Com a chegada das férias, mães do mundo inteiro começam a ser recrutadas. Cada escola que levanta uma bandeira de rendição é imediatamente transformada em um quarto de alistamento forçado. Muitas, pegas de surpresa, gritam “por favor, de novo não!”. Outras, veteranas cansadas, aceitam o destino com resignação.
Mães temem a guerra porque sabem, como sabem todos os soldados das guerras modernas, que não há chance de vitória. As pequenas máquinas de destruição de parquinhos acordam, estão com fome, pulam no sofá e abrem fogo amigo. Gritos de soldados feridos ecoam constantemente, um ruído de fundo que se sobrepõem ao barulho da pressão. Voa o chinelo através da sala sitiada, surge o rugido feroz, “se eu tiver que ir aí, vocês vão se arrepender!” e então… então o dia termina, só para recomeçar outra vez.
Esse é um lugar “onde os fracos não tem vez”, um horror que talvez nem Ernest Hemingway conseguiria descrever.
As batalhas eclodem em um território pequeno — um apartamento, uma casa, um quintal na melhor das hipóteses — mas, pobre guerreira!, a linha de frente parece nunca se fechar. O comando é solitário, a mãe é uma general sem estado-maior, chamada à sustentar sozinha um front que, em qualquer manual de estratégia decente, exigiria batalhão.
Não há corpo que resista a um cerco de quatro ou seis semanas sozinho.
No entanto, sabemos que, muitas vezes, não é possível convocar reforços. Vivemos em cidades cada vez mais verticalizadas, andamos por ruas cada vez mais avessas à exploração motivada. E a família – que sempre se apresenta para repor a linha de frente – praticamente não existe mais.
Como nos lembra Simone Weil, daqueles relacionamentos de outrora, “o que hoje se chama por esse nome é um grupo minúsculo de seres humanos em torno de cada um; pai e mãe, marido ou mulher, filhos e filhas; irmãos e irmãs já um pouco distantes.”1
Eis o maior problema dos nossos tempos: o desenraizamento.
Não quero suavizar o cenário de terra arrasada, muito menos fazer um chamado às armas. Longe de mim, aqui, fazer o número da influencer de bem-estar que aparece na sua timeline para dizer à mãe esgotada que “veja o lado bom”, que respire, que agradeça, que romantize a bagunça como se cada rastro de tinta na parede fosse um bilhete do Menino Jesus.
Para aquelas que estão entrincheiradas, vale ecoar o mantra que diz que mães podem (e muitas vezes devem) ser “suficientemente” boas. Tudo bem ser uma mãe nota sete.
Devem ainda se lembrar que não é uma questão de vida ou morte estimular constantemente os soldadinhos com brincadeiras educativas, passeios ecológicos e demais rotinas ideais vendidas no instagram. E que, às vezes, faz bem fugir para tomar um café no shopping com as amigas.
*
Mas vejam uma situação mais curiosa.
Em alguns casos, embora os reforços estejam disponíveis, simplesmente não são acionados. Como em Stalingrado!, por orgulho de comando, o general prefere manter sua posição isolada.
É verdade, a aliança sempre tem um preço. E o preço que a família cobra não se paga em dinheiro, paga-se em soberania cedida.
A avó vai dar o doce que você não daria. Vai deixar passar da hora de dormir. Vai, sim, dar tela por tempo muito superior ao recomendado por qualquer pediatra morto ou vivo. Vai, no limite, discordar de você bem na frente da criança – e você vai ter que escolher, friamente, quanto valem as estrelas que carrega no peito.
Não existe reforço que chegue sem trazer também sua própria bandeira, seus próprios costumes, sua própria — digamos a palavra sem medo — indisciplina. Quem quer aliado sem concessão não quer aliado coisíssima nenhuma, quer só subalterno. E o subalterno você já tem (é ele quem está destruindo a casa, lembra?).
A história conta que, em 1914, no ano mais sangrento que a Europa acumulava até então, soldados de trincheiras inimigas pediram um armistício que ficou conhecido como “Trégua de Natal”. Um momento no qual Aliados e Potências Centrais atravessaram a terra de ninguém, trocaram cigarros, botões de farda e jogaram uma partida de futebol na lama.
Se inimigos declarados souberam suspender as armas nas férias, talvez a mãe possa suspender, por algumas tardes, o comando único sem que isso signifique perder a farda.
*
Então, mãe exausta, eis o conselho: aceite a colônia de férias, a ajuda paga ou doada e deixe de seguir quem diz que você precisa ser uma vitrine exemplar e impecável.
E, para quem ainda tem um pouco de calor em meio ao frio glacial que se instalou em pleno verão da modernidade, levante a bandeira branca. Aceite o doce, a tela. Aceite que a avó vai fazer diferente e vai fazer, ainda assim, bem-feito.
A trégua de Natal não tornou a guerra menos guerra, apenas provou que até nas piores trincheiras existe gente disposta a atravessar o campo para te dar uma tarde de paz.
Aproveitem!
