mulher que o ensinou a rezar, foi quem cuidou dele. Dana, sempre perspicaz, percebe a abertura e não deixa o momento passar: sugere a adoção do bebê por afinidade afetiva, uma possibilidade dada pela lei americana.

A cena se dá no mesmo espaço onde o seu mentor morreu anos atrás. O lugar onde a crise havia começado é também onde a cura poderia começar a acontecer. A ressignificação do hospital acontece também no fim da temporada, no terraço onde Robby contemplou o suicídio no último episódio da primeira temporada. Agora, é ocupado por vários cuidadores do hospital se abraçando vendo os fogos do feriado americano de 4 de julho. 

A oração que Robby repete no chão começa com uma palavra: “Ouve”. Talvez seja isso, no fundo, que verdadeiramente cura, não o corpo, mas a alma: saber que alguém ouve. E é nesse cuidado mútuo, imperfeito, que Deus aparece, mesmo quando ninguém o nomeia. 

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