Memes. Dancinhas. Bordões que duram quinze segundos. Candidatos que se comportam como influenciadores e campanhas organizadas segundo a lógica do algoritmo. O sujeito pretende administrar hospitais, escolas, presídios, bilhões em impostos, mas aparece diante do eleitor ensaiando coreografias. Há nisso uma obscenidade que não depende de esquerda ou direita. O esgoto não escolhe ideologia. A fila do hospital público não distingue o pobre. A ponte que desaba não consulta a preferência partidária de quem está passando. Quem pede o voto de gente cercada por tamanhas urgências deveria sentir sobre os ombros o peso da responsabilidade histórica. Acontece o contrário.
Observe a política contemporânea. O debate nacional é continuamente interrompido por disputas de imagem, vídeos meticulosamente calculados para repercutir nas redes, brigas familiares convertidas em fofocas públicas, frases produzidas para alimentar militâncias que vivem em estado permanente de mobilização. O Brasil tem problemas de adulto e uma conversa pública de criança. Mudam as músicas, os slogans e os inimigos. Permanece a convicção de que o brasileiro precisa ser tratado como alguém incapaz de suportar três minutos consecutivos de pensamento. A esquerda dança. A direita também. Um lacra, outro mita. Ambos possuem equipes encarregadas de converter qualquer questão nacional numa pequena descarga de dopamina. Nosso país parece incapaz de permanecer alguns dias discutindo orçamento, infraestrutura, produtividade ou alfabetização. Tudo é rapidamente absorvido pela lógica do espetáculo. A classe política brasileira parece ter concluído que, diante de problemas demasiado grandes, o melhor é diminuir a inteligência da conversa. Não se simplificam apenas as propostas: simplifica-se o cidadão a quem elas se dirigem. Parte-se do princípio de que o eleitor seja incapaz de acompanhar raciocínios, compreender causas e consequências ou suportar explicações que durem mais do que um reels. Em vez de contrariar essa tendência, a política se ajoelha diante dela. E depois chama isso de comunicação popular.
Existem diferenças brutais entre dizer com clareza e tratar o interlocutor como idiota. Mesmo os grandes demagogos do passado reconheciam alguma solenidade no ato de falar à população. O palanque podia ter mentira, vaidade, exagero, messianismo. Mas ainda existia o palanque. Talvez esse seja um dos pequenos símbolos de nossa decadência política: substituímos o palanque pelo celular e imaginamos que a mudança fosse apenas tecnológica. Não foi. Mudou também a concepção do voto. O cidadão deixou de ser alguém a convencer e passou a ser alguém a capturar. É preciso manter a audiência presa ao vídeo, provocar resposta imediata e pôr diante dele adversários reconhecíveis. O discurso público brasileiro se mede em segundos. E quem disputa segundos não pode explicar o Brasil.
Como entender em quinze segundos a falência educacional de um país? Como discutir segurança pública sem falar de fronteiras, sistema penitenciário, urbanização, polícia e organizações criminosas? É essa dissonância que me parece obscena. A democracia educa pela maneira como fala consigo mesma. Uma sociedade aprende o que é política observando aquilo que seus políticos consideram digno de ser dito. Argumentos, mesmo ruins, pressupõem no cidadão a capacidade de julgá-los. Programas partem da ideia de que escolhas públicas possuem consequências. Debates longos concedem às questões difíceis o tempo que elas exigem. Coreografias, lacrações, frases recortáveis e pequenas guerras digitais ensinam o contrário: política não exige estudo, memória, comparação ou paciência. Basta torcida e reação.
Nesse ambiente, governantes não precisam de cidadãos. Precisam de devotos. Talvez por isso a infantilização seja tão conveniente. O eleitor adulto é um sujeito perigosíssimo. Ele compara promessas com resultados, lembra o que lhe disseram quatro anos antes, consulta números, desconfia do próprio candidato, admite que o adversário possa eventualmente estar certo e, horror dos horrores, muda de opinião. O eleitor infantilizado oferece menos riscos. Basta mantê-lo permanentemente estimulado. Enquanto isso, o comerciante continua pagando imposto ao Estado e, em certos lugares, uma segunda tributação ao crime.
Mas haverá filtros, cortes rápidos, slogans, hashtags, influenciadores contratados, batalhas de comentários e candidatos tentando demonstrar que são “gente como a gente” porque aprenderam a coreografia do momento. Pouco importa que ninguém tenha compreendido o que se pretende fazer com o país. A caricatura tornou-se tão habitual que acabou convertida em requisito para quem ocupa a vida pública. Desse hábito nasceu a seleção negativa da inteligência: premiamos quem reduz, castigamos quem explica e depois nos perguntamos por que o debate é tão pobre. Não é apenas uma crise de representação. É uma crise da própria linguagem.
Um país pode suportar maus governos e sobreviver a eles. Pode atravessar recessões, escândalos. O que se torna mais difícil é sobreviver indefinidamente à destruição dos instrumentos pelos quais reconhece os próprios problemas. Porque chega ao ponto em que a sociedade continua sofrendo, mas já não possui vocabulário para nomear a causa do sofrimento. Resta-lhe apenas escolher culpados, repetir palavras de ordem e esperar a próxima eleição.
