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O mundo reencantado: por que seu filho deve assistir Toy Story
Por Leandro Costa
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19.jun.2026
Midle Dot

Em 1995, a Pixar (até então uma pequena empresa de hardware que passara quase uma década à beira da falência), revolucionou a arte do cinema e a indústria do entretenimento ao lançar o primeiro longa-metragem da história feito inteiramente com computação gráfica: Toy Story: um mundo de aventuras.

Este seria apenas o primeiro de vários filmes de sucesso produzidos pela Pixar, que veio a se consolidar como um dos principais estúdios de animação do mundo, foi adquirida pela Disney em 2006 e povoou o imaginário de algumas gerações de espectadores com uma série de personagens inesquecíveis. 

Para os espectadores da atualidade, no aspecto técnico o primeiro longa do estúdio pode parecer ligeiramente ultrapassado, pois, obviamente, seus gráficos ainda não estavam tão aprimorados como hoje (os movimentos dos personagens, principalmente os humanos, ainda eram robóticos, os elementos orgânicos do mundo, como a água e a grama, ainda pareciam artificiais), mas, além de ter sido, sim, revolucionário em sua técnica, já estava presente no filme o principal elemento que faria com que as narrativas da Pixar se tornassem inconfundíveis: a centralidade da história, sua complexidade humana e sua universalidade. 

A complexidade narrativa dos filmes da Pixar faria com que eles não fossem admirados apenas pelo público infantil, mas por pessoas de todas as faixas etárias. Em sua maioria, eles são exemplos do que na indústria é chamado de “filme de quatro quadrantes”: agradam tanto a homens quanto a mulheres, tanto a pessoas com menos de 25 anos quanto a pessoas que já ultrapassaram esta faixa etária. 

O universo particular criado por Toy Story é um dos mais amados porque, sob a estética infantil da animação, ele revela uma discussão profunda a respeito de temas como a passagem do tempo, a aceitação de si mesmo, a coragem, a honra, a amizade, a maturidade, a comunidade, etc. Uma série de temas universais que até são compreendidos de modo intuitivo pelas crianças, mas que são compreendidos de um modo muito mais profundo pelos adultos. 

Encontrar o seu lugar no mundo

No filme de 1995, o conflito principal gira em torno da insegurança do boneco cowboy Woody. Woody é o brinquedo preferido do menino Andy, e é o líder dos outros brinquedos do quarto, mas, com a chegada de Buzz Lightyear, um boneco espacial moderno e cheio de recursos (como asas automáticas e luzes de laser), Woody acaba sendo deixado de lado. 

Com ciúmes de Buzz, Woody o atira acidentalmente pela janela do quarto. Acreditando que ele foi parar no quintal do vizinho de Andy — Sid, um menino malvado que tortura seus próprios brinquedos —, Woody sai atrás de Buzz e, por fim, os dois bonecos acabam, de fato, indo parar na casa de Sid. 

Para sobreviver, eles precisam cooperar um com o outro até que, por fim, compreendem que havia espaço para os dois na casa de Andy. Por sua vez, Buzz Lightyear também supera sua própria “crise existencial”. Ele descobre que não é um patrulheiro das galáxias real, que é apenas um brinquedo e que esse é o seu verdadeiro papel dentro do mundo: fazer Andy feliz. 

Nascia aí uma amizade cuja base viria a sustentar todo o universo de Toy Story: de um lado, o boneco antigo, com recursos analógicos, um cowboy, símbolo do mito fundador americano do Velho Oeste. De outro, o boneco moderno, com recursos digitais, um astronauta, símbolo do novo mito americano: a conquista do espaço. 

Os ciclos da vida

Em Toy Story 2, lançado em 1999, o conflito principal diz respeito à aceitação da passagem do tempo. Se no primeiro filme Woody precisou compreender que os brinquedos se transformam com o tempo, agora todos os brinquedos precisam lidar com um problema mais profundo: as crianças crescem e, consequentemente, deixam de brincar.

No desenvolvimento do filme, Woody descobre que é um exemplar raro de sua “espécie” e, ao ser roubado por um colecionador ganancioso, se depara com a possibilidade de ir morar em um museu no Japão. Aí, em vez de ser esquecido por um menino que iria crescer e deixaria de brincar, ele seria “adorado para sempre por crianças do mundo inteiro”. 

No entanto, Buzz e os outros brinquedos de Andy o resgatam e o fazem compreender que, por mais efêmera que fosse a alegria de ser amado por Andy, era isso que dava sentido à sua vida. É também neste filme que ficamos conhecendo dois personagens que serão fundamentais nos próximos episódios: a vaqueira Jessie e o cavalo Bala no Alvo. 

