Você já sentiu que a sua imensa lista de tarefas e a correria do dia a dia tornam difícil até mesmo a ação de parar para rezar o terço?
Por mais que nos comprometemos a viver a religião como o eixo de nossas vidas, as exigências de cada circunstância faz com que, vez ou outra, deixemos em segundo plano a nossa vida espiritual.
Todos os anos, no entanto, a Igreja nos oferece um antídoto para essa agitação, forçando-nos a olhar para o que realmente importa: a Quaresma.
Neste artigo, vamos mergulhar no significado bíblico dos 40 dias, descobrir como os grandes santos viviam este tempo e tirar todas as suas dúvidas práticas sobre oração, jejum e penitência.
O que significa Quaresma na Bíblia?
A palavra Quaresma vem do latim quadragesima, que significa literalmente “quarenta dias”. Mas, na Bíblia, o número 40 não é apenas uma contagem de tempo; ele representa um período de preparação, provação e purificação antes de um grande encontro com Deus.

Vemos esse padrão em toda a história da salvação: o Dilúvio durou 40 dias para purificar a terra; Moisés jejuou por 40 dias no Monte Sinai antes de receber a Lei; e o povo de Israel peregrinou por 40 anos no deserto para que a mentalidade de escravidão fosse substituída pela liberdade de filhos de Deus.
Jesus Cristo, ao se retirar para o deserto por 40 dias em jejum, recapitula toda essa história, vencendo as tentações que o homem, por si só, não conseguia vencer. Ao vivermos a Quaresma, entramos nesse mesmo “tempo de prova”, saindo da nossa zona de conforto, convertendo-nos, para ressuscitar com Cristo na Páscoa.
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Onde encontrar sobre a quaresma na bíblia?
- Mateus 4, 1-11 ou Lucas 4, 1-13: Descrevem os 40 dias de jejum de Jesus e sua vitória sobre as tentações do demônio;
- Gênesis 7, 12: Os 40 dias e 40 noites do Dilúvio, que purificaram a terra para um novo começo com Noé;
- Êxodo 34, 28: Os 40 dias que Moisés passou no Monte Sinai, em jejum absoluto, antes de receber as Tábuas da Lei;
- Números 14, 33-34: Os 40 anos de peregrinação do povo de Israel pelo deserto como tempo de purificação e punição pela desobediência;
- 1 Reis 19, 8: A jornada do profeta Elias, que caminhou 40 dias e 40 noites sustentado por um pão milagroso até chegar ao monte Horebe para encontrar Deus;
- Jonas 3, 4: A pregação de Jonas em Nínive, anunciando que a cidade teria 40 dias para se arrepender e evitar a destruição.
Por que usamos cinzas? O sentido por trás do “Memento Mori”
A quaresma não começa com um convite suave e opcional, mas com um solavanco que interrompe bruscamente a nossa rotina: os 40 dias no deserto tem seu marco na imposição das cinzas.
Cinzas essas que vêm dos ramos que, há exatamente um ano, foram agitados em aclamação a Cristo. E esse detalhe litúrgico já começa a nos ensinar sobre a nossa própria impermanência e infidelidade: por mais que nos achemos amigos de Deus, a distância entre o “Hosana” do triunfo e o pó da sepultura é muito menor do que ousamos imaginar.
Ao marcar nossas testas, a Igreja nos confronta com a nossa verdade nua e crua: despidos de títulos, posses e vaidades, somos todos feitos da mesma argila frágil e dependentes da mesma misericórdia.
Ao ouvir “lembra-te que és pó”, somos nivelados em nossa condição de criaturas: do jovem ao idoso, todos recordam de sua própria fragilidade. Reconhecer-se como pó não é um exercício de morbidez; é admitir que não somos os senhores do tempo, mas peregrinos em trânsito.

Para Santo Afonso de Ligório, essa consciência da morte é caminho da santidade. Em sua obra clássica “Preparação para a Morte”, ele argumenta que o grande drama humano não é o fim da vida, mas o desperdício dela com pecados e futilidades.
