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O fim da escala 6×1 e a crise de sentido: para que trabalhamos, afinal?
Por Thomas Giulliano
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19.jun.2026
Midle Dot

Solicitaram-me algumas palavras sobre a escala de trabalho que, nesses dias, absorveu as rinhas políticas. Compreendo a inquietação e reconheço o mérito da demanda. Nota-se, porém, que se tornou um vício social a urgência de escolher um lado a cada novidade que surge. O silêncio passou a ser interpretado como covardia e a opinião ganhou o status de dever cívico. Recuso-me a seguir esse rebanho apressado. Não é o desprezo pelo cansaço do próximo que me faz hesitar. Pelo contrário. É precisamente o respeito pela gravidade do tema que me leva a procurar um horizonte mais amplo. Há assuntos que pedem uma perspectiva mais extensa do que a fornecida pelos acontecimentos do dia. O trabalho é um deles.

A pressa com que o contemporâneo consome os instantes nos subtrai a percepção necessária para entender que o trabalho é a forma pela qual o homem imprime sua marca no mundo, exercendo a soberania que lhe foi confiada desde a aurora dos tempos. O trabalho não nasceu nas linhas de montagem das fábricas nem nos algoritmos que hoje vendem a ilusão da produtividade infinita. Muito antes de surgirem mercados complexos, burocracias estatais ou formas modernas de organização econômica, homens e mulheres já empregavam suas forças para cultivar a terra, erguer moradias, proteger seus filhos. Os campos lavrados, as estradas abertas e os hospitais oncológicos testemunham essa permanência. 

Ao observarmos as obras que herdamos, tendemos a enxergar apenas sua forma presente. Encontramos edifícios, vias de circulação, pontes, escolas e igrejas. O longo processo que lhes deu origem permanece quase sempre oculto. Antes de adquirirem a estabilidade que hoje nos parece natural, conheceram avanços e recuos. Essa dinâmica quase nunca desperta entusiasmo porque seu ritmo é lento. Desenvolve-se ao longo de décadas e, por vezes, atravessa séculos inteiros. Ainda assim, é nela que se encontram muitos dos fundamentos sobre os quais se apoia uma ordem estável.

A historiografia costuma atribuir as grandes transformações a governantes, legisladores ou líderes militares. Entretanto, a continuidade da vida social dependeu muito mais daqueles que raramente encontraram lugar nas páginas dos cronistas. Foram agricultores que garantiram a subsistência de populações inteiras, artesãos que preservaram técnicas transmitidas entre gerações, comerciantes que mantiveram rotas de intercâmbio. 

O homem instagramável subestima o tempo necessário para construir aquilo que sustenta uma sociedade. A experiência histórica sugere o contrário. A civilização possui algo de frágil justamente porque depende de fatores que não podem ser fabricados por decreto nem produzidos em série. Há um caráter sacro no trabalho – atributo que, banido da dignidade espiritual, converte o esforço humano em sucessão repetitiva de gestos sem alcance. É, no fundo, nossa primeira liturgia, a maneira como o homem, transformando a matéria, presta culto ao Criador. Se o trabalho não se presta como serviço a uma causa superior, degrada-se em mera tarefa.

É contra essa redução do homem a uma peça de reposição, um objeto descartável no inventário da modernidade, que se levantou a voz de Leão XIII. Ao encarar as mudanças trazidas pela indústria moderna, ele percebeu que a questão social alcançava uma profundidade muito maior do que aquela sugerida pelas disputas em torno de salários. O que estava em jogo era a própria condição humana. 

As leis trabalhistas possuem importância prática. Contudo, elas ficam incompletas quando são separadas de uma pergunta anterior. Para que serve o trabalho na vida humana? A modernidade trouxe avanços consideráveis na produção de riqueza e ampliou o domínio técnico sobre a matéria. Ao mesmo tempo, favoreceu uma tendência a interpretar o trabalho exclusivamente sob critérios financeiros. Quando isso acontece, corre-se o risco de esquecer que a economia existe para servir ao homem e não o contrário. A redução do trabalho à lógica da produção gera efeitos que ultrapassam a economia. Pouco a pouco, o indivíduo deixa de ser visto como participante de uma tradição histórica e passa a ser reduzido ao que produz.

