O leitor está familiarizado com o conceito de “easter egg”? É quando propositalmente se coloca num filme uma referência discreta que só os mais observadores ou fãs perceberão.
Em Devoradores de Estrelas, por exemplo, na cena em que há o primeiro encontro do humano com o alienígena, este cantarola o tema de Contatos Imediatos de Terceiro Grau, clássico da ficção científica dirigido por Steven Spielberg.
O curioso aqui é que esse “easter egg” foi proposto pelo próprio Spielberg aos diretores Phil Lord e Christopher Miller, que imediatamente aceitaram. Spielberg achou cabível ao conhecer o filme durante seu desenvolvimento. Acho que não apenas pela semelhança com o seu neste ponto, mas muito pela forma dos diretores fazerem cinema, que não deixa de ser uma continuidade da sua.
No caso, continuidade significa também um resgate. No cinema de ficção científica de Spielberg e outros diretores relevantes, como Robert Zemeckis, a ideia central era a de que o desconhecido devia inspirar curiosidade e maravilhamento, não apenas medo. Devoradores de Estrelas parte dessa ideia também.
A premissa do filme é um lugar comum: uma missão desesperada para salvar a Terra de uma ameaça cósmica. Mas a forma como Lord e Miller contam essa história traz um frescor genuíno, reproduzindo o encantamento que Spielberg e Zemeckis conseguiram com maestria em filmes como E.T. e De Volta Para o Futuro.
A trama é dramática. A Terra vai ser destruída e depende de apenas um homem sozinho no espaço, que nem astronauta é, para salvá-la. Mas em vez de retratar isso como um pesadelo ou uma tragédia épica, preferiu-se a aventura e deslocou o conflito com alienígenas para uma colaboração.
O centro emocional do filme está na amizade entre Rocky, o alien, e Ryland, o homem, interpretado - e bem - por Ryan Gosling. Ambos são sobreviventes solitários de missões suicidas que aprendem a confiar um no outro. Mais do que o medo do desconhecido, há aqui a possibilidade de conexão real que desarma, encanta e transforma. Dificilmente se encontra algo mais “spielbergiano” do que isso.
Tecnicamente, o filme é bem feito. A fotografia de Greig Fraser constrói uma ficção científica limpa, geométrica, que sabe produzir imagens de solidão cósmica com impacto. A trilha sonora de Daniel Pemberton é comedida, sendo épica e lírica nos momentos certos, sem tomar a frente da cena. A mesma coisa acontece com os efeitos especiais que funcionam como ferramentas narrativas sem se tornar protagonistas.
Mas o filme padece de um mal do nosso tempo, que vem sendo reformatado pela experiência do streaming: a história é didática demais. Tudo precisa ser verbalizado, detalhado, arrematado por uma piada ou um momento de emoção sublinhada. Muitas vezes Rocky acaba parecendo menos um alien e mais um pet. Os flashbacks, embora funcionem, por vezes travam a narrativa. E no fim o filme parece hesitar entre os vários possíveis finais, escolhendo o mais óbvio.
Outra coisa que me incomoda é o abuso da fórmula usada por James Gunn em Os Guardiões da Galáxia e que vem sendo replicada em quase todos os filmes de super-herói. Refiro-me ao encavalamento de piadinhas adolescentes. Em vários momentos parecia que eu estava assistindo a algum dos Guardiões da Galáxia, até pela semelhança visual de Rocky com Groot.
Ainda assim, os méritos são maiores do que os defeitos. Levando-se em conta que vivemos em uma época saturada de remakes e sequências, Devoradores de Estrelas acaba parecendo mais original do que de fato é. Os diretores entregaram uma obra digna de Spielberg, Zemeckis e outros, tratando o drama como sendo tão importante quanto o maravilhamento com a história. Funcionou, não por acaso se tornou um fenômeno de bilheteria.