Em Toy Story 3 se concretiza o anseio sentido pelos brinquedos no segundo filme : Andy acabou de completar 17 anos e está prestes a ir para a Universidade. Por um equívoco da mãe dele na arrumação do quarto, os brinquedos acabam indo parar no lixo e, depois, na creche chamada Sunnyside. Quando chegam à creche, o lugar parece um paraíso, mas, depois de algum tempo, logo se revela o completo oposto disso: na verdade, a creche é uma prisão para os brinquedos, comandada pelo autoritário Lotso, um ursinho de pelúcia que, depois de ter sido esquecido em um parque pela sua dona, passou a viver de um modo amargurado.

A recusa de Lotso em aceitar a inevitabilidade do abandono e da passagem dos ciclos da vida faz com que ele deixe de acreditar no amor, na amizade, no cuidado — e é por isso que ele se torna alguém amargo e opressor. Os amigos de Woody, por outro lado, aprendem que as mudanças da vida são inevitáveis, e aceitam o seu destino com grande maturidade — o que fica explícito, por exemplo, no clímax do filme, quando, em uma cena de grande excelência técnica, todos estão prestes a morrer no incinerador de lixo e, antes da morte, dão as mãos uns para os outros. 

Ao encarar as mudanças do tempo com uma maturidade maior, eles acabam encontrando novas possibilidades para suas vidas. E aí, seguindo a lógica dos filmes da Pixar — os quais, além da complexidade emocional, sempre trazem um final esperançoso —, os brinquedos de Andy encontram um novo lar: em vez de irem para o lixo ou para a prisão de Sunnyside, eles são doados para a menininha Bonnie, que os trata com o mesmo carinho e amor com os quais Andy cuidava deles. 

Novos caminhos

Toy Story 4 reintroduz alguns conflitos apresentados nos outros filmes: como no primeiro filme, Woody está sofrendo por estar sendo deixado de lado por Bonnie. Agora, ele pretende provar para a menina que ele é necessário na vida dela: e aí, subvertendo a sua própria postura de aceitação construída nos dois filmes anteriores, ele quer se mostrar útil, pois acredita que essa é a “última coisa que lhe resta”. E ele faz isso protegendo Garfinho, um brinquedo artesanal criado por Bonnie. 

Em termos de narrativa e de drama, Toy Story 4 é o filme mais fraco da franquia. Ele acumula muitas subtramas e apresenta o enredo mais inverossímil de todos os 4 filmes, lançando mão de várias intervenções dos brinquedos no mundo dos humanos para resolver vários de seus conflitos.

No entanto, para além da história e dos temas, é o filme que, por motivos óbvios, apresenta a maior complexidade técnica: foi realizado com uma nova forma de renderização, com a tecnologia de path tracing, um algoritmo que reproduz as luzes e as sombras de uma cena em 3D com um nível de fotorrealismo que até então nunca fora atingido. 

Basta observarmos, nesse filme, as cenas iniciais com a chuva, as cenas noturnas no parque, o momento em que Woody vê o abajur de Betty na loja de antiguidades e as luzes do abajur se espalham pela calçada, o modo como os reflexos são trabalhados na imensa variedade dos objetos da loja, etc. São momentos de grande excelência técnica em um filme cujo desenvolvimento narrativo é mais pobre do que o de seus predecessores.

No final do filme, Woody chega à conclusão de que não deve pertencer a apenas uma criança, que existem outras possibilidades para viver no mundo e, à maneira de Betty, sua antiga companheira que já sofrera com inúmeros abandonos, decide viver sem dono, ajudando outros brinquedos perdidos. Ele entrega sua estrela de xerife para Jessie, que será a protagonista do 5º filme.

Agora, em Toy Story 5, os brinquedos enfrentam um novo conflito existencial. Eles são ameaçados pelo seu maior adversário contemporâneo: a tecnologia, representada na figura de Lilypad, um tablet eletrônico que está roubando a atenção de Bonnie, fazendo com que ela não queira mais brincar com os seus brinquedos tradicionais. 

O encantamento do mundo

O que há de tão especial nessa série de filmes, uma das mais lucrativas da história, que faz com que diferentes gerações de espectadores continuem indo ao cinema para acompanhar o universo de Woody e Buzz Lightyear?