Se a vida é curta, cada minuto se torna um tesouro precioso para amar a Deus e ao próximo.
Ao iniciarmos a Quaresma com essa marca, deixamos de viver como se tivéssemos uma eternidade de “amanhãs” para nos converter e passamos a tratar cada dia desses quarenta dias como uma oportunidade de ouro para transfigurar o coração antes do encontro definitivo com o Criador.
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Como viver a quaresma da melhor maneira possível
Para que esse desejo de mudança não fique apenas no campo das intenções, a Igreja nos propõe três exercícios práticos que combatem as raízes do nosso egoísmo e nos ajudam nesse processo de conversão:
1. Jejum: nossa relação com nós mesmos
São Tomás de Aquino ensina que o jejum serve para três propósitos: reprimir as concupiscências da carne, elevar a mente à contemplação das coisas divinas e reparar os nossos pecados. Ao privarmos o nosso corpo de um prazer lícito (como a comida), fortalecemos a nossa vontade para dizer “não” aos prazeres ilícitos.
2. A esmola: nossa relação com o próximo
A verdadeira conversão deve transbordar para o próximo. A esmola cura a alma do apego ao dinheiro e ao conforto. Não se trata apenas de dar o que sobra, mas de oferecer o próprio tempo, talentos e recursos para aliviar o sofrimento de Cristo no irmão necessitado.
3. Oração: nossa relação com Deus
A oração é o fundamento. Sem ela, o jejum é apenas uma dieta e a esmola é apenas filantropia. Na Quaresma, somos convidados a intensificar nossa intimidade com Deus, seja através da Via-Sacra, do Rosário ou da leitura diária da Bíblia. Santo Afonso afirmava categoricamente que “quem reza certamente se salva; quem não reza certamente se condena”.
Quais penitências fazer na Quaresma?
A escolha da sua penitência pessoal deve ser intencional: ela deve atacar o seu principal defeito. Se o seu vício é a preguiça, sua penitência deve ser a diligência; se é a vaidade, atos de humildade.
Aqui estão algumas sugestões baseadas na sabedoria dos santos para viver bem esses quarenta dias:
- Mortificação do corpo: Acordar no “minuto heróico” (levantar logo que o despertador tocar), tomar banhos menos demorados ou comer algo que você não gosta tanto.
- Domínio da língua: Não reclamar do trânsito ou do clima, evitar comentários negativos sobre os outros e sorrir mesmo quando estiver cansado.
- Uso da tecnologia: Reduzir o tempo em redes sociais ou desinstalar aplicativos de entretenimento para dedicar mais tempo ao silêncio e à leitura espiritual.
O que pode e o que não pode na Quaresma?
Muitos fiéis se sentem confusos sobre o que é obrigatório e o que é facultativo. Vamos às regras da Igreja:
Quebrar a penitência da Quaresma é pecado?
Essa é uma das dúvidas que mais geram escrúpulos e confusão no coração dos fiéis. Para respondê-la, precisamos entender que existem dois níveis de compromisso: as leis da Igreja e as suas resoluções pessoais.
A obrigatoriedade do jejum e da abstinência de carne não é apenas uma sugestão piedosa, mas uma norma jurídica e espiritual fundamentada no Código de Direito Canônico (cânones 1249 a 1253) e na Constituição Apostólica Paenitemini, promulgada pelo Papa Paulo VI, em 1966. Esses documentos estabelecem que os fiéis têm o dever divino de fazer penitência e que, para manter a unidade do corpo de Cristo, certos dias são obrigatórios.
Por isso, deixar de observar o jejum na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa — ou a abstinência de carne nas sextas-feiras da Quaresma — sem uma justificativa legítima (como doença ou idade avançada), é considerado um pecado grave (mortal), pois fere o quarto Mandamento da Igreja.
