Você acha justo reduzir a Bahia à condição de “vergonha do Brasil” em razão de um resultado eleitoral?
Não sei qual é a sua resposta, mas a minha é negativa — e eu tenho fundamentos para isso.
Não tenho a menor obrigação de concordar com o voto dos baianos. Há uma comodidade intelectual nesse julgamento. Um estado que participou decisivamente da formação do Brasil e sofreu os efeitos de decisões tomadas durante séculos passou a ser tratado como se seus problemas tivessem começado na última eleição.
Desaparecem os governantes anteriores, as elites locais, as relações com o poder central e as circunstâncias históricas que ajudaram a produzir sua realidade social. Resta apenas o eleitor, convertido em culpado universal. Do ponto de vista historiográfico, essa operação tem nome: presenteísmo, ou seja, quando o acontecimento mais recente passa a orientar a interpretação de uma sociedade, enquanto processos anteriores são desconsiderados e/ou selecionados conforme a conveniência do argumento.
O verbo “ser” associa a Bahia a um predicativo que pretende caracterizá-la. Uma circunstância eleitoral converte-se em atributo coletivo. Para um historiador, essa passagem é problemática: substitui a investigação dos processos pela atribuição de uma essência. Vale recuperar um pouco da história que desaparece nessa acusação.
Salvador foi fundada em 1549 e tornou-se a primeira capital do Estado do Brasil. Durante mais de dois séculos, ocupou posição central na administração portuguesa na América, no comércio atlântico e na economia açucareira. Grande parte da riqueza produzida naquele território dependia da escravidão. Em 1763, a transferência da capital para o Rio de Janeiro acompanhou mudanças na distribuição do poder econômico e político da colônia. A instalação da Corte portuguesa, em 1808, aprofundaria a centralidade do Rio de Janeiro. A Bahia, que havia ocupado um lugar privilegiado na administração colonial, passou a integrar um país cujos centros decisórios se deslocavam. Nem por isso sua participação na formação brasileira se tornou secundária.
A Independência, tantas vezes resumida ao episódio do Ipiranga, precisou ser disputada militarmente em território baiano. O 2 de julho de 1823 marcou a expulsão das forças portuguesas de Salvador e foi decisivo para a consolidação territorial do Império. A Revolta dos Malês, a Sabinada e os debates sobre a escravidão revelaram uma sociedade atravessada por conflitos políticos e sociais. André Rebouças, Castro Alves e Rui Barbosa participaram, de maneiras distintas, das discussões nacionais sobre direitos, abolição e instituições.
Posteriormente, Pedro Calmon, Jorge Amado, Glauber Rocha e Milton Santos ampliariam essa contribuição intelectual. Não pretendo organizar uma procissão de baianos ilustres para absolver o estado de seus pecados. Seria trocar uma bobagem por outra. Menciono-os porque (como já dito) a Bahia participou da elaboração do próprio Brasil, inclusive de seus conflitos e de suas contradições. Quem pretende falar dela como uma espécie de corpo estranho à nação precisa, antes, conhecer alguma coisa dessa história.
E Canudos? Em 1897, a República destruiu uma comunidade sertaneja organizada em torno de Antônio Conselheiro.
Não pretendo estabelecer uma relação causal entre aquele massacre e os problemas atuais da Bahia, mas confesso que me causa repulsa observar como os brasileiros mais vulneráveis continuam sendo julgados com uma severidade que raramente se aplica aos grupos responsáveis por governá-los.
Canudos nos obriga a examinar, entre outras coisas, a violência do poder público diante daqueles que viviam à margem de suas instituições. Não é pouca coisa.
Durante a Primeira República, o poder das oligarquias conviveu com disputas que culminaram, entre outros episódios, no bombardeio de Salvador em 1912 e na ascensão de José Joaquim Seabra. A Revolução de 1930 modificou esse quadro, sobretudo com a nomeação de Juracy Magalhães para a interventoria estadual.
A ruptura de 1964 inaugurou outra etapa desse processo, oferecendo as condições para a ascensão de Antônio Carlos Magalhães. Foi nesse contexto que o “carlismo” se consolidou como uma das principais forças da política baiana, mantendo expressivo poder mesmo após a redemocratização. Sua presença não se limitava ao governo estadual, abrangendo lideranças municipais, representantes no Congresso e setores da administração pública.
Paulo Souto venceu a eleição estadual de 1994, quando Fernando Henrique Cardoso também derrotou Lula entre os eleitores baianos. César Borges foi eleito em 1998, e Souto retornou ao governo em 2002. A Bahia era virtuosa quando votava no PFL?
Gostaria que algum desses fiscais da dignidade eleitoral explicasse o fenômeno. Somente em 2006, com a vitória de Jaques Wagner, o PT iniciou uma sequência de administrações estaduais.
Se o voto majoritário fosse suficiente para definir moralmente uma população, seria necessário explicar a natureza política baiana durante a hegemonia do PFL. E antes que algum entusiasmado patriota interprete minha argumentação como uma defesa do PT, convém registrar o óbvio ululante: seus governos devem responder integralmente pelas responsabilidades que lhes cabem. Depois de tantos anos à frente do Executivo estadual, seria ridículo atribuir aos antecessores todos os problemas que continuam sem solução. Ok? Pedágio devidamente pago. Prossigo.
O resultado eleitoral expressa determinada configuração de forças, não uma característica permanente dos habitantes de um estado. Mais importante é reconhecer que as dificuldades estruturais enfrentadas pela Bahia não começaram com a chegada do PT ao Executivo estadual.
O moralista dispensa essas distinções. Para ele, basta saber quem venceu. Há uma inversão particularmente incômoda quando as condições sociais de uma população são utilizadas para desqualificar suas escolhas políticas sem que se investigue a atuação daqueles que exerceram o poder durante décadas.
Transferir integralmente aos governados o peso de processos históricos prolongados significa reduzir a política à censura moral de seus participantes. A história eleitoral brasileira apresenta deslocamentos que precisam ser compreendidos segundo as condições específicas de cada período. Também vale observar que a expressão “a Bahia votou” constitui uma simplificação estatística. Salvador, o Recôncavo, o oeste agrícola e o semiárido apresentam trajetórias econômicas, sociais e políticas específicas. A formação de uma maioria estadual não elimina a existência de minorias, tampouco torna uniformes as motivações daqueles que escolheram a mesma candidatura. Atribuir a milhões de habitantes uma responsabilidade moral coletiva significa ignorar diferenças que a própria distribuição dos votos permite identificar.
Não estou sugerindo que a importância histórica da Bahia deva servir de desculpa para seus problemas presentes, mas façam isso com critérios que permitam distinguir responsabilidades. É legítimo discordar das escolhas de uma maioria. O exercício do sufrágio não exige que os cidadãos votem conforme as expectativas de observadores externos.
Importa distinguir, nesse sentido, o resultado de uma eleição, o processo de formação das maiorias políticas e a trajetória das instituições que condicionam a vida social. São escalas diferentes. Confundi-las impede compreender tanto as escolhas dos eleitores quanto as responsabilidades dos grupos que exerceram o poder. A crítica sociológica não perde força quando incorpora a história. Ao contrário, torna-se mais precisa na identificação de seus responsáveis.
A Bahia não começou com o PT. Reduzi-la à condição de vergonha nacional não esclarece suas contradições nem identifica as responsabilidades por seus problemas. Apenas transforma o resultado de uma eleição em condenação de uma sociedade.