Além de algumas das qualidades já apontadas neste texto, penso que o universo de Toy Story apresenta um antídoto contra o que o escritor inglês G. K. Chesterton chamava de “prosaísmo da vida cotidiana”.

Chesterton criticava o fato de que, devido ao intenso desenvolvimento tecnológico, a nossa civilização foi se tornando cada vez mais racionalista, mais apegada a explicações da “ciência” oficial e, consequentemente, foi se distanciando de um tipo de sensibilidade que é fundamental para a vida humana: um olhar encantado para com o mundo, onde os objetos e elementos não têm apenas sua utilidade prática mais aparente, mas fazem parte de um “mundo mágico” em que podem assumir as mais diferentes formas:

“Desde cedo reagi contra a complacência com que [se] aceitava o prosaísmo da vida cotidiana. Eu costumava me divertir com o que pareciam ser fantasias impossíveis de uma poesia ligada aos objetos comuns do cotidiano: imaginava que a caixa de correio era um duende vermelho ou que o ônibus verde era um navio encantado.” 

Este olhar está presente na série de filmes criada por John Lasseter, Andrew Stanton, Lee Unkrich e Pete Docter. Para Chesterton, esse olhar encantado para o mundo não serve apenas para, como ele diz, “tornar a vida mais alegre e interessante”, mas é uma condição fundamental para a preservação da sanidade e para o cultivo do espírito e da fé.

Ao infundir alma em pedaços inanimados de plástico e de madeira, Toy Story nos convida a exercitar essa sensibilidade perdida. Em um mundo onde o racionalismo e o utilitarismo nos tornam cada vez mais insensíveis, os personagens inesquecíveis do universo de Toy Story (reflexos dos nossos anseios, das perdas que sofremos durante a vida, da necessidade de sermos amados e da angústia diante da inevitabilidade do tempo e da morte) nos ajudam a recuperar o olhar encantado necessário para que acreditemos em milagres e para que não aceitemos passivamente o “prosaísmo da vida cotidiana”. 

Leia mais de Leandro Costa:

***

Assim como o universo de Toy Story nos ensina a resgatar a magia no cotidiano, é nosso dever proteger e nutrir a imaginação dos pequenos.

Em um mundo onde as telas muitas vezes roubam a inocência das crianças, escolher o que eles assistem é o primeiro passo para cultivar um espírito forte e um coração capaz de enxergar a verdadeira beleza das coisas.

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Em 1995, a Pixar (até então uma pequena empresa de hardware que passara quase uma década à beira da falência), revolucionou a arte do cinema e a indústria do entretenimento ao lançar o primeiro longa-metragem da história feito inteiramente com computação gráfica: Toy Story: um mundo de aventuras.

Este seria apenas o primeiro de vários filmes de sucesso produzidos pela Pixar, que veio a se consolidar como um dos principais estúdios de animação do mundo, foi adquirida pela Disney em 2006 e povoou o imaginário de algumas gerações de espectadores com uma série de personagens inesquecíveis. 

Para os espectadores da atualidade, no aspecto técnico o primeiro longa do estúdio pode parecer ligeiramente ultrapassado, pois, obviamente, seus gráficos ainda não estavam tão aprimorados como hoje (os movimentos dos personagens, principalmente os humanos, ainda eram robóticos, os elementos orgânicos do mundo, como a água e a grama, ainda pareciam artificiais), mas, além de ter sido, sim, revolucionário em sua técnica, já estava presente no filme o principal elemento que faria com que as narrativas da Pixar se tornassem inconfundíveis: a centralidade da história, sua complexidade humana e sua universalidade. 

A complexidade narrativa dos filmes da Pixar faria com que eles não fossem admirados apenas pelo público infantil, mas por pessoas de todas as faixas etárias. Em sua maioria, eles são exemplos do que na indústria é chamado de “filme de quatro quadrantes”: agradam tanto a homens quanto a mulheres, tanto a pessoas com menos de 25 anos quanto a pessoas que já ultrapassaram esta faixa etária. 

O universo particular criado por Toy Story é um dos mais amados porque, sob a estética infantil da animação, ele revela uma discussão profunda a respeito de temas como a passagem do tempo, a aceitação de si mesmo, a coragem, a honra, a amizade, a maturidade, a comunidade, etc. Uma série de temas universais que até são compreendidos de modo intuitivo pelas crianças, mas que são compreendidos de um modo muito mais profundo pelos adultos. 