Por outro lado, existe o seu propósito pessoal, como abrir mão do café, do chocolate ou das redes sociais. Essas são “resoluções de amor” que você oferece livremente a Deus para fortalecer sua vontade. Se você esquecer e quebrar esse propósito, você não cometerá pecado.
Como explica o Professor Felipe Aquino, esses propósitos são como um plano de treino espiritual: falhar em um dia de treino não é um crime, mas retira o fruto daquela ascese. Se cair, o segredo não é o desespero, mas a humildade de retomar o sacrifício imediatamente, lembrando que Deus olha mais para a intenção do seu coração do que para a contagem de dias sem chocolates.
Pode comer frango na Quaresma? Por que o peixe é permitido?
Esta é uma dúvida clássica. A lei da abstinência de carne da Igreja refere-se especificamente à carne de animais de “sangue quente” (mamíferos e aves). Como o frango é uma ave, ele está proibido nos dias de abstinência, assim como a carne bovina ou suína.
O peixe é permitido por ser um animal de “sangue frio”. Historicamente, São Tomás de Aquino explicava que as carnes de terra (gado e aves) são mais nutritivas e saborosas, proporcionando maior prazer sensorial; abster-se delas é um sacrifício mais eficaz para domar o corpo. Além disso, na antiguidade, o peixe era o alimento simples dos pobres, enquanto a carne era símbolo de opulência e banquetes.
Os domingos fazem parte da Quaresma? Posso “pausar” minha penitência?
Se você contar no calendário, da Quarta-feira de Cinzas até o Sábado Santo, verá que existem 46 dias. No entanto, a Quaresma é tradicionalmente de 40 dias. Por que essa diferença?
A resposta está na liturgia dominical: os domingos não entram na contagem dos 40 dias de penitência. Todo domingo é uma “Pequena Páscoa”, uma celebração da Ressurreição de Cristo. Por isso, a Igreja não impõe jejum ou abstinência aos domingos. Se você fez um propósito pessoal (como não comer chocolate), você pode legitimamente pausá-lo no domingo para celebrar o Dia do Senhor, retomando a prática na segunda-feira — claro, lembrando-se sempre que convém não exagerar, visto que o período exige recolhimento e penitência.
Quem está isento do jejum e da abstinência de carne?
A Igreja é uma mãe misericordiosa e entende que a ascese não deve destruir a saúde. As obrigatoriedades possuem critérios claros de idade e condição física :
- Abstinência de carne: Obriga todos os fiéis a partir dos 14 anos completos.
- Jejum (uma refeição completa): Obriga todos os fiéis dos 18 aos 59 anos.
- Isenções: Estão dispensados os doentes (físicos ou mentais), mulheres grávidas ou que amamentam, e pessoas que exercem trabalhos manuais ou intelectuais exaustivos que impossibilitem a privação alimentar. Como dizem os bispos: “o bom senso deve prevalecer”, e ninguém deve colocar a saúde em risco.
A Quaresma não é um tempo de tristeza, mas de crescimento espiritual. Todas as privações e cinzas têm um único objetivo: nos despojar de tudo o que é pesado para que possamos caminhar livremente em direção a Deus.
Como ensinava Santo Agostinho, a Quaresma é o tempo do gemido e da luta, mas ela é o prelúdio necessário para o triunfo e o descanso eterno da Páscoa.
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Referências para estudo e aprofundamento:
- Bíblia Sagrada: Gênesis 3, 19; Êxodo 34, 28; Mateus 4, 1-11; 6, 1-18.
- Catecismo da Igreja Católica (CIC): Parágrafos 540, 1430-1439, 2043.
- Santo Afonso de Ligório: Preparação para a Morte e Meditações para a Quaresma.
- São Tomás de Aquino: Suma Teológica (II-II, q. 147 sobre o Jejum; q. 32 sobre a Esmola).
- São Francisco de Sales: Introdução à Vida Devota (Filoteia).
- Constituição Apostólica Paenitemini: Papa Paulo VI (1966).
- Código de Direito Canônico: Cânones 1249-1253.



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