Nesse contexto, o trabalho perde parte de seu significado mais profundo. Deixa de ser compreendido como elemento de integração social e converte-se em simples mecanismo de sobrevivência. O resultado costuma ser uma sensação difusa de desenraizamento. As pessoas trabalham cada vez mais cercadas por instrumentos capazes de ampliar sua produtividade, mas já não conseguem dizer para que servem os próprios esforços. Essa perda de perspectiva ajuda a explicar muitos impasses psicológicos. Alguns passaram a perceber o trabalho apenas como uma carga da qual gostariam de se desvencilhar. Outros o transformaram na medida suprema do valor humano. Ambas as posições ignoram algo essencial. O trabalho faz parte da experiência humana porque estabelece uma ligação entre o esforço individual e a vida coletiva.

Um país justo não trata empregados e patrões como adversários. Tampouco ignora os conflitos reais que podem existir entre interesses distintos. O desafio consiste em reconhecer que a vida em comum depende de formas de cooperação capazes de harmonizar funções diferentes. Quando se perde o senso de um dever compartilhado, a confiança se deteriora. Quando a confiança é corroída, as instituições perdem vitalidade. Quando as instituições se enfraquecem, cresce a tentação de transferir para estruturas cada vez mais distantes atribuições que antes pertenciam às famílias. Reside aí um dos vícios dessa disputa política.

Em poucos dias, um tema que afeta milhões de pessoas é absorvido pela lógica dos slogans. O trabalhador converte-se em bandeira. O pequeno empreendedor transforma-se em argumento. A dificuldade concreta de ambos desaparece sob uma camada de discursos produzidos para mobilizar curtidas e produzir antagonismos. Enquanto isso, permanecem diante de nós problemas cuja importância raramente desperta mobilização semelhante. Acostumamo-nos a enxergar apenas o ciclo eleitoral, a controvérsia da semana ou a indignação do próximo dia. 

O Brasil continua carregando problemas elementares que atravessaram sucessivos governos e diferentes programas econômicos. O resultado é uma estranha inversão de prioridades. Debatemos mecanismos antes de discutir os fins. Falamos sobre a distribuição do tempo sem perguntar o que estamos fazendo com a vida que esse tempo compõe. O trabalho merece consideração mais séria do que essa. Ele não pertence aos partidos. Não pertence aos governos. Não pertence aos grupos de interesse que tentam utilizá-lo como argumento em disputas circunstanciais. O trabalho é anterior às ideologias que procuram apropriá-lo e sobreviverá aos discursos que hoje pretendem restringir sua interpretação. 

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Solicitaram-me algumas palavras sobre a escala de trabalho que, nesses dias, absorveu as rinhas políticas. Compreendo a inquietação e reconheço o mérito da demanda. Nota-se, porém, que se tornou um vício social a urgência de escolher um lado a cada novidade que surge. O silêncio passou a ser interpretado como covardia e a opinião ganhou o status de dever cívico. Recuso-me a seguir esse rebanho apressado. Não é o desprezo pelo cansaço do próximo que me faz hesitar. Pelo contrário. É precisamente o respeito pela gravidade do tema que me leva a procurar um horizonte mais amplo. Há assuntos que pedem uma perspectiva mais extensa do que a fornecida pelos acontecimentos do dia. O trabalho é um deles.

A pressa com que o contemporâneo consome os instantes nos subtrai a percepção necessária para entender que o trabalho é a forma pela qual o homem imprime sua marca no mundo, exercendo a soberania que lhe foi confiada desde a aurora dos tempos. O trabalho não nasceu nas linhas de montagem das fábricas nem nos algoritmos que hoje vendem a ilusão da produtividade infinita. Muito antes de surgirem mercados complexos, burocracias estatais ou formas modernas de organização econômica, homens e mulheres já empregavam suas forças para cultivar a terra, erguer moradias, proteger seus filhos. Os campos lavrados, as estradas abertas e os hospitais oncológicos testemunham essa permanência. 

Ao observarmos as obras que herdamos, tendemos a enxergar apenas sua forma presente. Encontramos edifícios, vias de circulação, pontes, escolas e igrejas. O longo processo que lhes deu origem permanece quase sempre oculto. Antes de adquirirem a estabilidade que hoje nos parece natural, conheceram avanços e recuos. Essa dinâmica quase nunca desperta entusiasmo porque seu ritmo é lento. Desenvolve-se ao longo de décadas e, por vezes, atravessa séculos inteiros. Ainda assim, é nela que se encontram muitos dos fundamentos sobre os quais se apoia uma ordem estável.