Encontrar o seu lugar no mundo

No filme de 1995, o conflito principal gira em torno da insegurança do boneco cowboy Woody. Woody é o brinquedo preferido do menino Andy, e é o líder dos outros brinquedos do quarto, mas, com a chegada de Buzz Lightyear, um boneco espacial moderno e cheio de recursos (como asas automáticas e luzes de laser), Woody acaba sendo deixado de lado. 

Com ciúmes de Buzz, Woody o atira acidentalmente pela janela do quarto. Acreditando que ele foi parar no quintal do vizinho de Andy — Sid, um menino malvado que tortura seus próprios brinquedos —, Woody sai atrás de Buzz e, por fim, os dois bonecos acabam, de fato, indo parar na casa de Sid. 

Para sobreviver, eles precisam cooperar um com o outro até que, por fim, compreendem que havia espaço para os dois na casa de Andy. Por sua vez, Buzz Lightyear também supera sua própria “crise existencial”. Ele descobre que não é um patrulheiro das galáxias real, que é apenas um brinquedo e que esse é o seu verdadeiro papel dentro do mundo: fazer Andy feliz. 

Nascia aí uma amizade cuja base viria a sustentar todo o universo de Toy Story: de um lado, o boneco antigo, com recursos analógicos, um cowboy, símbolo do mito fundador americano do Velho Oeste. De outro, o boneco moderno, com recursos digitais, um astronauta, símbolo do novo mito americano: a conquista do espaço. 

Os ciclos da vida

Em Toy Story 2, lançado em 1999, o conflito principal diz respeito à aceitação da passagem do tempo. Se no primeiro filme Woody precisou compreender que os brinquedos se transformam com o tempo, agora todos os brinquedos precisam lidar com um problema mais profundo: as crianças crescem e, consequentemente, deixam de brincar.

No desenvolvimento do filme, Woody descobre que é um exemplar raro de sua “espécie” e, ao ser roubado por um colecionador ganancioso, se depara com a possibilidade de ir morar em um museu no Japão. Aí, em vez de ser esquecido por um menino que iria crescer e deixaria de brincar, ele seria “adorado para sempre por crianças do mundo inteiro”. 

No entanto, Buzz e os outros brinquedos de Andy o resgatam e o fazem compreender que, por mais efêmera que fosse a alegria de ser amado por Andy, era isso que dava sentido à sua vida. É também neste filme que ficamos conhecendo dois personagens que serão fundamentais nos próximos episódios: a vaqueira Jessie e o cavalo Bala no Alvo. 

Em Toy Story 3 se concretiza o anseio sentido pelos brinquedos no segundo filme : Andy acabou de completar 17 anos e está prestes a ir para a Universidade. Por um equívoco da mãe dele na arrumação do quarto, os brinquedos acabam indo parar no lixo e, depois, na creche chamada Sunnyside. Quando chegam à creche, o lugar parece um paraíso, mas, depois de algum tempo, logo se revela o completo oposto disso: na verdade, a creche é uma prisão para os brinquedos, comandada pelo autoritário Lotso, um ursinho de pelúcia que, depois de ter sido esquecido em um parque pela sua dona, passou a viver de um modo amargurado.

A recusa de Lotso em aceitar a inevitabilidade do abandono e da passagem dos ciclos da vida faz com que ele deixe de acreditar no amor, na amizade, no cuidado — e é por isso que ele se torna alguém amargo e opressor. Os amigos de Woody, por outro lado, aprendem que as mudanças da vida são inevitáveis, e aceitam o seu destino com grande maturidade — o que fica explícito, por exemplo, no clímax do filme, quando, em uma cena de grande excelência técnica, todos estão prestes a morrer no incinerador de lixo e, antes da morte, dão as mãos uns para os outros. 

Ao encarar as mudanças do tempo com uma maturidade maior, eles acabam encontrando novas possibilidades para suas vidas. E aí, seguindo a lógica dos filmes da Pixar — os quais, além da complexidade emocional, sempre trazem um final esperançoso —, os brinquedos de Andy encontram um novo lar: em vez de irem para o lixo ou para a prisão de Sunnyside, eles são doados para a menininha Bonnie, que os trata com o mesmo carinho e amor com os quais Andy cuidava deles. 

Novos caminhos

Toy Story 4 reintroduz alguns conflitos apresentados nos outros filmes: como no primeiro filme, Woody está sofrendo por estar sendo deixado de lado por Bonnie. Agora, ele pretende provar para a menina que ele é necessário na vida dela: e aí, subvertendo a sua própria postura de aceitação construída nos dois filmes anteriores, ele quer se mostrar útil, pois acredita que essa é a “última coisa que lhe resta”. E ele faz isso protegendo Garfinho, um brinquedo artesanal criado por Bonnie. 