Memes. Dancinhas. Bordões que duram quinze segundos. Candidatos que se comportam como influenciadores e campanhas organizadas segundo a lógica do algoritmo. O sujeito pretende administrar hospitais, escolas, presídios, bilhões em impostos, mas aparece diante do eleitor ensaiando coreografias. Há nisso uma obscenidade que não depende de esquerda ou direita. O esgoto não escolhe ideologia. A fila do hospital público não distingue o pobre. A ponte que desaba não consulta a preferência partidária de quem está passando. Quem pede o voto de gente cercada por tamanhas urgências deveria sentir sobre os ombros o peso da responsabilidade histórica. Acontece o contrário.
Observe a política contemporânea. O debate nacional é continuamente interrompido por disputas de imagem, vídeos meticulosamente calculados para repercutir nas redes, brigas familiares convertidas em fofocas públicas, frases produzidas para alimentar militâncias que vivem em estado permanente de mobilização. O Brasil tem problemas de adulto e uma conversa pública de criança. Mudam as músicas, os slogans e os inimigos. Permanece a convicção de que o brasileiro precisa ser tratado como alguém incapaz de suportar três minutos consecutivos de pensamento. A esquerda dança. A direita também. Um lacra, outro mita. Ambos possuem equipes encarregadas de converter qualquer questão nacional numa pequena descarga de dopamina. Nosso país parece incapaz de permanecer alguns dias discutindo orçamento, infraestrutura, produtividade ou alfabetização. Tudo é rapidamente absorvido pela lógica do espetáculo. A classe política brasileira parece ter concluído que, diante de problemas demasiado grandes, o melhor é diminuir a inteligência da conversa. Não se simplificam apenas as propostas: simplifica-se o cidadão a quem elas se dirigem. Parte-se do princípio de que o eleitor seja incapaz de acompanhar raciocínios, compreender causas e consequências ou suportar explicações que durem mais do que um reels. Em vez de contrariar essa tendência, a política se ajoelha diante dela. E depois chama isso de comunicação popular.
Existem diferenças brutais entre dizer com clareza e tratar o interlocutor como idiota. Mesmo os grandes demagogos do passado reconheciam alguma solenidade no ato de falar à população. O palanque podia ter mentira, vaidade, exagero, messianismo. Mas ainda existia o palanque. Talvez esse seja um dos pequenos símbolos de nossa decadência política: substituímos o palanque pelo celular e imaginamos que a mudança fosse apenas tecnológica. Não foi. Mudou também a concepção do voto. O cidadão deixou de ser alguém a convencer e passou a ser alguém a capturar. É preciso manter a audiência presa ao vídeo, provocar resposta imediata e pôr diante dele adversários reconhecíveis. O discurso público brasileiro se mede em segundos. E quem disputa segundos não pode explicar o Brasil.
Como entender em quinze segundos a falência educacional de um país? Como discutir segurança pública sem falar de fronteiras, sistema penitenciário, urbanização, polícia e organizações criminosas? É essa dissonância que me parece obscena. A democracia educa pela maneira como fala consigo mesma. Uma sociedade aprende o que é política observando aquilo que seus políticos consideram digno de ser dito. Argumentos, mesmo ruins, pressupõem no cidadão a capacidade de julgá-los. Programas partem da ideia de que escolhas públicas possuem consequências. Debates longos concedem às questões difíceis o tempo que elas exigem. Coreografias, lacrações, frases recortáveis e pequenas guerras digitais ensinam o contrário: política não exige estudo, memória, comparação ou paciência. Basta torcida e reação.
Nesse ambiente, governantes não precisam de cidadãos. Precisam de devotos. Talvez por isso a infantilização seja tão conveniente. O eleitor adulto é um sujeito perigosíssimo. Ele compara promessas com resultados, lembra o que lhe disseram quatro anos antes, consulta números, desconfia do próprio candidato, admite que o adversário possa eventualmente estar certo e, horror dos horrores, muda de opinião. O eleitor infantilizado oferece menos riscos. Basta mantê-lo permanentemente estimulado. Enquanto isso, o comerciante continua pagando imposto ao Estado e, em certos lugares, uma segunda tributação ao crime.
Mas haverá filtros, cortes rápidos, slogans, hashtags, influenciadores contratados, batalhas de comentários e candidatos tentando demonstrar que são “gente como a gente” porque aprenderam a coreografia do momento. Pouco importa que ninguém tenha compreendido o que se pretende fazer com o país. A caricatura tornou-se tão habitual que acabou convertida em requisito para quem ocupa a vida pública. Desse hábito nasceu a seleção negativa da inteligência: premiamos quem reduz, castigamos quem explica e depois nos perguntamos por que o debate é tão pobre. Não é apenas uma crise de representação. É uma crise da própria linguagem.
Um país pode suportar maus governos e sobreviver a eles. Pode atravessar recessões, escândalos. O que se torna mais difícil é sobreviver indefinidamente à destruição dos instrumentos pelos quais reconhece os próprios problemas. Porque chega ao ponto em que a sociedade continua sofrendo, mas já não possui vocabulário para nomear a causa do sofrimento. Resta-lhe apenas escolher culpados, repetir palavras de ordem e esperar a próxima eleição.
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