A historiografia costuma atribuir as grandes transformações a governantes, legisladores ou líderes militares. Entretanto, a continuidade da vida social dependeu muito mais daqueles que raramente encontraram lugar nas páginas dos cronistas. Foram agricultores que garantiram a subsistência de populações inteiras, artesãos que preservaram técnicas transmitidas entre gerações, comerciantes que mantiveram rotas de intercâmbio. 

O homem instagramável subestima o tempo necessário para construir aquilo que sustenta uma sociedade. A experiência histórica sugere o contrário. A civilização possui algo de frágil justamente porque depende de fatores que não podem ser fabricados por decreto nem produzidos em série. Há um caráter sacro no trabalho – atributo que, banido da dignidade espiritual, converte o esforço humano em sucessão repetitiva de gestos sem alcance. É, no fundo, nossa primeira liturgia, a maneira como o homem, transformando a matéria, presta culto ao Criador. Se o trabalho não se presta como serviço a uma causa superior, degrada-se em mera tarefa.

É contra essa redução do homem a uma peça de reposição, um objeto descartável no inventário da modernidade, que se levantou a voz de Leão XIII. Ao encarar as mudanças trazidas pela indústria moderna, ele percebeu que a questão social alcançava uma profundidade muito maior do que aquela sugerida pelas disputas em torno de salários. O que estava em jogo era a própria condição humana. 

As leis trabalhistas possuem importância prática. Contudo, elas ficam incompletas quando são separadas de uma pergunta anterior. Para que serve o trabalho na vida humana? A modernidade trouxe avanços consideráveis na produção de riqueza e ampliou o domínio técnico sobre a matéria. Ao mesmo tempo, favoreceu uma tendência a interpretar o trabalho exclusivamente sob critérios financeiros. Quando isso acontece, corre-se o risco de esquecer que a economia existe para servir ao homem e não o contrário. A redução do trabalho à lógica da produção gera efeitos que ultrapassam a economia. Pouco a pouco, o indivíduo deixa de ser visto como participante de uma tradição histórica e passa a ser reduzido ao que produz.

Nesse contexto, o trabalho perde parte de seu significado mais profundo. Deixa de ser compreendido como elemento de integração social e converte-se em simples mecanismo de sobrevivência. O resultado costuma ser uma sensação difusa de desenraizamento. As pessoas trabalham cada vez mais cercadas por instrumentos capazes de ampliar sua produtividade, mas já não conseguem dizer para que servem os próprios esforços. Essa perda de perspectiva ajuda a explicar muitos impasses psicológicos. Alguns passaram a perceber o trabalho apenas como uma carga da qual gostariam de se desvencilhar. Outros o transformaram na medida suprema do valor humano. Ambas as posições ignoram algo essencial. O trabalho faz parte da experiência humana porque estabelece uma ligação entre o esforço individual e a vida coletiva.

Um país justo não trata empregados e patrões como adversários. Tampouco ignora os conflitos reais que podem existir entre interesses distintos. O desafio consiste em reconhecer que a vida em comum depende de formas de cooperação capazes de harmonizar funções diferentes. Quando se perde o senso de um dever compartilhado, a confiança se deteriora. Quando a confiança é corroída, as instituições perdem vitalidade. Quando as instituições se enfraquecem, cresce a tentação de transferir para estruturas cada vez mais distantes atribuições que antes pertenciam às famílias. Reside aí um dos vícios dessa disputa política.

Em poucos dias, um tema que afeta milhões de pessoas é absorvido pela lógica dos slogans. O trabalhador converte-se em bandeira. O pequeno empreendedor transforma-se em argumento. A dificuldade concreta de ambos desaparece sob uma camada de discursos produzidos para mobilizar curtidas e produzir antagonismos. Enquanto isso, permanecem diante de nós problemas cuja importância raramente desperta mobilização semelhante. Acostumamo-nos a enxergar apenas o ciclo eleitoral, a controvérsia da semana ou a indignação do próximo dia. 

O Brasil continua carregando problemas elementares que atravessaram sucessivos governos e diferentes programas econômicos. O resultado é uma estranha inversão de prioridades. Debatemos mecanismos antes de discutir os fins. Falamos sobre a distribuição do tempo sem perguntar o que estamos fazendo com a vida que esse tempo compõe. O trabalho merece consideração mais séria do que essa. Ele não pertence aos partidos. Não pertence aos governos. Não pertence aos grupos de interesse que tentam utilizá-lo como argumento em disputas circunstanciais. O trabalho é anterior às ideologias que procuram apropriá-lo e sobreviverá aos discursos que hoje pretendem restringir sua interpretação. 

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