Em termos de narrativa e de drama, Toy Story 4 é o filme mais fraco da franquia. Ele acumula muitas subtramas e apresenta o enredo mais inverossímil de todos os 4 filmes, lançando mão de várias intervenções dos brinquedos no mundo dos humanos para resolver vários de seus conflitos.

No entanto, para além da história e dos temas, é o filme que, por motivos óbvios, apresenta a maior complexidade técnica: foi realizado com uma nova forma de renderização, com a tecnologia de path tracing, um algoritmo que reproduz as luzes e as sombras de uma cena em 3D com um nível de fotorrealismo que até então nunca fora atingido. 

Basta observarmos, nesse filme, as cenas iniciais com a chuva, as cenas noturnas no parque, o momento em que Woody vê o abajur de Betty na loja de antiguidades e as luzes do abajur se espalham pela calçada, o modo como os reflexos são trabalhados na imensa variedade dos objetos da loja, etc. São momentos de grande excelência técnica em um filme cujo desenvolvimento narrativo é mais pobre do que o de seus predecessores.

No final do filme, Woody chega à conclusão de que não deve pertencer a apenas uma criança, que existem outras possibilidades para viver no mundo e, à maneira de Betty, sua antiga companheira que já sofrera com inúmeros abandonos, decide viver sem dono, ajudando outros brinquedos perdidos. Ele entrega sua estrela de xerife para Jessie, que será a protagonista do 5º filme.

Agora, em Toy Story 5, os brinquedos enfrentam um novo conflito existencial. Eles são ameaçados pelo seu maior adversário contemporâneo: a tecnologia, representada na figura de Lilypad, um tablet eletrônico que está roubando a atenção de Bonnie, fazendo com que ela não queira mais brincar com os seus brinquedos tradicionais. 

O encantamento do mundo

O que há de tão especial nessa série de filmes, uma das mais lucrativas da história, que faz com que diferentes gerações de espectadores continuem indo ao cinema para acompanhar o universo de Woody e Buzz Lightyear?

Além de algumas das qualidades já apontadas neste texto, penso que o universo de Toy Story apresenta um antídoto contra o que o escritor inglês G. K. Chesterton chamava de “prosaísmo da vida cotidiana”.

Chesterton criticava o fato de que, devido ao intenso desenvolvimento tecnológico, a nossa civilização foi se tornando cada vez mais racionalista, mais apegada a explicações da “ciência” oficial e, consequentemente, foi se distanciando de um tipo de sensibilidade que é fundamental para a vida humana: um olhar encantado para com o mundo, onde os objetos e elementos não têm apenas sua utilidade prática mais aparente, mas fazem parte de um “mundo mágico” em que podem assumir as mais diferentes formas:

“Desde cedo reagi contra a complacência com que [se] aceitava o prosaísmo da vida cotidiana. Eu costumava me divertir com o que pareciam ser fantasias impossíveis de uma poesia ligada aos objetos comuns do cotidiano: imaginava que a caixa de correio era um duende vermelho ou que o ônibus verde era um navio encantado.” 

Este olhar está presente na série de filmes criada por John Lasseter, Andrew Stanton, Lee Unkrich e Pete Docter. Para Chesterton, esse olhar encantado para o mundo não serve apenas para, como ele diz, “tornar a vida mais alegre e interessante”, mas é uma condição fundamental para a preservação da sanidade e para o cultivo do espírito e da fé.

Ao infundir alma em pedaços inanimados de plástico e de madeira, Toy Story nos convida a exercitar essa sensibilidade perdida. Em um mundo onde o racionalismo e o utilitarismo nos tornam cada vez mais insensíveis, os personagens inesquecíveis do universo de Toy Story (reflexos dos nossos anseios, das perdas que sofremos durante a vida, da necessidade de sermos amados e da angústia diante da inevitabilidade do tempo e da morte) nos ajudam a recuperar o olhar encantado necessário para que acreditemos em milagres e para que não aceitemos passivamente o “prosaísmo da vida cotidiana”. 

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***

Assim como o universo de Toy Story nos ensina a resgatar a magia no cotidiano, é nosso dever proteger e nutrir a imaginação dos pequenos.

Em um mundo onde as telas muitas vezes roubam a inocência das crianças, escolher o que eles assistem é o primeiro passo para cultivar um espírito forte e um coração capaz de enxergar a verdadeira beleza das coisas.

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