Nota de rodapé:
Com a chegada das férias, mães do mundo inteiro começam a ser recrutadas. Cada escola que levanta uma bandeira de rendição é imediatamente transformada em um quarto de alistamento forçado. Muitas, pegas de surpresa, gritam “por favor, de novo não!”. Outras, veteranas cansadas, aceitam o destino com resignação.
Mães temem a guerra porque sabem, como sabem todos os soldados das guerras modernas, que não há chance de vitória. As pequenas máquinas de destruição de parquinhos acordam, estão com fome, pulam no sofá e abrem fogo amigo. Gritos de soldados feridos ecoam constantemente, um ruído de fundo que se sobrepõem ao barulho da pressão. Voa o chinelo através da sala sitiada, surge o rugido feroz, “se eu tiver que ir aí, vocês vão se arrepender!” e então… então o dia termina, só para recomeçar outra vez.
Esse é um lugar “onde os fracos não tem vez”, um horror que talvez nem Ernest Hemingway conseguiria descrever.
As batalhas eclodem em um território pequeno — um apartamento, uma casa, um quintal na melhor das hipóteses — mas, pobre guerreira!, a linha de frente parece nunca se fechar. O comando é solitário, a mãe é uma general sem estado-maior, chamada à sustentar sozinha um front que, em qualquer manual de estratégia decente, exigiria batalhão.
Não há corpo que resista a um cerco de quatro ou seis semanas sozinho.
No entanto, sabemos que, muitas vezes, não é possível convocar reforços. Vivemos em cidades cada vez mais verticalizadas, andamos por ruas cada vez mais avessas à exploração motivada. E a família – que sempre se apresenta para repor a linha de frente – praticamente não existe mais.
Como nos lembra Simone Weil, daqueles relacionamentos de outrora, “o que hoje se chama por esse nome é um grupo minúsculo de seres humanos em torno de cada um; pai e mãe, marido ou mulher, filhos e filhas; irmãos e irmãs já um pouco distantes.”1
Eis o maior problema dos nossos tempos: o desenraizamento.
Não quero suavizar o cenário de terra arrasada, muito menos fazer um chamado às armas. Longe de mim, aqui, fazer o número da influencer de bem-estar que aparece na sua timeline para dizer à mãe esgotada que “veja o lado bom”, que respire, que agradeça, que romantize a bagunça como se cada rastro de tinta na parede fosse um bilhete do Menino Jesus.
Para aquelas que estão entrincheiradas, vale ecoar o mantra que diz que mães podem (e muitas vezes devem) ser “suficientemente” boas. Tudo bem ser uma mãe nota sete.
Devem ainda se lembrar que não é uma questão de vida ou morte estimular constantemente os soldadinhos com brincadeiras educativas, passeios ecológicos e demais rotinas ideais vendidas no instagram. E que, às vezes, faz bem fugir para tomar um café no shopping com as amigas.
*
Mas vejam uma situação mais curiosa.
Em alguns casos, embora os reforços estejam disponíveis, simplesmente não são acionados. Como em Stalingrado!, por orgulho de comando, o general prefere manter sua posição isolada.
É verdade, a aliança sempre tem um preço. E o preço que a família cobra não se paga em dinheiro, paga-se em soberania cedida.
A avó vai dar o doce que você não daria. Vai deixar passar da hora de dormir. Vai, sim, dar tela por tempo muito superior ao recomendado por qualquer pediatra morto ou vivo. Vai, no limite, discordar de você bem na frente da criança – e você vai ter que escolher, friamente, quanto valem as estrelas que carrega no peito.
Não existe reforço que chegue sem trazer também sua própria bandeira, seus próprios costumes, sua própria — digamos a palavra sem medo — indisciplina. Quem quer aliado sem concessão não quer aliado coisíssima nenhuma, quer só subalterno. E o subalterno você já tem (é ele quem está destruindo a casa, lembra?).
A história conta que, em 1914, no ano mais sangrento que a Europa acumulava até então, soldados de trincheiras inimigas pediram um armistício que ficou conhecido como “Trégua de Natal”. Um momento no qual Aliados e Potências Centrais atravessaram a terra de ninguém, trocaram cigarros, botões de farda e jogaram uma partida de futebol na lama.
Se inimigos declarados souberam suspender as armas nas férias, talvez a mãe possa suspender, por algumas tardes, o comando único sem que isso signifique perder a farda.
*
Então, mãe exausta, eis o conselho: aceite a colônia de férias, a ajuda paga ou doada e deixe de seguir quem diz que você precisa ser uma vitrine exemplar e impecável.
E, para quem ainda tem um pouco de calor em meio ao frio glacial que se instalou em pleno verão da modernidade, levante a bandeira branca. Aceite o doce, a tela. Aceite que a avó vai fazer diferente e vai fazer, ainda assim, bem-feito.
A trégua de Natal não tornou a guerra menos guerra, apenas provou que até nas piores trincheiras existe gente disposta a atravessar o campo para te dar uma tarde de paz.
Aproveitem!
Nota de rodapé:
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